Como a queda do minério de ferro na Bolsa chinesa derruba o Ibovespa?

Atualmente, a China possui uma população de 1,4 bilhão de pessoas. O terceiro maior país do mundo em território tem quase 20% da população global de forma isolada. De lá, sai a maior produção e importação de minério de ferro. Quando a demanda interna desacelera, a muralha para as commodities sobe e os preços despencam.

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Foi isso que aconteceu nos últimos dias. O minério de ferro despencou desde sua máxima histórica, em julho, quando atingiu a marca de US$ 220 por tonelada.

O receio dos investidores na Bolsa de Dalian, na China, um dos principais mercados onde o minério é negociado, diz respeito à desaceleração chinesa. A segunda maior potência econômica do mundo continua crescendo e, inclusive, já ultrapassou o nível pré-pandemia, mas o perfil dessa recuperação levanta dúvidas.

Altos investimentos em infraestrutura, que demanda minério de ferro por natureza, deram lugar ao consumo de produtos e serviços alternativos, com a reabertura econômica chinesa e, consequentemente, do mundo inteiro.

Como todo e bom mercado emergente, o mercado brasileiro ainda é subdesenvolvido. Este processo é aprofundado pela concentração do Ibovespa em commodities.

Cerca de 38% do índice depende diretamente de alguma das commodities em sua operação, não considerando apenas o minério de ferro. Com a tendência baixista, o resultado não poderia ser diferente: enquanto o exterior renova máximas históricas, o Ibovespa segue no zero a zero em 2021.

O que explica a derrocada do minério de ferro

Segundo especialistas ouvidos pelo Suno Notícias, existem algumas razões para a derrocada do minério de ferro nas últimas semanas.

Uma delas diz respeito à visão da China de que as commodities estão sofrendo uma “especulação excessiva”. O governo chinês quer “punir monopólios” que atuam com matérias-primas. A chance de interferência nos mercados financeiros afastou parte dos investidores.

Além disso, em seu 14º plano quinquenal, para o período de 2021 a 2025, a China visa endereçar flutuações bruscas nos preços das commodities.

Segundo a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC), o país reforçará o monitoramento e as análises sobre preços de petróleo, gás e soja.

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Queda do varejo nos EUA também influencia

Ademais, o movimento também tem relação com a queda nas vendas no varejo de Estados Unidos e China. No território norte-americano, a baixa em julho foi de 1,1%, enquanto o mercado esperava um recuo de 0,3%.

Os gastos das famílias atualmente são o principal motor da economia estadunidense, respondendo por mais de dois terços do crescimento econômico do país. Nesse sentido, os maiores gastos estão sendo voltados cada vez mais em serviços em vez de produtos, com a reabertura econômica.

Já na China, o resultado de julho foi uma alta de 8,5%, bem abaixo da expectativa de alta de 11,5% e do ganho de 12,1% do mês anterior. Além disso, a produção industrial desacelerou para alta de 6,4% no período, ante projeções de 7,8%.

Metas climáticas impactam produção de aço na China

Outro viés observado pelo mercado se refere às intenções da China em atingir as metas climáticas da agenda da Organização das Nações Unidas (ONU) antes de 2030. O país é o maior poluidor do mundo e se comprometeu a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Para isso, o governo passou a implementar uma série de restrições à produção de aço no país, incentivando outras formas de energia renovável.

“A China fez com que algumas siderúrgicas mais poluentes parassem sua produção, o que reduziu a demanda por minério de ferro”, lembra Victor Hasegawa, gestor de ações da Infinity Asset.

“Existe um projeto de que até 2025 cerca de 60% da produção de aço seja concentrada nas 10 maiores siderúrgicas do país, ou seja, as mais modernas e menos poluentes e que conseguem ter maior ganho de produtividade”, comentou ao Suno Notícias.

Segundo ele, vale ressaltar que, basicamente, quem define o viés da demanda por matérias-primas em todo o mundo é a China.

“Acredito que a correção do minério nos últimos dias ocorreu dentro dessa expectativa de redução da produção chinesa. Os estoques dos produtores por lá até estão abaixo da média histórica, mas começaram a subir recentemente.”

Commodities vivem tendências distintas

O movimento de alta das commodities nos últimos meses, sobretudo no processo de recuperação econômica do pós-pandemia, foi parcialmente generalizado, mas com intensidades diferentes.c

“No primeiro semestre deste ano, algumas das commodities atingiram seus maiores patamares da história. Esse boom não foi generalizado, atingindo principalmente minério de ferro, cobre e algumas agrícolas”, lembrou José Mauro Delella, consultor econômico da Alta Vista Investimentos.

