Selic em 2022: analistas divergem nas previsões; mas eleições e teto de gastos preocupam todos

Selic em 2022: analistas divergem nas previsões; mas eleições e teto de gastos preocupam todos
Estimativas são de que os juros terminem o ano de 2021 acima de 8% ao ano - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom Agência Brasil

Com a escalada na taxa de juros e a alta de um ponto percentual na Selic na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), para 5,25% ao ano, é praticamente certo que o Banco Central manterá uma postura cada vez mais austera na política econômica neste segundo semestre de 2021. Ou seja, vai seguir uma abordagem hawkish. termo utilizado para descrever condução mais rígida, pautada por juros mais altos, de controle da inflação e com sacrifício na trajetória do crescimento econômico.

O Copom sinalizou esse caminho no último comunicado e na ata do comitê, divulgada em 10 de agosto. Mas e para 2022? Qual deve ser a orientação do BC em relação à taxa Selic? Analistas preveem um cenário de indefinições, o que indica novas altas no próximo ano.

As incertezas em torno da Selic ao longo do próximo ano incluem, além da inflação, eleições, risco fiscal e influência externa  — tudo isso com perspectivas ainda nebulosas sobre o fim da pandemia, tendo a variante delta ainda no radar e retomada econômica imprevisível.

A expectativa é de que a curva se mantenha apontando para cima, com taxa de juros de 7,5% ao ano até o fim de 2021. O Boletim Focus, divulgado pelo BC nesta segunda (23),  manteve a sua previsão para Selic em 7,50% para 2021, embora há um mês a projeção estivesse em 7%.

Ainda assim, em 2022, dizem os analistas, pode até ocorrer uma estabilização da taxa de juros, com poucas altas, a depender do cenário.

Cortes na taxa em 2022? Pouco prováveis

Na visão de Igor Barenboim, sócio e economista chefe da Reach Capital, os juros tendem a ficar no mesmo patamar no ano que vem, sem chances de cortes ou elevações abruptas.

“Temos muitas peças se movendo, deixando o leque de saídas muito restrito e difícil. Como o cenário também conta com eleição, as incertezas dominam o horizonte. Para complicar, há a crise hídrica pressionando a inflação, combinação que não deve sair do noticiário tão cedo. Depois que terminarmos o ciclo de alta este ano, acho que se tem pouco espaço para corte de juros em 2022″, analisa.

Na expectativa para a Selic, Yuri Cavalcante, sócio e assessor de investimentos da Aplix, faz uma previsão semelhante. Em um cenário com condições normais de temperatura e pressão, a taxa deve se manter estável em 2022, mas qualquer adversidade pode colocar o cenário em cheque.

“Tentar acertar o número da taxa em um cenário turbulento é praticamente impossível. Mas em um cenário complicado de eleições, por exemplo, teríamos um aumento da taxa de juros para tentar equilibrar esse viés de risco. O principal ponto é a questão do teto de gastos. É importante a discussão de como vão ser financiados alguns programas sociais como o Auxílio Brasil [novo Bolsa Família]. Isso deve ser a principal preocupação”, afirma.

Escalada também é fruto de baixa histórica da Selic

Em 2020, em decorrência da pandemia, o Bacen reduziu a Selic para os menores níveis da histórica, a 2% ao ano, em uma postura dovish – respondendo à crise sanitária e estimulando o consumo. Mas os movimentos da instituição foram, de acordo com os economistas, em algum nível responsáveis pela inflação atual, considerada exorbitante.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial, registrou alta de preços de 0,89% em agosto. A taxa é superior ao 0,72% de julho deste ano e a maior variação para um mês de agosto desde 2002 (1%).

IPCA-15 acumula taxas de inflação de 5,81% no ano e de 9,30% em 12 meses, segundo dados divulgados na quarta (25) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao menos quatro capitais estão com alta em dois dígitos: Porto Alegre (10,37%), Goiânia (10,67%), Fortaleza (11,37%) e Curitiba (11,43%)

Alguns economistas preferem poupar críticas ao BC em razão da total instabilidade do cenário. “Cavalo corrido é fácil de falar. Ninguém tem dúvida que deu errado, já que agora a inflação se mostra cada vez mais elevada. Em 2020, eu dizia que não daria para baixar tanto a taxa”, afirma Barenboim, da Reach.

A inflação, atualmente, segue em escalada. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), teve variação de 0,96% de alta no dado reportado em 10 de agosto e referente ao mês de julho, número novamente mais alto das expectativas do mercado.

A alta em questão foi a maior desde 2002, se considerarmos somente o mês de julho. Com isso, o anualizado do índice já apresenta um crescimento de 8,99% no anualizado.

