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    Ataraxia: o estado mental que pode te ajudar nos investimentos

    Ataraxia: o estado mental que pode te ajudar nos investimentos

    Como a leitura de Epicuro e dos filósofos estoicos, como Sêneca e Epitecto, pode auxiliar o investidor de renda variável a lidar com a angústia relacionada às incertezas e aos riscos inerentes dos mercados de capitais, onde o temperamento é tão importante quanto o repertório técnico dos agentes envolvidos.

    O ser humano é um animal racional e emocional. Graças a essas duas características ele foi capaz de se desenvolver para muito além da vital capacidade de buscar alimento para sobreviver. Muito do conhecimento científico e artístico da humanidade pode ser aprendido de forma racional, mas o correto emprego de certas faculdades pode ser dificultado pelo lado emocional que domina grande parte das pessoas.

    Ainda no fim da adolescência é comum que estudantes, que passaram anos acumulando ótimas notas na escola, sejam reprovados em vestibulares para concorridas universidades, não pela falta de domínio das matérias requeridas, mas pelo nervosismo no dia da prova. A ansiedade provoca até o esquecimento de regras elementares de gramática e de fórmulas matemáticas simples, por exemplo.

    Da mesma forma, certos profissionais especializados deixam de ser contratados pelas empresas, pois no dia da entrevista não passaram a confiança necessária para os examinadores que, mesmo cientes do nervosismo típico da ocasião, avaliam também como isso é enfrentado pelos candidatos. Mesmo alguns que são aprovados para as vagas, em função de seu notório saber a respeito do ofício, acabam perdendo o emprego em função do comportamento conflitante perante os colegas.

    No mercado financeiro, a dualidade entre razão e emoção também é determinante para o sucesso ou fracasso dos investidores. As corretas estratégias de investimentos não são segredos de estado e estão disponíveis para os interessados, como focar no longo prazo, levar em conta os fundamentos das empresas e fundos, atentar para a gestões dos negócios e observar os ciclos econômicos, entre outros fatores.

    Se as boas posturas para transacionar ativos financeiros na Bolsa de Valores parecem evidentes para quem já tem certa experiência no assunto, qual seria a razão de nem todos vencerem neste segmento, com o passar dos anos? Mais uma vez a resposta está no campo das emoções: quando elas tomam conta do investidor, ele comprará uma ação cara num contexto de euforia e a venderá barata no momento de pânico generalizado quando, teoricamente, deveria fazer o contrário.

    Aprenda a lidar com os riscos e as emoções

    A solução para investir bem seria reprimir todas as emoções? Não. Em primeiro lugar, isto seria impossível. Em segundo lugar, isto conduziria a um estado de apatia, no sentido atual da palavra, quando o sujeito passa a ser indiferente às emoções e pode se prejudicar ao perder a capacidade de reação a um perigo real, por exemplo.

    Vale lembrar que o conceito original de apatia era diferente no tempo dos estoicos, cuja filosofia pregava a busca pela ausência de sofrimento, no sentido de se atingir a imperturbabilidade – algo que poderia ser conquistado pelo autoconhecimento através de frequentes reflexões.

    Portanto, ao invés de tratarmos da apatia como algo benéfico para estudantes, trabalhadores e investidores, em função da interpretação errônea que isso poderia causar, vamos adotar um termo mais preciso, pregado pelos epicuristas, cuja filosofia também floresceu na Grécia e na Roma Antiga: a ATARAXIA, que engloba o sentimento de tranquilidade advindo do domínio das emoções, possível de ser alcançado mediante a autocontemplação.

    O objetivo de atingir o estado de ataraxia não é eliminar as emoções, pois isto, no caso dos investidores, seria como tentar eliminar os riscos dos investimentos. A questão é aumentar a capacidade de controle, tanto dos riscos como das emoções, aprendendo a lidar com ambos de forma serena e equilibrada.

    Epicuristas e estoicos – a despeito das diferenças básicas entre eles (enquanto os epicuristas querem evitar a dor e valorizar os bons prazeres, os estoicos miram no desenvolvimento das virtudes pessoais) – possuem várias afinidades, entre elas a necessidade de converter sentimentos ditos insalubres em sentimentos saudáveis. Deste modo, o medo pode dar lugar para a cautela, ao passo que a ganância deve ser suprimida em prol de uma vontade sincera de crescimento pessoal.

    Obviamente, um dos caminhos para chegar ao estado mental da ataraxia, que pode ser muito útil especialmente no campo dos investimentos, é ler a respeito dos clássicos autores epicuristas e estoicos, cabendo fazer uma ressalva: a filosofia que eles praticavam não tinha como fim “mundano” o enriquecimento uma vez que, no ambiente onde viviam, a mobilidade de classes era inexistente, de modo que Epiteto foi escravo na juventude e Marco Aurélio terminou seus dias como imperador. Independente dos status sociais deles, ambos trazem lições perenes para o nosso tempo e estudá-las é valido para além dos benefícios financeiros, senão para vários aspectos de nossas vidas.

