Mauro Morelli

O que nos espera em 2022

A normalidade econômica deve ser festejada, mas ela não será alcançada sem riscos, volatilidade e incertezas

O próximo ano será o início de uma volta à normalidade na economia mundial, principalmente, nos países desenvolvidos. No caso dos países em desenvolvimento, esse processo já começou em 2021, com a maioria dos países emergentes iniciando o seu ciclo local de alta de juros. No Brasil, esse ciclo de alta de juros é ainda mais intenso devido à forte pressão inflacionária que temos sofrido ultimamente e, o nosso histórico de maior complacência com a alta dos preços.

A normalidade econômica deve ser festejada, mas ela não será alcançada sem riscos, volatilidade e incertezas.

O sucesso das políticas monetárias mundiais veio com alguns efeitos colaterais, principalmente, o crescimento da inflação nas principais economias mundiais. A grande liquidez mundial somada aos gargalos na linha de produção de alguns setores industriais, fizeram a inflação mundial ficar em patamares elevados e ainda sem sinais claros de queda nos próximos meses.

O banco bentral da principal economia mundial, o Federal Reserve, já deu o primeiro passo na direção a normalidade quando se comprometeu não só com o início da redução da compra de ativos, o conhecido “tapering”, mas principalmente com o término dessa compra em meados de 2022. Com esse final, abre espaço para o próximo passo de volta à normalidade: aumento dos juros. O mercado já tem aumentos previstos para o segundo semestre de 2022, o que deve ser encarado como algo positivo. Aumento de juros é sinal de que a economia mundial está robusta o suficiente para o retorno à normalidade.

Mas o cenário não é tão simples assim. A queda da liquidez mundial, juros mais altos e preocupações inflacionárias aumentam o risco dos ativos mundiais e trazem dúvidas de como as bolsas internacionais vão reagir a esse cenário.

O que vai prevalecer para os retornos das bolsas mundiais: a solidez da economia mundial, que melhoram os resultados das empresas, ou o aperto monetário, que pressiona para baixo o preço das ações?

Essas forças opostas, independente de qual possa vencer, devem trazer volatilidade ao mercado financeiro e ser a tônica de 2022. Dito isso, parece razoável imaginar que, como o aperto monetário é decorrência de uma economia mundial mais forte, os bancos centrais mundiais tendem a elevar o aperto monetário sem causar maiores danos no crescimento mundial. Esse é o cenário mais provável desde que a inflação se mostre transitória, como é a aposta dos principais bancos centrais. Fica claro, portanto, que o maior risco mundial que teremos em 2022 é a evolução inflacionária.

Um cenário em que a inflação, apesar de alta, dá sinais de ser transitória, levará a um aperto monetário (aumento de juros e redução da liquidez) menos intenso. Com isso, é razoável imaginar que o crescimento econômico será pouco impactado e, por consequência, os retornos acionários devem ser pouco impactados. O cenário oposto, em que a inflação se mostre mais resiliente, levará um aperto monetário mais forte, que traria uma maior impacto negativo aos retornos do mercado acionário.

Olhando de hoje, ainda nos parece mais provável o primeiro cenário que o segundo, mas infelizmente a probabilidade de ocorrência do segundo cenário tem aumentado fortemente. Como o mercado já trabalha com aumentos de juros americanos no segundo semestre de 2022, algo dessa probabilidade já está no mercado, ou seja, já temos uma margem de segurança para um cenário mais crítico. Vale lembrar que os índices acionários americanos tem feito recorrentes máximas históricas o que os deixa mais suscetíveis a realizações normais aos mercados financeiros.

O caso brasileiro é um bom exemplo do que pode acontecer caso a inflação seja o fator preponderante. Como a inflação brasileira tem surpreendido negativamente durante todo o ano de 2021, o Banco Central (BC) se vê obrigado a aumentar a Selic com degraus cada vez maiores. Hoje já se espera que o ciclo de alta dos juros no Brasil termine com juros acima de 10% a.a. Lembro que iniciamos o ciclo com juros a 2% aa. Agravando esse cenário temos a antecipação das eleições de 2022 e, por tanto, não é sem motivo que a bolsa brasileira tem o pior retorno do ano.

Concluindo, os investidores internacionais devem esperar para 2022 retornos menores dos ativos de riscos mundiais, o que de alguma maneira reflete a volta à normalidade, porém um aumento da volatilidade desses ativos devido ao aperto monetário e dúvidas quanto a inflação. No caso dos investidores locais, soma-se a isso às eleições presidenciais, que trarão ainda maior volatilidade aos ativos brasileiros.

Nota

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