Eduardo Cavalheiro

A arte da alocação de capital

Aumentar o pagamento de dividendos ou investir mais para crescer? Investir na atividade original ou diversificar? Aumentar o endividamento ou vender ativos para reduzir dívidas? Todas são escolhas difíceis e que terão impactos fundamentais nos destinos das companhias

As definições de alocação de capital podem realmente mudar os destinos das companhias. O sucesso ou o fracasso de empresas que vemos hoje passa por decisões que foram tomadas no passado. Aumentar o pagamento de dividendos ou investir mais para crescer? Investir na atividade original ou diversificar? Aumentar o endividamento ou vender ativos para reduzir dívidas? Todas são escolhas difíceis e que terão impactos fundamentais nos destinos das companhias.

Ao longo deste texto, pretendo relatar casos que me chamaram a atenção nos últimos anos para exemplificar estratégias acertadas ou equivocadas que vivenciei.

Começo por um caso clássico de boas decisões tomadas pelo grupo Cosan (CSAN3). Em 2008, durante a crise do subprime, surpreendeu o mercado ao levantar recursos no exterior para comprar as operações de distribuição de combustíveis da Esso – ExxonMobil (EXXO34) – no Brasil.

A distribuição de combustíveis reduziu a sazonalidade do fluxo de caixa do grupo como um todo (até então o maior produtor de açúcar e álcool do Brasil), aumentou a previsibilidade e reduziu o custo de capital.

Com isso, abriu as portas para outras iniciativas ousadas e corretas ao longo dos anos: aquisição da Comgás (CGAS5) – forte geração de caixa -, desenvolvimento da Rumo (RAIL3) e aquisição da All lLgística na sequência, estruturação da Raizen (RAIZ4) em sociedade com a Shell, dentre outras menos relevantes. As boas decisões do passado tornaram a Cosan um dos maiores grupos empresariais do Brasil, com negócios sólidos, diversificados e com grandes avenidas de crescimento para o futuro.

Na outra ponta, quero contar também o caso da Ultrapar (UGPA3), que, após tomar a acertada decisão de comprar o Grupo Ipiranga em 2007, elevar a capacidade de geração de caixa e passar a ser admirada como um dos grandes grupos empresariais brasileiros, passou a tomar decisões equivocadas de alocação de capital.

O ápice deste movimento equivocado a meu ver foi a aquisição da rede de drogarias Extrafarma em 2013. Apesar de ser um negócio proporcionalmente pequeno, fez a companhia perder o foco até mesmo na sua atividade principal, causando perda de rentabilidade e uma queda expressiva das suas ações no mercado (-50% entre 2018/2022).

Chamo a atenção para o caso da Vale (VALE3), que, ao não identificar projetos atrativos para investir os excessos de geração de caixa, optou por distribuir os recursos aos acionistas nos últimos anos. Recentemente tenho observado a situação da Duratex – atual Dexco (DXCO3) – que, após décadas de decisões equivocadas de aumento de capacidade, gerando superoferta em seus mercados de atuação, passou a tomar decisões corretas no sentido de direcionar o seu foco para a diferenciação de produto e aumento de margens. Caso parecido com o grupo Gerdau (GGBR4). Melhor ser menor e mais rentável do que ser enorme e gerar prejuízos.

Listo aqui algumas alocações que vivenciei e deram muito certo: Grupo JBS (JBSS3), com diversificação geográfica e participações de mercado relevantes , Grupo Weg (WEG3) – dinamismo para acompanhar mudanças no mercado -, BTG Pactual (BPAC11), que investiu nas pessoas criando um modelo de autonomia e remuneração agressiva para atrair os melhores profissionais. Outras que deram errado: Triunfo Participações (TPIS3) – decisões equivocadas forçaram a venda de ativos bons para pagar ativos ruins), Cielo (CIEL3), que deixou espaço livre para concorrentes se desenvolverem.

Detalhar casos passados parece mais fácil do que analisar decisões de alocação que estão sendo tomadas neste momento. Realmente é. Mas, como investidores, temos a difícil tarefa de avaliar: quais decisões de agora produzirão efeitos relevantes no futuro?

Lanço até mesmo desafios práticos com os quais estou me envolvendo nesses dias: A decisão da Alpargatas (ALPA4) em assumir um compromisso de investimento de até US$ 1 bilhão (muito relevante para o tamanho atual da Alpargatas) na Rothy’s (calçados sustentáveis) dos EUA, é uma alocação de capital acertada? O projeto EveV da Embraer (EMBR3), de carros voadores, vai gerar valor para os acionistas da Embraer? A aquisição da Hering vai atingir os objetivos estratégicos do Grupo Soma (SOM3)? É difícil responder. Do lado do investidor, é preciso ficar atento e observar o agora. Não basta esperar. Bons negócios!

Nota

Os textos e opiniões publicados na área de colunistas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão do Suno Notícias ou do Grupo Suno.

Eduardo Cavalheiro
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