    Por onde começar?

    Sem a pretensão de apresentar um guia de filosofia para investidores, listo a seguir algumas referências sobre leituras introdutórias ao tema do epicurismo e estoicismo, para quem desejar saber mais sobre como perceber a ataraxia como efeito colateral da busca incessante pela sabedoria:

    Epicuro (341 – 270 a.C.) nasceu na Ilha de Samos, mas desenvolveu sua escola de pensamento em Atenas, na Grécia Antiga. Pouco de seus escritos sobreviveu ao tempo, mas o que chegou até nós reflete que o propósito do ser humano é ser feliz. Na “Carta a Meneceu sobre a felicidade” (https://amzn.to/3eUwW9M) o filósofo helenístico prega os cuidados com a saúde do corpo e a serenidade do espírito, conforme destacado nas seguintes passagens:

    “Que ninguém se demore a buscar a sabedoria quando for jovem, nem se canse na busca dela quando envelhecer. Pois nenhuma idade é muito cedo ou muito tarde para a saúde da alma.”

    “Devemos lembrar que o futuro não é totalmente nosso nem totalmente impedido a nós, de modo que não devemos contar tão certamente com ele, nem nos desesperar tanto temendo que não venha.”

    Marco Túlio Cícero (106 – 43 a.C.) foi um dos maiores juristas e políticos da República Romana, onde foi cônsul, tendo se destacado pela oratória e pelos textos de caráter filosófico. Suas cartas ficaram esquecidas por séculos, até serem descobertas pelos renascentistas, com influências sentidas pelos iluministas posteriormente. De “Saber envelhecer seguido de A amizade” (https://amzn.to/3h5IXfg) registramos os seguintes conselhos:

    “A volúpia corrompe o julgamento, perturba a razão, turva os olhos do espírito e nada tem a ver com a virtude.”

    “Alguns amam mais as riquezas, outros a saúde, outros o poder, outros as honrarias, muitos preferem ainda os prazeres. Essa última escolha é a dos brutos, mas as escolhas precedentes são precárias e incertas, repousam menos sobre nossas resoluções que sobre os caprichos da fortuna. Quanto aos que colocam na virtude o soberano bem, sua escolha certamente é luminosa, já que essa mesma virtude que faz nascer a amizade e a conserva, pois, sem virtude, não há amizade possível!”

    Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C. – 65) foi, talvez, o maior dos filósofos estoicos, posto que colocou em prática seus ensinamentos no momento em que foi condenado ao suicídio pelo imperador Nero, de quem havia sido conselheiro. Sua obra é estudada e repercutida por vários autores pós-modernos, entre eles Nassim Taleb. Em “Aprendendo a viver” (https://amzn.to/3vKFdnn) seu pensamento ético transborda os limites de sua era:

    “Por que olhas para o cofre? A liberdade não pode ser comprada. Assim, é inútil colocar a liberdade em documentos: não pode ser comprada nem vendida. Esse bem deves dar a ti mesmo, peça-o para ti. Primeiro, livra-te do medo da morte, pois ela nos impõe o seu jugo, e, depois, deves perder o medo da pobreza.”

    “Desprezível é a alma obcecada pelo futuro, é infeliz antes da infelicidade, deseja ter para sempre as coisas que lhe causam prazer. Não terá descanso, e a necessidade de conhecer o futuro lhe fará deixar de lado o presente que poderia ser melhor desfrutado. Temer a perda de algo é o mesmo que já não tê-lo mais consigo.”

    Epicteto (55 – 135) passou a maior parte de sua vida em Roma, como escravo de Epafrodito. Apôs tornar-se cidadão livre, porém, acabou expulso da Cidade Eterna pelo imperador Domiciano, que era avesso aos filósofos. Assim como Sócrates, não escrevia cartas ou livros, transmitindo seus conhecimentos oralmente. Um de seus discípulos, Flávio Arriano, foi quem registrou “O Manual de Epicteto” (https://amzn.to/3eTBLQB), cujos aforismos ecoam até hoje:

    “Afinal, existe alguma coisa que seja indiscutivelmente um bem para o homem? Há, sim: a sabedoria. Somente a sabedoria propicia a verdadeira boa fortuna, pois apenas ela transforma o que acontece aos mortais em bens. A sabedoria possibilitará ao homem desfrutar sua saúde e ser perseverante na doença, fazer bom uso tanto da beleza física quanto da feiura, não ver no ‘status’ social um mérito ou um demérito próprio ou alheio, usufruir o prazer e suportar a dor quando for preciso. A sabedoria, enfim, permitirá ao homem ser livre, viver bem e morrer bem.”

