Rodrigo Sodré

O meio do ano e o recálculo de rotas na economia

Nesta segunda metade de 2022, o mundo deverá ficar de olho na balança entre apertos monetários e crescimento econômico

Inflação recorde, aperto monetário e recessão à vista. Apesar de boas notícias pontuais, o cenário macroeconômico mundial traz diversos desafios aos investidores. Os estímulos que as autoridades monetárias concederam nos últimos anos contribuíram para a alta de preços. Então, o fim dessas medidas com a recuperação após a fase mais grave da pandemia já era esperado, mas ocorre em um momento que coincide com a guerra na Ucrânia – fato que trouxe novas peças ao tabuleiro.

No primeiro semestre, as commodities dispararam, tanto que o petróleo foi o ativo que mais valorizou (47,6%), alcançando o patamar mais alto em 14 anos. Outras matérias primas também subiram, o que beneficiou o Brasil e injetou dólares por aqui, beneficiando o nosso mercado de ações, que sofreu menos do que outros países. No entanto, o temor de uma recessão global na metade do ano provocou efeito inverso, com queda de preço desses produtos, apesar da reabertura da economia chinesa e das promessas de estímulos por parte do gigante asiático.

As posturas do Oriente contrastam com o que se vê no outro hemisfério. A cautela dos investidores se justifica, afinal o Federal Reserve (Fed) elevou seus juros de quase 0% para a faixa entre 1,5% e 1,75%, o maior reajuste desde 1994. Medidas semelhantes já vêm sendo tomadas por bancos centrais mundo afora e devem alcançar outras autoridades monetárias de grandes economias, como o Banco Central Europeu. No Velho Continente, aliás, os indícios de recessão são mais evidentes, dado que as economias são mais afetadas pelos cortes do suprimento de gás e petróleo derivados das sanções à Rússia.

Com o globo fechando a torneira da liquidez, vai embora o apetite do mercado por ativos de maior risco, como algumas ações e criptomoedas. O bitcoin despencou 59,6% no semestre, enquanto o índice Standard & Poor’s 500 (S&P 500), um dos principais de Wall Street, teve o pior desempenho em mais de 40 anos, com queda de 21% este ano. Ambos os fenômenos estão diretamente relacionados à subida de juros nos Estados Unidos, que gerou uma migração do capital para os títulos do tesouro norte-americano, tidos como mais seguros.

No Brasil, o cenário é ainda mais incerto. Por um lado, as vendas no varejo tiveram quatro altas seguidas e, em abril, aumentaram 0,9% na comparação mensal, de acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), elaborada pelo IBGE. Outro dado positivo veio da geração de empregos: a Pnad Contínua apontou que a taxa de desocupação alcançou 9,8% no trimestre móvel encerrado em maio, menor percentual desde 2015. Esse cenário relativamente otimista, porém, pode não perdurar.

Em junho, a inflação acelerou. O IPCA registrou alta de 0,67%, acima dos 0,47% observados no mês anterior. No semestre, a inflação acumulada chegou a 5,49%, maior valor desde 2015. A redução do ICMS sobre os combustíveis e a perspectiva de que não haverá novos reajustes desses insumos apontam para um possível freio na alta de preços, mas o incremento à atividade econômica e o aquecimento da demanda gerados pela concessão de diversos benefícios sociais devem afetar esses cálculos. O maior risco fiscal do país pode provocar, ainda, uma alta do dólar.

Vale lembrar que, segundo o próprio Banco Central, a cada 10% de depreciação do real, há um aumento de 1,1 ponto percentual do IPCA em 12 meses. Desde a aprovação da PEC, há duas semanas, o câmbio já desvalorizou 9,25%. Diante disso, o trabalho da autoridade monetária para guiar o índice à desinflação e, consequentemente, à meta do indicador se torna bem mais difícil, e o mercado já projeta a taxa Selic mantida no patamar de dois dígitos por mais tempo. Isso deve comprometer o crescimento da economia após os efeitos imediatos da injeção de dinheiro por meio dos auxílios.

Nesta segunda metade de 2022, o mundo deverá ficar de olho na balança entre apertos monetários e crescimento econômico. Em um cenário ideal, não haveria choques, mas uma desinflação gradual, permitindo que os bancos centrais fossem mais brandos na elevação dos juros. Uma desaceleração é praticamente inevitável diante do que se vê hoje, mas as esperanças se voltam para um cenário sem recessão. Será fundamental observar como a economia europeia reagirá à falta de insumos energéticos, se a China (o Brasil foi o sétimo país que mais vendeu ao Império do Meio em 2021) conseguirá crescer e movimentar o mundo e se os EUA serão capazes de controlar a inflação recorde e afastar o fantasma da recessão.

Nota

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Rodrigo Sodré
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