Proventos bilionários

Analistas elegem balanços surpreendentes e decepcionantes do 4T21

Analistas elegem balanços surpreendentes e decepcionantes do 4T21
Balanços Foto: StockSnap por Pixabay

A safra de balanços termina nesta quinta-feira (31) na B3 (B3SA3). A pedido de Bloomberg Línea, analistas e gestores apontaram os destaques desta temporada de divulgação de resultados financeiros do quarto trimestre de 2021, em que os efeitos da inflação e dos juros, indicadores macroeconômicos ainda em trajetória de alta em 2022, impactaram o desempenho das companhias abertas de diferentes formas, dando pistas sobre os desafios para os primeiros trimestres deste ano, que começou ainda sob o choque externo da guerra entre Ucrânia e Rússia.

“No geral, a temporada de balanços do 4T21 não veio com grandes surpresas. Os setores dos quais esperávamos desempenhos satisfatórios, como o de commodities, mostraram números ainda fortes, fechando um ano excelente para as companhias, mesmo com o já esperado maior impacto de custos nas margens. Aliás, as pressões inflacionárias tiveram forte efeito nos setores mais voltados à economia doméstica, como varejo e construção, assim como prevíamos”, comentou Gabriela Joubert, analista-chefe do Inter.

Na sua avaliação, os resultados das companhias mostraram mais um trimestre de margens deterioradas em razão da incapacidade de repasse de custos ao consumidor final, apesar da recuperação do top line.

“Destaque positivo ao setor de utilities, também conforme projetado, ao mostrar que o pior da crise hídrica fica para trás e os resultados das companhias devem apresentar recuperação a partir de agora. Setor de bancos e seguradoras sentem o efeito positivo da elevação dos juros nos spreads, mas competitividade e sinistralidade voltando aos níveis normais pressionaram parte dos resultados globais”, observou Joubert.

Werner Roger, gestor e sócio cofundador da Trígono Capital, destacou os resultados do quarto trimestre de três small caps. “Primeiro, a Cia de Ferro Ligas da Bahia (Ferbasa) com ótimo desempenho no período. O setor siderúrgico de forma geral apresentou excelente desempenho, evidenciando que os metais estão brilhando alto, como também é o caso da CSN (CSNA3), Usiminas (USIM5), Gerdau (GGBR4) e até mesmo a próxima Vale (VALE3) com performance positiva. Resultado excepcional também das empresas Metal Leve (LEVE3) do setor de autopeças, da Simpar (SIMH3) do segmento de logística, da Kepler Weber (KEPL3), focada em silos e armazéns ligados ao agronegócio e do setor petroquímico, a Unipar (UNIP6). Todas empresas que tiveram um resultado acima do esperado e que surpreenderam o mercado com seu desempenho”, comentou o gestor.

Segundo Roger, outro setor que surpreendeu o mercado de forma positiva com os resultados do quarto trimestre foi o de açúcar e etanol. “Com o aumento dos preços do petróleo, do dólar e dos commodities relacionados ao setor canavieiro, a performance do setor foi elevada. Desempenho que o mercado não esperava, considerando que é um setor descoberto e analisado por poucos analistas que conseguiram se antecipar aos bons resultados, destaco no segmento a performance das empresas Jalles Machado (JALL3) e São Martinho (SMTO3)”, apontou o sócio confundador da Trígono Capital.

Ele também apontou seus destaques negativos. “A grande expectativa de crescimento relativo ao setor de incorporação imobiliária foi frustrada pelos resultados muito abaixo do esperado, como é o caso da Tenda (TEND3). O segmento sentiu o forte impacto do aumento da taxa de juros, do alto custo dos materiais como cimento, tinta e aço, além de que as famílias estão com orçamentos pressionados e menor renda disponível para financiamentos. A elevação dos juros também impactou fortemente o varejo, com exemplo da Magazine Luiza (MGLU3) e Via (VIIA3). Além da performance negativa do setor, outras companhias também tiveram uma performance negativa no período como é o da Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4), Iber Seguros, SmartFit (SMFT3), Cogna (COGN3) e Cielo (CIEL3)”, avaliou Roger.

