Gustavo Cruz

Três temas internacionais para 2022

Três pontos de atenção para os próximos meses: o aperto monetário dos Estados Unidos, a tensão entre Rússia e Ucrânia e o estimulo para o crescimento na China.

A economia brasileira deve ser impactada por um cenário eleitoral conturbado. Diante da promessa de volatilidade, surge um interesse cada vez maior por produtos internacionais. Assim, seguem três pontos de atenção para os próximos meses de 2022: o aperto monetário dos Estados Unidos, a tensão entre Rússia e Ucrânia e o estimulo para o crescimento na China.

Sobre a tensão entre Rússia e Ucrânia, por enquanto, nenhuma invasão ocorreu, mas existe o risco. Vemos uma mobilização de países do Ocidente para evitar o desfecho, que seria seguido por tarifas sobre a economia russa. Algo similar ao que ocorre entre Estados Unidos e China, na Guerra Comercial. O efeito é negativo para a economia global, criando distorções, encarecendo produtos e muitas vezes deslocando fábricas e sedes de empresas para outros países.

Outra possível consequência é a alta nos preços de commodities, destaque para o petróleo e o trigo. Segundo a FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura), a Rússia é a quarta maior produtora e segunda maior exportadora de trigo, enquanto a Ucrânia é a sétima maior produtora e a quinta maior exportadora. Olhando para o petróleo, a EIA (Energy Information Administration) indica que a Rússia é responsável por 11% de todo petróleo exportado no mundo. Ambos são bastante relevantes, o que elevaria o preço dos produtos com possíveis interrupções de fornecimento, dificuldades de logística, ou até represálias econômicas diretas de importadores.

Outro ponto de atenção é o gás. Diversos países da Europa recebem uma parcela relevante de sua energia por gás vindo da Rússia. Com um cenário bastante inflacionário, esse vetor deixaria os mercados ainda mais desconfiados de um possível aperto monetário na região. Segundo a Rystad, a Alemanha importa da Rússia 60% de seu gás, que representa 27% do total de energia consumido no país. A Itália importa 40%, que representa 31% do total de energia. A França importa 20%, representando 21% do total de energia. Para mencionar alguns exemplos. Existiria uma pressão ainda maior na inflação da região, o que pode acelerar planos de aperto monetário.

O outro grande tema são as altas de juros nos Estados Unidos. O ano começou com investidores debatendo se teríamos 3 ou 4 altas no ano. Dirigentes do Fed começaram a falar abertamente na possibilidade de elevar juros em março, do desconforto com a inflação alta e do mercado de trabalho aquecido. A reunião do Fed em janeiro reforçou a posição, anunciando que o banco central está bem próximo de elevar juros.

Com esse contexto, estamos passando por um momento de instabilidade no mercado financeiro. Não existe consenso de quantas altas teremos em 2022, ou seja, qual o tamanho do aperto monetário. O que deve provocar uma volatilidade excessiva nos próximos meses. Existe a chance de que a reunião de 16 de março deixe mais claro o ritmo, mas a maior probabilidade é que apenas em 4 de maio fique bem sinalizado. Após março, uma parte acreditará que o ritmo de altas será trimestral, enquanto outra que será em toda a reunião.

Por fim, a China terá no final do ano a recondução de Xi Jinping para mais um mandato. Ele quebrará a tradição recente de dois mandatos – para isso, conta com uma economia crescendo em ritmo forte, além de um grande apoio popular. Diante de uma desaceleração natural, teremos o governo chinês utilizando seu arsenal de instrumentos para aquecer a economia para o segundo semestre. Estamos falando de redução de compulsório, corte de juros, incentivos para contratações, recomendações de gastos públicos nas províncias, entre outros.

O governo chinês estabeleceu uma meta de 6% para 2022, que deve ser reduzida para 5,5%. Patamar ainda elevado para economistas do mercado, que projetam um cenário de 4,8% com tudo funcionando no melhor dos cenários. Esses estímulos artificiais devem ajudar a atingir a meta. Como consequência indireta, o preço de commodities deve se sustentar em níveis mais altos.

O investidor deve aproveitar as oportunidades que surgem no exterior, mas sempre selecionando uma narrativa interessante para o ano, evitando riscos geopolíticos.

Nota

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