Semana do Fiagro

Copom: Selic deve subir para 12,75% nesta quarta e mercado espera novas altas; veja por quê

Nesta quarta-feira (4) o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fará o que o mercado espera ser um dos últimos ajustes do ciclo altista da Selic. Vendo uma inflação cada vez mais persistente, a autoridade monetária, segundo o consenso de mercado, deve reajustar a taxa básica de juros em 100bps, ou um ponto percentual.

Se a estimativa for concretizada, teremos uma taxa Selic de 12,75% ao ano. Analisando a última Ata do Copom, o mercado também estima uma outra alta de 0,5 ponto percentual, fechando o ciclo a 13,25% no final do ano. O consenso acredita que, em um cenário que destoe disso, os mercados podem sofrer mais.

“Apesar do amplo debate e das diversas incertezas sobre a inflação, na próxima reunião do Copom, o BC deve seguir com uma alta de 1% elevando a Selic para 12,75% com a sinalização que já havia feito. Qualquer atuação diferente disso trará ainda mais incertezas e volatilidade para os mercados. Essa alta, inclusive, é o que está precificada na curva de juros“, afirma Ricardo Jorge, sócio e analista de renda fixa da Quantzed.

Ainda assim, algumas casas preveem juros acima da média. O Credit Suisse e a Troster & Associados, por exemplo, miram 14% de Selic ao fim de 2022, enquanto a Planner e o BNP Paribas miram 14,25%.

Um dos principais drivers para vislumbrar juros acima do consenso é o IPCA, que tem subido sucessivamente acima do esperado nas últimas divulgações – ficando em atuais 11,3% – e também nas projeções dos analistas.

“A inflação medida pelo IPCA aumentou 1,62% em março, acima das nossas expectativas e do mercado. Com esta impressão, a inflação anual acelerou para 11,3%. Nesse cenário, revisamos nossa projeção de curto prazo para 0,45% mês em abril (de 1,00%) e até 0,34% mês em maio (de -0,10%). As últimas surpresas e as pressões contínuas nos levaram a revisar nossa inflação para o fim do ano para 8,0% em 2022 e 4,5% em 2023″, diz o analista do Bank of America (BofA), David Beker, em relatório.

“A inflação deve continuar atingindo o pico este ano em abril, em 11,5% ano a ano (em vez dos 11,7% que esperávamos anteriormente). Tudo somado, isso corrobora nossa visão de que o BC não será capaz de interromper o ciclo de aperto em maio. Esperamos uma última alta de 50 pb em junho, elevando a Selic para 13,25, mas os riscos estão no lado positivo”, acrescenta.

Segundo Gustavo Sung, Economista-Chef da Suno Research, o IPCA de março e o IPCA-15 deste mês, vieram acima de 1,0% e, no acumulado de 12 meses, ultrapassam os 11,0%. “A inflação segue disseminada na economia e os núcleos se encontram bem acima do limite superior da meta”, analisa.

Apesar disso, a casa segue o consenso de uma alta de 1 p.p. para a reunião desta quarta (4).

“Esperamos que o ciclo de alta de juros só termine em junho. A tendência é de uma Selic mais próxima de 13,5% a.a., a depender da evolução do cenário. A redução da bandeira tarifária pode trazer alívio da inflação nos próximos meses. No futuro, a discussão será o tempo de dissipação de todos os choques externos e domésticos. O Banco Central precisará ter uma comunicação adequada para não desancorar, no curto prazo, as expectativas dos agentes quanto à inflação nos médio e longo prazos”, analisa.

No último boletim Focus, em que o BC mede a expectativa do mercado financeiro, a projeção é de que  a taxa básica encerre 2022 em 13,25% ao ano. As estimativas do mercado para a inflação, entretanto, vêm crescendo há pelo menos 16 semanas. No mês passado, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, indicou que o futuro das taxas de juros no Brasil dependerá da extensão dos efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia e de outros eventuais choques sobre a inflação.

Na avaliação de Rob Correa, analista CNPI, desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), com os impactos econômicos do conflito russo-ucraniano associados a uma pressão inflacionária recorde sobre alimentos e energia, tensões a respeito do ciclo monetário brasileiro passaram a ganhar força.

“Com os dados referentes à inflação brasileira surpreendendo até mesmo as autoridades monetárias, é turvo definir quando o ciclo da alta de juros será encerrado ou atenuado. Até o fim de 2022, uma Selic a mais de 13,5% não seria uma surpresa para os mercados, especialmente em ano de eleições presidenciais”, relata.

Apesar do IPCA em elevação e com mudanças repentinas, analistas destacam que esses dados de curto prazo refletem o contexto de guerra na Ucrânia e a alta recente das commodities. Existe ainda o ‘fator China’: a alta de casos da Covid-19 em Xangai provocou uma paralisação no porto da região, o maior do mundo, segundo Igor Barenboim, economista e sócio da Reach Capital.