Pedro Serra, head de research da Ativa Investimentos, viu o saneamento como um setor que decepcionou nesta temporada. ”O setor foi negativamente afetado pelo aumento da inadimplência, volumes ainda prejudicados pela crise hídrica e a recuperação pós-Covid mais lenta, impondo perdas acima do esperado”.

Já os bancos surpreenderam nesta safra de balanços, segundo o analista. “Os bancos apresentaram bons resultados no trimestre, principalmente pelo crescimento da carteira de crédito, ficando acima do guidance divulgado para 4T21. Além disso, o crescimento das taxas de juros também beneficiou os spreads bancários, fator que, aliado à maior carteira de crédito, impulsionou as receitas”.

Gustavo Harada, chefe da mesa de renda variável da Blackbird Investimentos, indicou o setor de energia como um que surpreendeu nos resultados financeiros. “Houve um maior volume de chuvas, beneficiando o setor, aumentando o nível dos reservatórios. Porém, muitas empresas de geração foram impactadas negativamente na repactuação do GSF”.

O setor imobiliário foi apontado como um que decepcionou. “O setor enfrentou dificuldades devido ao custo da inflação de construção, e pela redução na velocidade de unidades vendidas, muito impactado por conta da alta do juros (que reduziu a atratividade de empréstimos imobiliários), no entanto, as empresas que conseguiram entregar bons resultados, tiveram um maior controle de custos, forte geração de caixa e boa capacidade de repassar os preços”, disse Harada.

Matheus Jaconeli, analista de investimentos da Nova Futura Investimentos, destacou o setor de alimentos como um dos que surpreenderam. “Mesmo com a alta dos custos gerados pelo aumento da inflação e levando em conta que o setor possui margens baixas, os resultados de companhias como Pão de Açúcar (PCAR3), Carrefour (CRFB3) e Assai (ASAI3) surpreenderam positivamente, indicando que o setor é flexível, o que pode ser explicado pela baixa elasticidade de preço da demanda”, comentou Jaconeli.

Na sua avaliação, em certa medida, a temporada de balanços foi positiva, mas o setor que de fato trouxe mais resultados aquém das expectativas foi o de seguros, que teve impacto negativo dos resultados trimestrais de IRB (IRBR3), Porto Seguro (PSSA3) e SulAmérica (SULA11), mesmo com BB Seguridade (BBSE3) tendo bons resultados.

Confira outras avaliações dos analistas:

O resultado negativo apresentado pela Via, dona das Casas Bahia, surpreendeu negativamente a equipe de research do banco digital Inter

Banco Inter (BIDI4)

Lucro acima das expectativas: JBS (JBSS3). Apesar de esperarmos impactos negativos em razão dos embargos na China e pressões inflacionárias no mercado interno, a JBS encerrou o ano com desempenho acima das nossas expectativas, com Ebitda e lucro líquido surpreendendo positivamente, beneficiada pela sua exposição nos EUA.

Resultado abaixo das expectativas: Usiminas (USIM5). Resultado ficou aquém do esperado, com receitas e margens comprimidas, afetadas por menores vendas em razão da sazonalidade no mercado interno, bem como desempenho fraco do braço de mineração. Custos também pressionaram além do esperado e as margens acabaram deterioradas. Não fosse pelo reconhecimento de créditos fiscais no período, a companhia teria trazido lucro abaixo do esperado

Resultado negativo surpreendente: Via (VIIA3). A companhia teve um ano difícil e o 4T21 não foi diferente. As receitas foram limitadas pelo baixo avanço de vendas nas lojas físicas, mesmo em trimestre sazonalmente forte. Os impactos do contencioso trabalhista seguem afetando o balanço da companhia, que também sofre com certa ineficiência operacional. Não foi prejuízo, mas foi o resultado mais surpreendentemente negativo

Setor que brilhou: Frigoríficos. Apesar dos desafios de embargos da China, mercado interno mais pressionado pela inflação e custos mais elevados, as companhias conseguiram entregar resultados fortes, encerrando o ano com chave de ouro

Setor que decepcionou: Varejo. As companhias sentiram bem a queda do poder de consumo da população em razão da inflação, que afetou a evolução das receitas; além disso, os custos seguiram consumindo margens e os desafios ainda continuam no radar para os próximos trimestres

Setor que surpreendeu: Frigoríficos. Esperávamos desempenho estável para negativo para o setor em razão de todos os desafios apresentados ao longo do trimestre, em especial embargos da China, mercado interno mais pressionado pela inflação e custos mais elevados. Mesmo assim, as companhias conseguiram entregar resultados fortes

Para a equipe da Ativa Investimentos, prejuízo da Gol era esperado devido ao aumento dos custos, principalmente dos combustíveis

Ativa Investimentos

Lucro acima das expectativas: PetroRio (PRIO3). Com o melhor lifting cost de sua história e com receitas operacionais superiores à nossa expectativa, a companhia divulgou um lucro líquido que superou nossas expectativas em 149%.

