Do 0 ao 100: projeções para o petróleo disparam, mas têm ressalvas

Os preços do petróleo foram marcantes na pandemia da Covid-19. Pela primeira vez na história, as cotações futuras da commodity chegaram a ser negociadas abaixo de US$ 0, em abril de 2020, em meio ao pânico mundial sobre o surgimento da pandemia. Agora, a expectativa é que elas superem os US$ 100.

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Em um passo otimista, o Bank of America disse em relatório que o barril de petróleo tipo Brent poderá atingir os três dígitos em 2022 caso o consumo global continue superando a oferta nos próximos meses. 

Nesta semana, a reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e aliados dará o tom da produção de petróleo ao longo dos próximos meses, uma vez que é esperado um leve aumento na oferta.

Especialistas ouvidos pelo Suno Notícias afirmam que a tendência de recuperação é inevitável, mas traz dúvidas.

A demanda reprimida começando a ser liberada diz respeito, principalmente, às férias de verão nos Estados Unidos. No país, a vacinação avança e a normalidade se mostra cada vez mais próxima. 

Ao mesmo tempo, a liquidez não cessou e os estímulos permanecem ativos sobre a economia. O Federal Reserve (Fed) entende que o país ainda tem um longo caminho a trilhar em busca da recuperação do mercado de trabalho.

Hoje, o Brent sustenta os preços na casa dos US$ 75, próximo do maior patamar dos últimos dois anos. Caso a commodity chegue a US$ 100, será a primeira vez desde 2014.

Logo depois desta marca, o mercado foi afetado pela chegada do gás xisto norte-americano, que fez com que as cotações nunca retomassem o nível histórico.

Ventos positivos para o petróleo

Segundo o BofA, as perspectivas positivas têm como base o maior uso de veículos particulares em detrimento do transporte público.

Mesmo que a Opep decida elevar a produção da commodity, o banco entende que a reabertura econômica mundial deve sustentar as cotações em alta pelos próximos 18 meses.

A tese é reforçada pela disparidade de enfrentamento à pandemia entre os países no mundo. Enquanto os Estados Unidos caminham a passos largos para a plena recuperação, com quase metade da população completamente vacinada, o Brasil, por exemplo, sofre a ameaça de uma terceira onda de contaminações.

“Temos uma visão bastante construtiva quanto ao preço do petróleo. Ele tem respondido positivamente à recuperação da demanda — o que ressalta ainda mais a diferença entre o Brasil e o mundo no enfrentamento da pandemia”, diz Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Por aqui, a previsão é de que toda a população adulta receba ao menos a primeira dose até o fim do ano. Até lá, o mercado espera que o mundo já tenha se recuperado de forma acelerada, empurrando os preços do petróleo para cima.

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O fim das restrições logísticas mundo afora tem influenciado as perspectivas futuras. O analista diz que, no presente, dados sobre estoques e utilização de refinarias sustentam as projeções otimistas.

“Com base no instrumental que temos em mãos, é plenamente possível esperarmos uma continuação da alta desses preços.” Os estoques de petróleo nos Estados Unidos encerraram a semana do dia 18 de junho em queda de 7,6 milhões de barris. A estimativa era de uma baixa de 4 milhões de barris.

Em paralelo ao encontro da Opep, ocorre uma aproximação dos Estados Unidos com o Irã. O país islâmico informou na última semana que os norte-americanos concordaram em remover todas as sanções impostas ao petróleo e transporte marítimo. 

“Um possível acerto entre as nações também pode tornar as previsões quanto à oferta da commodity mais previsíveis, embora as negociações ainda estejam no começo. Isso pode contribuir com a escalada de preços”, afirma Arbetman.

Atenção: recuperação acelerada pode limitar upside

A visão ultra otimista para o preço do petróleo, entretanto, não é consensual no mercado.

“Nossa visão para o Brent é parecida com a média do mercado, de US$ 80 para o fim deste ano. Não enxergamos um upside muito grande”, comentou Vitor Miziara, sócio da Criteria Investimentos.

O especialista em renda variável traça três motivos para que as previsões contemplem uma maior cautela.

O primeiro deles diz respeito à rápida recuperação global, muito acima das expectativas iniciais. Com o avanço da vacinação, as economias têm sido cada vez mais reabertas, com a normalidade chegando mais próxima.