    “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa – em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja ação nossa. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem.”

    Marco Aurélio (121 – 180) foi o imperador romano mais próximo dos filósofos, sendo ele mesmo um adepto do estoicismo, escrevendo suas reflexões numa espécie de diário que foi resgatado por historiadores após sua morte precoce, em função de uma epidemia que assolou toda a península itálica. As “Meditações” de Marco Aurélio (https://amzn.to/3f0L5SV) tornaram-se um best-seller em pleno século XXI, muito em função do teor terapêutico de suas palavras:

    “Hoje escapei de todas as circunstâncias difíceis e desfavoráveis; ou melhor, arremessei fora todas as circunstâncias difíceis e desfavoráveis; com efeito, não se achavam fora de mim, mas dentro de mim, nos pontos de vista que eu sustentava.”

    “Examina as coisas formais a nu, ou seja, despidas de seus envoltórios; as referências e finalidades das ações, o que é a dor, o que é o prazer, o que é a morte, o que é a reputação, quem é aquele que é causa para si de suas próprias dificuldades, como ninguém constitui uma barreira para outras pessoas, que tudo não passa de opinião.”

    Refletir, ser independente e solidário

    A leitura dos filósofos do período pré-medieval, quando o cristianismo ascendeu como principal religião praticada na Europa Ocidental, soa amigável e de fácil compreensão. Em linhas gerais, os epicuristas e estoicos dão valor para as meditações diárias, para o cultivo das amizades e para a independência de pensamento – esta, por sinal, é uma meta aconselhada pelos investidores bem-sucedidos, que tomam suas decisões sobre algum negócio considerando a abordagem de terceiros num processo dialético, mas sem abrir mão das próprias conclusões.

    Aqui retornamos ao ponto de partida: não basta ler sobre os filósofos e não praticar seus ensinamentos que remanescem cristalinos pela filtragem dos séculos decorridos. O que é aprendido com o lado racional, deve ser absorvido também pelo lado emocional de cada um. Em consonância com este princípio, reproduzo o memorial que encerra o livro “Cultivando Rendimentos” (https://amzn.to/2Sdpi2y), cuja versão impressa foi entregue pela Editora CL-A em abril de 2021:

    Sobre o que ninguém pode ensinar

    Quem resolve estudar para investir no mercado de capitais tem muito que aprender. “Aprender” será um verbo conjugado até o fim dos dias. Muito do conhecimento sobre a Bolsa pode ser aprendido por meio de livros, cursos e palestras – especialmente o conhecimento técnico.

    Porém, tem algo que nenhum guru da TV ou autor famoso pode ensinar para um investidor novato: como se comportar diante dos altos e baixos do mercado financeiro. As pessoas podem falar sobre isso e dar incontáveis exemplos de como proceder, mas é preciso estar na pele do investidor para atravessar, na prática, os momentos de euforia e depressão.

    Ou seja, existem professores teóricos de instrumentos musicais e existem músicos. Músicos são aqueles que praticam, tocando seus instrumentos diariamente. Portanto, investidores são apenas aqueles que investem.

    Quando a Bolsa começa a cair, tem gente que sabe que não é hora de vender uma boa ação. Ao contrário: é hora de comprar. Porém, muitas dessas pessoas que não suportam ver o patrimônio cair vendem os ativos contra todas as orientações que recebem. É uma questão de comportamento, não de conhecimento técnico.

    Por isso, há pessoas que passam vários anos estudando o mercado e não são bem-sucedidas, ao passo que alguns novatos assimilam a necessidade de manter o equilíbrio emocional já na primeira tormenta.

    Quem sabe que o mercado vive ciclos alternados de marés altas e baixas terá mais condições de enxergar o todo como se fosse um observador na plateia de um teatro, vendo os atores a chorar ou a gargalhar no palco. A diferença é que o investidor observador também atua, mas sem chamar a atenção.

    Dominar as emoções para reagir com sabedoria aos momentos imprevistos e instáveis do mercado financeiro: eis o que ninguém pode ensinar, mas que todo investidor deve aprender.

    Dominar as emoções para investir melhor: é possível? Sim. Por meio da ataraxia. Como? Lendo sobre filosofia, alimentando o amor pelo saber.

    [Crédito da imagem: “Paisagem com as Ruínas do Templo Redondo, com uma Estátua de Vênus e um Monumento a Marcus Aurelius” (1789), pintura de Hubert Robert (1733-1808) pertencente ao acervo do Hermitage Museum de São Petersburgo, Rússia]

    Jean Tosetto
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