Lucro abaixo das expectativas: Locaweb (LWSA3). A Locaweb divulgou o resultado do 4T21 acima das nossas estimativas em receita, porém com custos e despesas também acima, levando a margens menores do que o estimado. Houve crescimento de despesas e custos acima das nossas estimativas, sobretudo em função de despesas relacionadas a aquisições de empresas, levando a margens menores do que o estimado para o trimestre. Estimávamos uma margem líquida de 14,7% e o realizado foi 11,1%.

Prejuízo surpreendente: Tenda (TEND3), que divulgou um resultado abaixo das nossas estimativas, devido a um fraco desempenho financeiro. O resultado foi impactado pela inflação de custos e a desaceleração da receita líquida, em consequência de menor andamento de obras decorrente de revisão orçamentária. Dessa forma, a empresa apresentou margem bruta negativa, com prejuízo trimestral e aumento de alavancagem. Estimávamos uma margem Ebitda de 7,5% e o realizado foi de -41,9%.

Prejuízo esperado: A Gol (GOLL4) apresentou receitas líquidas em linha às nossas expectativas e suportadas pela melhora na demanda neste 4T21. Ainda assim, os custos e despesas operacionais superaram e muito as nossas expectativas em função do aumento no custo com combustível e a continuidade de um dólar forte frente ao real. De positivo, notamos que ex-combustíveis, Gol vem conseguindo se tornar mais eficiente. Estimávamos uma margem líquida de -23,2% e o realizado foi de -23,3%.

Setor que brilhou: Petróleo. Diante de um aumento no preço internacional do petróleo e da depreciação do real perante o dólar, o setor de petróleo apresentou bons resultados no trimestre.

Setor que decepcionou: Saneamento. O setor foi negativamente afetado pelo aumento da inadimplência, volumes ainda prejudicados pela crise hídrica e a recuperação pós-covid mais lenta, impondo perdas acima do esperado.

Setor que surpreendeu: Os bancos apresentaram bons resultados no trimestre, principalmente pelo crescimento da carteira de crédito, ficando acima do guidance divulgado para 4T21. Além disso, o crescimento das taxas de juros também beneficiou os spreads bancários, fator que, aliado à maior carteira de crédito, impulsionou as receitas.

Lucro do Itaú Unibanco surpreendeu positivamente a Blackbird Investimentos

Blackbird Investimentos

Lucro acima das expectativas: Itaú Unibanco (ITUB4). O resultado acima do das expectativas, principalmente, por conta do bom crescimento na carteira de crédito, receita de serviços e seguros e bom controle de custos e despesas.

Lucro abaixo das expectativas: Tenda (TEND3). O resultado impactado negativamente pelo aumento nos custos. Já era esperado pressão nas margens, porém além da questão inflacionária, houve queda na produtividade das obras.

Prejuízo surpreendente: A Auren (AUREN3), ex Cesp, apresentou resultados negativos por conta de maiores custos na compra de energia e também GSF menor. ecom um aumento de 67% em seus custos na comparação anual, o que ajudou a resultar um prejuízo líquido de R$52,2 milhões.

Prejuízo esperado: A Locaweb (LWSA3) reverteu o seu lucro em prejuízo com R$ 7,2 milhões no mesmo mesmo período do ano passado. Os resultados foram impactados pelas aquisições realizadas pela empresa, porém em linha com os resultados.

Setor que foi acima do esperado: Celulose. Houve um aumento nas exportações do setor no final do segundo semestre do ano passado e além da retomada do consumo, principalmente por conta do crescimento no segmento de embalagens de papelão.

