Gian Kojikovski

Os ciclos do mercado e o investimento em ações

Crise política, problemas fiscais, inflação e Selic alta assustam, mas quando tivemos poucas incertezas?

Ninguém duvida que a estratégia mais democrática e fácil de investimentos no mercado de ações é comprar boas empresas, com um valor de mercado abaixo de seu valor intrínseco e encarteirá-las por muito tempo. É isso que os maiores investidores da história sempre fizeram. Não significa que basta seguir esses passos para tornar-se um deles, mas é o suficiente para ter uma rentabilidade acima da média histórica. Mas, como um antigo professor meu dizia, na prática, a teoria é outra.

Mesmo com o caminho desenhado, as pessoas insistem em fazer diferente. Em tentar acertar o timing do mercado. Peter Lynch geriu o famoso Magellan Fund com incríveis 29% de rentabilidade ao ano entre 1977 e 1990 e afirma que a maior parte de seus investidores perdeu dinheiro. Isso porque faziam aportes nos momentos que o fundo estava com um track record recente positivo e sacavam quando caia. Ou seja, compravam na alta e vendiam na baixa. Se um investidor colocasse US$ 100.000 no Magellan em 77 e não movesse uma palha até 90 teria quase US$ 2,8 milhões. Mas as pessoas não conseguem esperar e e desperdiçam as oportunidades.

Por isso, muitos investidores de longo prazo sequer gostam de ler notícias ou informações que possam trazer ruídos para sua tese. Eu acho um exagero, uma vez que basta controle emocional para não movimentar a carteira, mas consigo entender a atitude. A maioria das pessoas não consegue ficar parada ao ver notícias positivas ou negativas sobre empresas de sua carteira.

Na segunda-feira, a corretora XP Investimentos divulgou uma pesquisa feita com sua rede de Agentes Autônomos (AAIs) para entender as perspectivas deles e de seus clientes em relação ao mercado. De acordo com as respostas, 38% dos clientes dos entrevistados em agosto querem diminuir sua exposição à renda variável, 25% a mais do que em julho. Por outro lado, apenas 16% pretendem aumentar essa exposição, contra 37% no mês anterior.

interesse de clientes da XP em investir em renda variável
Fonte: XP Investimentos

Entre os principais riscos apontados estão a piora na situação fiscal do país e o aumento da inflação. Ambos são riscos reais e existe a perspectiva de que a taxa básica de juros e a inflação aumentem ao longo dos próximos meses. Desde o começo de junho, o Ibovespa acumula uma queda de cerca de 10%, depois de passar a máxima histórica de 130 mil pontos. Em algumas das empresas mais faladas nas redes sociais – nem todas boas empresas -, as perdas são ainda maiores, passando dos 30%.

Claro que tudo isso – crise política, problemas fiscais, inflação e Selic alta – pode assustar quem expõe o patrimônio à renda variável, ainda mais os milhões que entraram para o mercado nos últimos dois ou três anos. Mas quando tivemos menos incertezas ao longo dos últimos 25 anos? Ou dessa vez será diferente e é preciso mudar a estratégia de investimentos? A história e a estratégia dos maiores investidores do mundo mostra que não.

Gian Kojikovski
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