Escalada do IPCA surpreendeu negativamente o mercado - Gráfico: IBGE
Escalada do IPCA surpreendeu negativamente o mercado – Gráfico: IBGE

“Eu entendo que o melhor cenário, e possível, é de alguma desaceleração. Esses choques temporários não devem se materializar na mesma intensidade no ano que vem. A inflação, acima da meta do Banco Central e maior que a dos anos anteriores, pode retroceder em relação a este ano, com o avanço da vacinação e retomada da economia com o fim das medidas de restrição”, analisa José Mauro Delella, consultor da Alta Vista investimentos.

Santander vê 6,25% em setembro

Em relatório publicado no início de agosto, o Santander (SANB11) mostra uma expectativa para os juros dentro do consenso, com Selic a 7,5% no final deste ano, caindo para 7% apenas em 2023, quando o banco prevê que o IPCA fique na meta intermediária.

Ao nosso ver, uma resposta mais hawkish do BCB, principalmente o sinal de um maior ajuste total da taxa de juros neste ciclo (ou seja, alcançando um panorama contracionista agora), era garantido. Acreditamos que esta é a melhor resposta para as crescentes pressões inflacionárias. Continuamos esperando nova alta da Selic de 100 bps. basic points (para 6,25%), em setembro e consequente movimento de 75 bps em outubro”, diz o time de análise.

Ajustes da Selic nas reuniões mais recentes do Copom - Tabela: Banco Central do Brasil
Ajustes da Selic nas reuniões mais recentes do Copom – Tabela: Banco Central do Brasil

Além disso, os analistas ressaltam que incorporam aos estudos “um último movimento de 50 bps em dezembro na linha de base cenário”, o que eleva a previsão da Selic ainda em 2021 de 7% para 7,5%.

Fed é uma peça pesada no tabuleiro

No radar e nas discussões do mercado a cada reunião do Copom, as decisões do Federal Reserve (Fed) também são um grande norte para os analistas. O banco americano encontra-se em situação parecida com a do Brasil, guardadas as proporções, por causa do panorama pós-covid, mas lida com um risco fiscal menor e um passado com juros mais estáveis – baixos, porém seguindo a naturalidade.

“Quando olhamos para bancos centrais exteriores, vemos BCs menos expansionistas. Não vejo decisões semelhantes às que são tomadas pelo Bacen no Brasil. Aqui, nos antecipamos ao processo de crescimento inflacionários. O Brasil foi um dos primeiros a subir juros. O Fed ainda está dando sinais de que vai começar com o tappering”, cita Delella.

Além do risco fiscal e das eleições, alguns analistas veem uma possibilidade de influência das decisões em solo americano — considerando que a discussão da natureza da inflação é praticamente igual à que é feita aqui. O grande ponto é se a inflação vista é temporária ou permanente.

“É algo a se observar e acho que em geral o mercado tem dado muito pouco peso para isso. Assim como no Brasil, existe esse debate se a inflação tem caráter permanente ou não. Os mercados não se estressaram em virtude da sinalização do Fed e a população ainda acredita no caráter da inflação como fruto da pandemia. Porém, há uma pequena probabilidade de essa inflação ser mais acentuada e até permanente – e esse foi o justamente o tom da última reunião do Fomc“, afirma João Beck, especialista em investimentos e sócio da BRA, escritório vinculado à XP.

O investidor e a alta da Selic

Outro debate frequentemente levantado com a escalada dos juros é a mudança na estratégia de investimentos, visando mais ativos de renda fixa – considerando que juros baixos tendem a estimular atratividade da bolsa.

“Quando olhamos preços históricos e estudamos mercados de ações, vemos que a Selic ainda está relativamente baixa em um contexto mais abrangente. Ainda teremos um segundo semestre não tão fácil. Aproveitamos a escalada dos juros para olhar com mais carinho para ativos vinculados ao IPCA”, ressalta Cavalcante, da Aplix.

Por outro lado, a tendência de o mercado se antecipar aos eventos da economia pode denotar uma precificação já vista nos ativos. Apesar de a temporada de balanços ter superado as expectativas das corretoras, o Ibovespa ainda segue em patamares abaixo dos vistos em junho, quanto atingiu sua máxima histórica.

Esse fenômeno é um dos argumentos de quem acredita que a Selic em 2021 já se encontra precificada.

“Vejo mudanças nos produtos de investimentos. Isso ocorre naturalmente, em decorrência do custo de oportunidade. Contudo, os contratos de DI futuro já precificam esse cenário de Selic alta — em alguns títulos isso já está muito evidente. A possível debandada da bolsa já chegou a ocorrer. Independente da queda do Ibovespa, tem de se pensar que a bolsa fica na média de 120 mil, mas os balanços empregam um lucro relevantemente maior do que o período pré-covid. Esse peso na bolsa já ocorre: era para estar na casa dos 150 mil, se não fosse a escalada dos juros”, ressalta Beck.

A bolsa deve voltar a ganhar mais força com uma Selic estável em 2022. Esse é o cenário mais provável que o investidor pode aguardar, dizem os especialistas.

Eduardo Vargas

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