Em maio, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) elevou a projeção de crescimento econômico global para 5,8% em 2021 e 4% em 2022. As projeções anteriores foram paulatinamente sendo corrigidas com dados econômicos dos últimos meses.

“Não vemos caminho para novos dados que sejam mais surpreendentes positivamente”, diz Miziara. “Dificilmente, do segundo semestre para frente, veremos informações sobre PIB crescendo acima do esperado.”

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Esse primeiro aspecto leva ao segundo motivo. O crescimento acelerado foi impulsionado pela ampla liquidez nos mercados, com estímulos monetários trilionários dos Estados Unidos e compra de títulos corporativos pelo Fed e Banco Central Europeu (BCE).

As preocupações nesse sentido são de que justamente essa abundância de capital fez com que preocupações inflacionárias tomassem conta das carteiras dos investidores.

Muitos esperam que a torneira possa ser estancada e, com isso, um aperto na política monetária.

Com mais dinheiro em circulação, commodities como o petróleo tendem a se beneficiar. O barril do tipo Brent avança 40% no ano. Quando o processo inverso vier à tona, certamente será um ponto de atenção.

A terceira razão levantada pelo especialista é justamente os anseios dos integrantes da Opep+. “Estamos vendo pressão da Arábia Saudita, que hoje corresponde a cerca de 12% de todo o cartel, e da Rússia, para o aumento da oferta no mercado, o que deve influenciar negativamente os preços.”

Como ficam as empresas?

Em função da concentração do Ibovespa, o setor de petróleo, gás e biocombustíveis tem grande participação no índice — o que, obviamente, serve para o bem, em momentos de alta (como agora), e para o mal.

A fatia de 14,37% do segmento só fica atrás do setor financeiro. As empresas ligadas às commodities desta natureza que fazem parte do índice, são:

EmpresaParticipaçãoValor de mercado
Petrobras PN5,63%R$ 381,67 bilhões
Petrobras ON4,53%R$ 381,67 bilhões
BR Distribuidora1,37%R$ 30,94 bilhões
Cosan1,24%R$ 44,79 bilhões
Ultrapar0,91%R$ 20,82 bilhões
PetroRio0,66%R$ 16,47 bilhões

Segundo os analistas ouvidos pelo Suno Notícias, a Bolsa brasileira possui empresas ligadas ao setor com modelos bem claros, o que tende a ajudar a ancorar as expectativas dos agentes do mercado.

No caso da PetroRio (PRIO3), mesmo com as questões logísticas em maio, o lifting cost (custo de extração) ainda permanece abaixo de US$ 15, lembrou Arbetman. No primeiro trimestre, o custo de extração da empresa foi de US$ 14,30, e a Ativa Investimentos espera que no restante do ano esse patamar seja conservado.

No caso da Petrobras (PETR4), como cerca de 70% dos negócios vêm do pré-sal, com um custo de extração de US$ 3, a alta do Brent é favorável. “As margens naturalmente ficam maiores”, lembrou o analista da corretora.

Além disso, a estatal é uma companhia fortemente voltada à exportação. Com isso, caso o dólar permaneça em patamar elevado, as operações podem ser beneficiadas. O mesmo acontece com a Enauta (ENAT3).

Atualmente negociada na casa dos R$ 4,95, a moeda norte-americana tem sido precificada abaixo das estimativas para o fim do ano, o que abre margem para um período de alta, na visão de investidores.

“Um ponto de atenção deve ficar sobre o refino do petróleo, onde o preço do Brent na realidade é um custo para a Petrobras”, comenta Arbetman. ”

Especialmente com essa questão dos reajustes nos preços serem feitos de forma mais espaçada, isso pode ser ruim para a empresa — principalmente se a defasagem se tornar maior.”

As estimativas positivas, inclusive, têm trazido os holofotes ao Brasil. A norueguesa Equinor e a australiana Karoon anunciaram investimentos de US$ 10,5 bilhões (cerca de R$ 51,84 bilhões na cotação atual) no País para os próximos anos.

Um aspecto que os investidores devem tomar cuidado, contudo, é o excesso nas projeções. “Para as empresas brasileiras, boa parte das expectativas de aumento da demanda por petróleo já estão no preço”, diz Miziara, da Criteria.

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Jader Lazarini

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