“Quanto à inflação de curto prazo, o Banco Central sinaliza que não ficará atento a esse indicador com o volume de juro real. Você teve o choque de inflação por causa da guerra. O IPCA-15 e o IPCA foram muito afetados pelo conflito; foi pior do que o esperado, mas o que mudou mesmo foram o lockdown na China e a questão do Federal Reverve (Fed), que está mais agressivo no aperto monetário”, afirma.

“São duas novidades ruins. Acho que o BC atuará para ter mais liberdade e mais tempo. Também acho que a China afeta mais o Brasil do que o Fed. Isso tira a pressão das commodities, o preço dos termos de troca piorou. A vontade de comprar commodities e equities aqui diminui”, acrescenta.

Nos prognósticos, a Reach vai em conjunto com o consenso de mercado e projeta 13,25% de Selic no fim de 2022.

Selic lida com Fed cada vez mais hawkish

Apesar de citar o impacto da China, Barenboim destaca que as decisões do Fed acabam causando um efeito de empilhamento no BC, já que os EUA ditam os rumos do mercado. A autoridade monetária americana imprimiu dinheiro como nunca na história, com 6 a cada 10 dólares sendo ‘criados’ nos últimos dois anos.

Além disso, lidar com uma inflação de 8% é extremamente incomum para os americanos. Sair do patamar de juro zero é algo que mexe drasticamente com o mercado, diz o analista.

“Para você sair de 0 para 3,5, é muita convexidade. É algo absurdo. Minha aposta principal é de que o Fed não vá além dos 3,5, ou 4. Apesar disso, a possibilidade de um cenário de cauda faz bastante preço. Com isso o Brasil sofre com os dois impactos simultâneos, da China e do Fed”, analisa.

Fabio Louzada, economista, analista CNPI e fundador da escola Eu Me Banco, prevê uma ‘super quarta’ de poucas surpresas, com alta de 1 p.p. já sendo precificada pelo mercado. O especialista vê uma influência ainda maior do Fed na decisão.

“Em relação à próxima reunião, temos uma incógnita maior. Na ata, já começava a ser previsto o fim do aperto monetário. E isso vai começar a se reverter por vários fatores. O motivo mais forte, na minha opinião, é uma postura mais hawkish do Banco Central americano, que pode subir os juros na próxima reunião em 0,75%. E qualquer alta nos juros americanos impacta as economias do mundo todo, inclusive no Brasil. Não tem como o Brasil decidir pelo fim do aperto monetário se EUA continuarem subindo forte a taxa de juros. Tudo vai depender muito da próxima ata do Fed”, afirma.

O analista projeta uma sinalização de uma alta de menor intensidade para a reunião de junho, terminando o ciclo entre 13% e 13,50% caso o cenário não se deteriore ainda mais.

“Até o fim do ano, devemos esperar a Selic entre 13% e 13,50%, projeção atual do mercado. Caso não haja uma piora significativa do cenário inflacionário, esse deve ser o patamar de juros até o final de 2022”, afirma.

Sung, da Suno, frisa que o cenário inflacionário “não está dando trégua”.

“Nos EUA, a tendência é de que haja um aperto monetário mais tempestivo pelo Fed. As recentes declarações do Powell apontam nessa direção. A banda deve aumentar dos atuais 0,25% a.a. – 0,5% a.a. para 0,75% a.a. – 1,00% a.a. Ainda, é esperado novas diretrizes para as próximas reuniões”, afirma.

Sair da Bolsa para comprar renda fixa em meio ao ajuste pode ser arriscado

Apesar do aumento da atratividade da renda fixa com juros mais altos, analistas ainda veem uma ‘bolsa barata’ e com múltiplos atrativos. Além disso, decisões erradas em escolhas simples, como a compra de um título pós-fixado em detrimento de um pré-fixado, podem penalizar o investidor no longo prazo.

“Ainda acho que do fim de 2021 para cá as empresas brasileiras estão indo bem. O emprego está recuperando, a economia está ‘andando’. A bolsa está negociando a um múltiplo de 7x lucro. Não tem renda fixa que pague isso, que representa um yield de 15%. Temos que fugir desse viés comportamental de comprar caro. Adoramos vender barato, quando todo mundo está saindo da posição. Tem muita coisa boa e barata. Entendo a renda fixa estar atrativa, com o tradicional 1% mensal, mas você deixa um custo de oportunidade bem alto”, afirma Barenboim.

Para o economista, ainda que a bolsa esteja barata, os juros em alta ainda penalizam excessivamente o varejo e demais techs da bolsa, além de companhias que precisem se endividar para financiar seu crescimento.

“Acho que esses setores não tÊm como andar ainda, não é hora de comprar. Os bancos estão muito baratos e as estatais têm menor risco de intervenção. Petrobras (PETR4) por exemplo está 2,5x lucro, a Eletrobras (ELET3) ainda pode ser leiloada. Brasil está 0,7x o book. Acho que commodities, apesar da queda, também ‘voltem’ antes de a Selic cair”, acrescenta.

Eduardo Vargas

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