Entenda a atual crise do petróleo e seu impacto no mercado

Entenda a atual crise do petróleo e seu impacto no mercado
Os contratos futuros do petróleo operam em forte queda nesta quarta, pressionados pelo aumento da oferta pelo avanço da pandemia.

A acelerada disseminação do coronavírus (Covid-19) fez com que o ano de 2020 começasse caótico. Com o avanço da pandemia em todo o planeta, as cadeias produtivas que gerem o comércio internacional foram impactadas pela menor demanda consumidora. A forte queda do preço do petróleo é reflexo dessa guerra contra o inimigo invisível.

Em 31 de dezembro de 2019, os primeiros casos da doença foram oficialmente detectados em Wuhan, na província de Hubei, no centro da China. Entretanto, há informações sobre o início do contágio já dois meses antes. Rapidamente, o coronavírus atingiu 80 mil pessoas no país asiático, matando mais de 3 mil. A segunda maior economia do mundo e primeiro importador de petróleo do planeta, fechou suas fronteiras e diminuiu sua atividade econômica.

Essa não é a primeira vez que a cotação da commodity mais cobiçada do mundo entra em crise. A mais famosa das crises foi a crise do petróleo de 1973, quando, em retaliação ao apoio dos Estados Unidos a Israel na Guerra do Yom Kipur, o Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) inflacionaram o preço do barril da commodity em 400%, gerando uma crise de oferta mundial.

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Logo depois, na Guerra do Golfo, ocorrida entre 1990 e 1991, quando o Iraque, liderado por Saddam Hussein, invadiu o Kuwait, um dos maiores produtores de petróleo do planeta. Os iraquianos só foram expulsos do país quando as forças militares dos Estados Unidos os retiraram. No entanto, não a tempo de evitar incêndios de alguns poços de petróleo, causando uma crise econômica e ecológica.

A crise de 2020

Ao longo dos primeiros meses do ano, ao passo que a economia global dava sinais de queda na demanda pelo petróleo, a Opep permaneceu atenta sobre a sua produção diária do insumo e seu preço mundial. No dia 5 e 6 de março, a organização se reuniu com a Rússia (grupo chamado de Opep+), mas não chegaram a um acordo para cortar a produção e conter a queda nos preços do petróleo.

A Rússia rejeitou a oferta do cartel em cortar adicionalmente 1,5 milhão de barris por dia até o final deste ano. A Opep tentou evitar a quebra dos esforços realizados desde 2017 para o controle sadio da cotação da commodity, evitando o excesso de oferta no mercado.

“A partir de 1º de abril, levando em consideração a decisão tomada hoje, nenhum país, nem a OPEP, nem a OPEP +, é obrigado a reduzir a produção”, afirmou o ministro da Energia da Rússia, Alexandre Novak, após longas negociações em Viena, na Áustria.

Devido ao pessimismo dos investidores quanto ao futuro dessa conturbada relação entre os países, no dia 8 de março, a cotação da commodity chegou a cair 31% nos mercados asiáticos, o barril Brent era negociado a US$ 36,62 naquele dia. Essa foi a maior queda diária desde justamente a Guerra do Golfo.

Conforme o relatório da Opep, a estimativa da demanda por petróleo passou de 990 mil barris de petróleo por dia (bpd) para 920 mil bpd em 2020. A entidade salientou que caso a disseminação do Covid-19 continue avançando, as próximas projeções poderão serão menores, o que pressiona ainda mais os preços.

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Em retaliação ao posicionamento da Rússia, o Ministério da Energia da Arábia Saudita informou no dia 17 de março que as exportações de petróleo devem aumentar nos meses seguintes para acima de 10 milhões de barris por dia. A última vez que o país havia aumentado sua produção diária foi há mais de 10 anos.

Na última terça-feira (17), entretanto, o ministro do petróleo do Iraque, Thamer al-Ghadhban, solicitou uma reunião de emergência entre os membros e não membros da Opep. O intuito da reunião é encontrar ações para ajudar o equilíbrio do mercado da commodity.

No documento enviado ao cartel, o ministro pede que a Opep “realize urgentemente” reuniões extraordinárias para “discutir todos os caminhos possíveis para chegar a ações sérias e imediatas”. As partes envolvidas procuram encontrar um acordo para não agravar a crise internacional, impulsionada pelo vírus que assola o planeta.

O barril de petróleo Brent iniciou o ano cotado a US$ 68,75, e fechou a última sexta-feira (20) negociado a US$ 27,58, uma desvalorização de mais de 59%.

Já o barril WTI começou o ano a US$ 60,99 e está cotado a US$ 22,43, uma queda ainda mais acentuada, de 63,22%. Diferentemente das outras crises, esse incidente recai sobre a demanda, o que fez os preços caírem e os exportadores, principalmente os menores, sofrerem.

A clara importância do petróleo

O petróleo é um recurso estratégico e extremamente importante para a economia global, possuindo derivados como a gasolina e o diesel, utilizado em meios de transporte. Além disso, é a origem de alguns tipos de solventes, lubrificantes industriais e plástico, como muitos dos produtos farmacêuticos e de enfermagem, necessários para combater o coronavírus.

As maiores potências do mundo, como Estados Unidos e Japão, além da própria China, podem apresentar uma forte instabilidade econômica durante as crises de oferta, de demanda ou de preços do petróleo.

Entretanto, com o avanço das energias renováveis, como a eólica, o petróleo passa a ser paulatinamente substituído por outras formas energéticas. Por ser uma energia não renovável e extremamente poluente, o petróleo certamente acabará, o que pode mudar o rumo da economia global.

Impacto no mercado

A queda dos preços do petróleo, juntamente ao pânico causado pelo avanço do coronavírus, impactou o mercado de forma acentuada, sobretudo as empresas que dependem do petróleo em suas operações.

As ações da Petrobras (PETR3; PETR4), companhia que já foi a maior empresa da América Latina por anos, apenas em março já desvalorizaram mais de 54%. Os papéis estão cotados a R$ 12, mesmo patamar de julho de 2017. Nas últimas duas semanas, a companhia já perdeu aproximadamente R$ 175 bilhões em valor de mercado.

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Já a PetroRio (PRIO3), uma small cap da bolsa brasileira, viu suas ações caírem mais de 70% apenas nas últimas três semanas. As ações ordinárias da petroleira chegaram a ser cotadas a R$ 48,80 no dia 4 de fevereiro, e fecharam o pregão na B3, na última sexta-feira, a R$ 12,40.

Nos Estados Unidos, a Exxon Mobil (NYSE: XOM) operou em queda de quase 5% na última sessão da Bolsa de Valores de Nova York, cotadas a US$ 32,74. Em 2020, os papéis da petroleira norte-americana já desvalorizaram 53%

O Ibovespa, maior índice acionário do Brasil, fechou a última semana com uma queda de 18,88%, a 67.069,36 pontos, em uma de suas piores semanas na história. Os últimos sete dias foram marcados pela explosão de casos confirmados do coronavírus, sobretudo no Ocidente, seguido de uma alta volatilidade no preço do petróleo.

Jader Lazarini

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