Setor que decepcionou: Imobiliário. O setor enfrentou dificuldades devido ao custo da inflação de construção, e pela redução na velocidade de unidades vendidas, muito impactado por conta da alta do Juros (que reduziu a atratividade de empréstimos imobiliários), no entanto, as empresas que conseguiram entregar bons resultados, tiveram um maior controle de custos, forte geração de caixa e boa capacidade de repassar os preços.

Setor que surpreendeu: Energia. Houve um maior volume de chuvas, beneficiando o setor, aumentando o nível dos reservatórios. Porém, muitas empresas de geração foram impactadas negativamente na repactuação do GSF [Generation Scaling Factor, medida de risco hidrológico].

Resultado da Azul decepcionou a Nova Futura Investimentos

Nova Futura Investimentos

Lucro acima das expectativas: Cosan (CSAN3). Uma das companhias que tiveram lucro que surpreendeu positivamente, o Lucro por Ação (LPA) ficou acima das expectativas na análise anual, ficando com um lucro por ação acima das expectativas no ano, chegando a 3,329 e a 0,68 no quarto trimestre de 2021. Os números de Raízen (RAIZ4), companhia que atua fortemente na área de energia renovável, e da Moove, companhia de comercialização de óleo lubrificante, compensaram as perdas com Rumo (RAIL3), que foi impactada pela pressão nas margens da companhia. Assim, mesmo com o avanço do petróleo e a variação cambial no período, a companhia conseguiu bons resultados com a receita líquida subindo 50,3% e o lucro líquido ganhando 91,5%.

Lucro abaixo das expectativas: Bradesco (BBDC4; BBDC3). Os resultados de Bradesco vieram abaixo do esperado. O adiantamento de provisões por parte do banco acabou por afetar o resultado, de modo que o lucro por ação ficasse em 2,705, 2,26% abaixo das expectativas. A inadimplência aumentou, porém continuou controlada. Apesar do resultado ter decepcionado, as perspectivas ainda são boas, principalmente se o endividamento das famílias aumentar, pois o banco já adiantou isso em seu balanço e, por isso, o resultado aquém das expectativas.

Prejuízo surpreendente: IRB (IRBR3). Apesar da redução do prejuízo em relação ao ano anterior, a companhia ainda segue com números que decepcionaram. O Lucro por Ação (LPA) da companhia está em -0,544, enquanto a expectativa era de -0,22. A alta na sinistralidade acabou por afetar fortemente o resultado da companhia.

Prejuízo esperado: Azul (AZUL4), dada a alta nos preços dos combustíveis, um custo fixo para empresa, e a inflação, que continuou a subir. Assim, mesmo que a reabertura fosse um fator positivo para a companhia, como foi evidenciado pelo crescimento da receita líquida no ano, subindo em 72,2%, os custos acabaram afetando o resultado da companhia.

Setor que brilhou: Petróleo, gás e biocombustíveis, beneficiando-se da alta dos preços de energia de modo geral. Aconteceu uma boa gestão de custos das companhias de distribuição, como é o caso de Vibra (VBBR3) e Cosan (CSAN3), além da questão da reabertura contribuir para o avanço das receitas das companhias. Outros setores que valem destaque são o de mineração, com os números de Vale (VALE3) e CSN Mineração (CMIN3), e de proteína animal, com os bons números de Marfrig (MRFG3) e JBS (JBSS3).

Setor que decepcionou: Em certa medida, a temporada de balanços foi positiva, mas o setor que de fato trouxe mais resultados aquém das expectativas foi o de seguros, que teve impacto negativo dos resultados trimestrais de IRB (IRBR3), Porto Seguro (PSSA3) e SulAmérica (SULA11), mesmo com Banco do Brasil Seguridade (BBSE3) tendo bons resultados.

Setor que surpreendeu: Alimentos, pois, mesmo com a alta dos custos gerados pelo aumento da inflação e levando em conta que o setor possui margens baixas, os resultados de companhias como Pão de Açúcar (PCAR3), Carrefour (CRFB3) e Assaí (ASAI3) surpreenderam positivamente, indicando que o setor é flexível, o que pode ser explicado pela baixa elasticidade de preço da demanda. Isto é, mesmo com os preços de seus produtos subindo, as pessoas continuarão comprando.

Bloomberg Línea

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