Eduardo Cavalheiro

Ações no Brasil: o que aconteceu em 2021?

Passamos a viver uma escalada de novos problemas que impediram uma valorização das ações (Ibovespa caiu -11,93%), mesmo em um cenário de crescimento do PIB (+4,50%) e de lucros das empresas.

2021 começou tendo a Covid-19 como o maior risco. Felizmente, a vacinação avançou muito rapidamente e este se reduziu drasticamente. No entanto, passamos a viver uma escalada de novos problemas que impediram uma valorização das ações (Ibovespa caiu -11,93%), mesmo em um cenário de crescimento do PIB (+4,50%) e crescimento de lucros das empresas.

Uma escalada de riscos se traduziu em inflação mais alta que o esperado (4% para 10%), ciclo de alta de juros mais intenso (de 7% para 11,50% ao ano), tudo isso retroalimentado pelo crescente risco político (o risco Brasília) e por fatores adversos incontroláveis, tais como a falta de chuvas e o choque de preços externos originado por uma desorganização geral das cadeias produtivas (petróleo, alimentos, fertilizantes, commodities de um modo geral e muitas cadeias de produtos industrializados).

Neste ponto, gostaria de destacar três outros aspectos que foram decisivos para o fraco desempenho do mercado de ações em 2021. O primeiro deles foi o forte volume de IPOs (abertura de capital de novas empresas) ocorrido no final de 2020 e início de 2021. Absorveu grande volume de recursos que acabou faltando para o mercado secundário da bolsa no segundo semestre. Destacamos que a chegada de novas companhias à bolsa é um movimento saudável no longo prazo.

O segundo foi o grande afluxo de investidores desavisados/inexperientes durante o período de taxas de juros baixos (2020 e início de 2021). Resultou em fortes vendas/resgates no segundo semestre de 2021.

Já o terceiro diz respeito aos fundos que fugiram dos mandatos estratégicos, principalmente os multimercados, e investiram pesadamente em ações de empresas de menor liquidez. Resultou em pesadas vendas de ações a preços muito abaixo do valor, sobretudo, ao longo do quarto trimestre do ano.

Também é importante assinalar que a queda apresentada pelo SMLL (índice Small Caps) atingiu -16,20%, superior à queda do Ibovespa (-11,93%). Neste contexto, são muitos os casos de ações de boas e lucrativas companhias no segmento de Small Caps que caíram 30%, 40% no acumulado do ano.

Dessa forma, chegamos ao final de 2021 com muitas companhias de altíssima qualidade negociadas a preços muito baixos (as ações de empresas de baixa qualidade sempre merecem a desvalorização, não as de alta) o que deve ser entendido como oportunidade. Se vão recuperar os patamares anteriores já em 2022 dependerá das condições que viveremos ao longo do próximo ano.

Sobre as expectativas, ao contrário do início de 2021, quando eram muito positivas para a economia, crescimento do PIB, aprovação de reformas, investimentos e contas públicas, temos exatamente o contrário para 2022. O patamar das expectativas para este ano é muito baixo. Já não se espera muito do atual governo do ponto de vista político e de aprovações de reformas. O Ministério da Economia perdeu força, abandonou o plano liberal e passou a optar pelo improviso, com medidas isoladas com efeitos de curto prazo.

Além disso, teremos eleições presidenciais no Brasil e um ajuste monetário (alta de juros e redução de liquidez) nas principais economias do mundo (EUA e Europa).

As projeções do PIB são de crescimento muito baixo (0,5%), o risco fiscal em um ano eleitoral é sempre alto e as tensões políticas tendem a manter o câmbio desvalorizado, tornando ainda mais difícil a tarefa de desinflacionar a economia (juros mais altos por mais tempo).

Dados os preços baixos das ações, acredito que o risco do investidor ficar comprado em ações para 2022 pode ser muito atrativo. A seletividade é necessária e as escolhas devem se concentrar naquelas empresas de qualidade, bem geridas e com bons planos de negócios.

Ainda que nada esteja claro no horizonte, existem chances de termos surpresas positivas nas expectativas que estão muito baixas. Citaria, por exemplo, a acomodação da inflação numa velocidade mais rápida do que se espera. Acredito que teria impacto positivo para as ações via redução das expectativas dos juros futuros.

A maior surpresa, que potencialmente causaria impactos fortes nas ações e se estenderia para o longo prazo, seria uma mudança drástica no quadro político sucessório no Brasil com a propositura de um plano econômico liberal com foco no crescimento equilibrado do PIB. Quase um sonho!

Este é o quadro. O balanço de oportunidades e riscos parece muito favorável. Merece ao menos uma reflexão cuidadosa. Bons negócios em 2022!

 

Nota

Os textos e opiniões publicados na área de colunistas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão do Suno Notícias ou do Grupo Suno.

Eduardo Cavalheiro
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