O minério de ferro atingiu a marca de US$ 220 por tonelada em julho, sendo que a máxima histórica anterior havia sido de US$ 180 por tonelada em 2008. O petróleo, por exemplo, chegou a atingir US$ 150 o barril de Brent durante a crise do subprime, e chegou somente à metade disso nos últimos meses.

De acordo com o especialista, isso ocorreu porque existiram fatores comuns a todos, como a expansão monetária dos países, mas também fatores específicos.

Nesse sentido, ele cita o forte investimento chinês em infraestrutura desde o ano passado, e o choque de oferta em função de questões climáticas, influenciando o mercado de commodities ligadas à alimentação.

Delella entende que o arrefecimento desses fatores deve dar algum refresco aos mercados. “Esse processo é consistente com a evolução dos fundamentos. Mas, alguns fatores pontuais ainda sugerem um cenário benigno para as commodities, ao menos em uma perspectiva de longo prazo.”

As brasileiras frente ao minério de ferro

Os especialistas, com isso, entendem que não se trata do fim do ciclo das commodities, mas um solavanco natural deste processo.

Naturalmente, empresas como Vale (VALE3), Usiminas (USIM5), CSN (CSNA3) e Gerdau (GGBR4), representativas na Bolsa brasileira, balançam junto com as cotações.

Quando o preço do minério cai, entende-se que será prejudicial para as mineradoras pois, obviamente, o seu produto será comercializado a preços menores do mercado.

Entretanto, de acordo com os analistas consultados pelo Suno Notícias, as quedas podem estar ligadas às expectativas erradas, uma vez que o preço do minério não estará em alta para sempre.

“Na minha visão, o nível de preços de US$ 160 por tonelada ainda é muito bom para a Vale. Mesmo com a queda, esse patamar do preço da tonelada está próximo do que analistas esperam para 2021 e 2022”, diz Hasegawa, da Infinity.

Vale tem o diferencial da qualidade do minério

De acordo com Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, nesse contexto de menores preços, a Vale pode se beneficiar frente ao mercado pois trabalha com o minério de ferro da mina de Carajás, na Amazônia, que tem uma pureza maior.

Além de a empresa também ter uma produtividade maior do que seus pares, a busca por qualidade pode ditar o ritmo daqui para frente.

Já era de conhecimento público, inclusive, que a produção da Vale não seria tão forte neste ano.

“O guidance mostra uma expectativa de produção maior somente em 2022. A produção cresceu levemente do primeiro para o segundo trimestre deste ano, o que já é suficiente para colocar a empresa no caminho das projeções para este ano.

Gerdau conta com exposição aos EUA

No caso da Gerdau, o setor de construção civil aquecido nos Estados Unidos, além do novo pacote de infraestrutura norte-americano que está sendo costurado na ordem de US$ 1 trilhão, devem fazer com que os números da empresa continuem sólidos.

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Das três maiores siderúrgicas brasileiras, ela é a que menos depende do minério de ferro. “Ela tem uma unidade de mineração, mas o peso disso no balanço é bem menor.”

Já no que se refere às siderúrgicas, como CSN e Usiminas, que têm a produção de minério, deve ser observada uma forte volatilidade em função dos preços em queda.

“O Brasil, contudo, ainda deve passar por pela recuperação da demanda por aço plano e de produção de veículos, que caíram bastante na pandemia”, citou Hasegawa.

“Esses fenômenos devem sustentar as empresas, que apresentaram resultados muito bons no segundo trimestre, o que deve continuar nos próximos meses.”

Perspectivas

Segundo Arbetman, o preço acima de US$ 200 por tonelada estava disfuncional. “A gente não sabia até quando iria, mas o normal seria o minério de ferro operar em um patamar muito abaixo disso.”

Para ele, estamos em meio a um choque artificial no mercado da commodity, inflado pela China desde o final de 2019 — época da chegada da pandemia no país.

“É natural que um arrefecimento chegasse. O que acontece é que também foram levantadas dúvidas sobre a força motriz desse mercado para os próximos meses.”

Para Delella, alguns pontos ainda continuam problemáticos. No caso das commodities agrícolas, por exemplo, regiões de seca e inundações em vários lugares do mundo, ou a geada no sul do Brasil no fim do mês passado, contribuem para a escassez da oferta.

“Esses pontos continuam válidos. Porém, aparentemente, as condições atuais, de recuperação gradual em função da estabilização da Covid-19, tendem a ser construtivas para as commodities, a não ser que haja um recrudescimento da pandemia.”

O mercado continua atento ao movimento do minério de ferro frente ao temor por um novo surto da Covid-19 na China. Com isso, por um lado, o medo é por novas restrições à mobilidade; do outro, o crescimento do país já está desacelerando. A ver nos próximos capítulos.

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Jader Lazarini

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