Leandro Herrera

O que o salário das carreiras digitais tem a dizer sobre o mercado de tecnologia

Mesmo que se fale muito na importância da cultura da empresa na retenção de talentos, pesquisas já mostraram que a remuneração ainda aparece no topo do ranking quando olhamos para o que profissionais consideram em um emprego dos sonhos

Mesmo que se fale muito na importância da cultura da empresa na retenção de talentos, pesquisas já mostraram que a remuneração ainda aparece no topo do ranking quando olhamos para o que profissionais consideram em um emprego dos sonhos. Quando olhamos para um mercado tradicional com salários tão defasados, carreiras digitais se destacam pelas remunerações competitivas, ligadas à alta demanda por skills específicas. Porém, assim como em outros setores, a remuneração do profissional digital tem relações com diversos fatores, como senioridade, grau de especialização, tempo de carreira e, ainda, aspectos demográficos.

Um exemplo disso é visto nos dados recolhidos pelo levantamento realizado pela Tera, em parceria com a Mindminers. Uma das carreiras com os salários mais altos apontadas pela pesquisa foi Product Management, em que mais de 50% dos profissionais apontam ganhar mais de R$ 10 mil e mais da metade daqueles que estão no cargo (54%) ocupam um nível de senioridade intermediário, mesmo que a área se destaque pelo número de pessoas com pouco tempo de função.

Isso nos diz que, diferente de outros ramos digitais, a área de Gestão de Produtos Digitais apresenta uma facilidade de acesso maior para aqueles que querem chegar a posições de remuneração mais alta. Se é comum na área, em menos de cinco anos, profissionais atingirem posições de maior senioridade, também entendemos que há uma relação mais difusa entre faixas salariais e tempo na função. Caso contrário, mostraria a necessidade de uma especialização mais profunda e recorrente para se destacar.

Já um campo que, ao contrário, pede um maior especialização para se diferenciar no mercado é Marketing Digital, que tem a menor média de salário (32% responderam ganhar até R$ 3,3 mil). Esta área ainda aparenta ter muitos salários defasados — uma possível consequência do tamanho desse setor e suas diversas ramificações, como produção de conteúdo, inbound marketing, e-mail marketing, social media, entre outros.

Vemos ainda que, frente à separação por raça e sexo, pessoas negras e mulheres brancas que trabalham no setor continuam ganhando menos, mesmo com os movimentos intencionais que vêm crescendo nos últimos anos para tornar o mercado digital mais diverso e inclusivo. Em relação aos respondentes da Digital Skills que informaram ganhar mais de R$ 10 mil por mês, apenas 13% são pessoas negras (pretas e pardas), enquanto na faixa salarial de até R$ 3,3 mil, elas representam 39%. Enquanto homens apresentam a média salarial mais frequente acima de R$ 16 mil (26%), a maior concentração das mulheres está ganhando até R$ 3,3 mil (24,6%).

Essa divisão mostra a necessidade urgente de maiores ações para mudar o cenário. Nesse sentido, é fundamental que produtos e serviços digitais sejam criados desde o início considerando grupos minorizados — e, para isso, é preciso que estes grupos sejam criadores das tecnologias e não apenas consumidores. Especialmente no segmento de tecnologia, que tem um impacto social e cultural grandíssimo. Quando isso acontecer, teremos um mercado em que as diferentes habilidades, visões de mundo e experiências vão fomentar ainda mais inovação e transformação social.

Além disso, entre os profissionais com pós-graduação completa, apenas 5% apresentam faixa salarial até R$ 3,3 mil, enquanto 59% ganham mais de R$ 10 mil. Mesmo em um cenário no qual muitas carreiras digitais ainda não são oferecidas pelas graduações tradicionais, parece que ter o ensino superior completo e continuar o desenvolvimento com uma pós-graduação e cursos de menor duração continua tendo uma relação direta com altos salários. O que demonstra como o aprendizado contínuo é um fator decisivo para o novo mercado.

As profissões digitais têm atraído a atenção justamente por apresentarem salários mais interessantes, mas é preciso ter o pé no chão na hora de organizar as expectativas salariais. O momento de transição de carreira é extremamente desafiador e a área de tecnologia se ramifica em diversas atuações. Busque conciliar os seus interesses e habilidades com as novas profissões que estão surgindo, tenha perseverança e paciência para aprender, e foco para realizar projetos que ajudem a ganhar confiança na nova função. Com isso, as chances do resultado chegar — financeiro e de satisfação pessoal — são muito altas.

Nota

Os textos e opiniões publicados na área de colunistas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão do Suno Notícias ou do Grupo Suno.

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