“Precisamos de um presidente reformista, diferente de Bolsonaro”, afirma Zeina Latif

“Precisamos de um presidente reformista, diferente de Bolsonaro”, afirma Zeina Latif
Zeina Latif frisou que Estado deve ter 'melhor alocação de recursos' e se opôs a opiniões de ex-ministros e adversários que querem revisões das reformas já consumadas

Em entrevista ao Suno Notícias, a economista Zeina Latif, Consultora da Gibraltar e ex-economista-chefe da XP Investimentos, deixou claro sua aliança com o pré-candidato à Presidência da República, João Doria (PSDB). Destacou a necessidade de um novo mandato que seja reformista e tenha enfoque na condução econômica – o que ela avalia que o governo federal não conseguiu fazer.

“Há técnicos alinhados à abertura de mercado, mas isso ‘bate’ com as limitações políticas de dentro do próprio governo. O próprio desinteresse do Executivo em alguns temas, como a abertura do comércio, reforma administrativa e outros tema, é um exemplo. Estamos estagnados e a agenda econômica precisa ser mais ambiciosa”, afirma Zeina Latif.

A economista destacou que o teto de gastos ‘funcionou muito bem’, mas que o governo teve oportunidade de alinhar os gatilhos para furar o teto. “Não funcionou. Vimos que a PEC dos Precatórios burlou a regra do teto. Isso já foi sinal de um governo não comprometido com a saúde fiscal do país”.

Se for ministra, Zeina quer ‘reafirmar a regra do teto’, revendo ‘políticas públicas ineficientes e perversas aos cofres públicos’.

Com inflação ainda de dois dígitos e alta dos combustíveis, a especialista lembra que o Real descolou muito do páreo internacional – o que considera o principal driver para a pressão sobre os preços.

O panorama, diz, afasta os investidores estrangeiros. A avaliação é de que o governo produziu muitos ruídos e tem uma falta de compromisso, que interfere na variação cambial.

“A parte principal se resolve com política econômica, afinal isso faz o câmbio recuar e, daí, tiramos a pressão sobre os preços. Essa discussão sobre fundos impacta parâmetro nos royalties dos estados. Agora, claro, essa discussão é possível. Só não acho que possamos interferir na política de preços da Petrobras (PETR4).”

Está no Congresso uma discussão para que se autorize o governo federal a reduzir ou zerar os impostos federais para gasolina, diesel e energia elétrica de forma temporária, em momentos de crise. Seria criado um fundo para aliviar a alta dos preços.

O debate volta à tona em meio à alta da inflação puxada especialmente pela gasolina, que ultrapassa os R$ 7 em diversos postos.

Zeina Latif: não é hora de privatizar a Petrobras

Apesar das críticas ao governo, a economista destaca que foi importante a volta das privatizações ao centro do debate público, e que o governo tratou os processos como sendo ‘tarefas administrativas’.

“Temos que pensar se as empresas em questão estão produzindo e entregando ou que deveriam ou não. Além disso, temos que avaliar o quanto isso impactaria na redução da dívida pública. Diminuir o risco fiscal, da mesma forma, é muito interessante. Um terceiro critério é o quão maduro está o debate sobre aquela privatização”, afirma Zeina Latif.

“Minha avaliação sobre a Petrobras é que não há um debate suficientemente maduro. Tem muita coisa para fazer com outras empresas que não dariam tantas manchetes de jornal”, acrescenta.

O principal motivo, segundo a ela: é necessário um estudo que justifique um custo-benefício de vender a estatal.

Afirma que uma das prioridades deve ser a reforma tributária, já que ela deve ser uma das mais importantes para a atratividade do Brasil.

Zeina afirma acreditar em uma “qualidade de ação estatal”, já que o país possui uma carga tributária “tremenda” e uma economia repleta de distorções com um gasto público mal alocado.

“Precisamos melhorar a qualidade da gestão; garantir que quem recebe o benefício é, realmente, quem precisa. É possível fazer isso, essa questão da qualidade da ação estatal é a mais importante. Mas não há dúvidas de que há muito peso do Estado”, analisa.

Visão de Lula sobre reformas é equivocada

Após ex-integrantes do Ministério da Economia e nomes cotados para a equipe econômica do ex-presidente Lula virem a público falar sobre a revisão de reformas passadas – como Guido Mantega, em artigo na Folha de S. Paulo -, Zeina, acredita haver um “retrocesso” nesse aspecto.

“Eu entendo que isso seria um tremendo retrocesso. Precisamos do contrário, justamente de um governo reformista. Nós tivemos um governo do FHC extremamente reformista, o qual devemos o ambiente minimamente estável, e o governo Lula que deu alguma continuidade às políticas. Ficamos 10 anos sem reformas após o mensalão”, analisa Zeina Latif.

A avaliação é de que a condução econômica desse aspecto por parte do governo do ex-presidente Michel Temer (MDB) foi ‘na direção correta’.

Apesar disso, observa que há dificuldades inerentes por causa da aprovação política e fala que ‘não existe reforma ideal’. “Precisamos reconhecer que existem ajustes a ser feitos. Precisamos andar para frente, não desfazer o que funcionou”, afirma.

Ministro liberal terá que negociar mais

Após ser indagada sobre o encurtamento da trincheira por parte da equipe econômica do Planalto – que atualmente cede ao Congresso em diversas situações e já sofreu com debanadas de técnicos -, Zeina afirmou que “restrições políticas” são comuns e precisam ser entendidas.

“É muito importante que o presidente tenha um apelo reformista, o que não era o caso do presidente Bolsonaro, na minha visão. Tem momentos de uma proposta ser em uma direção e a decisão política ser outra; faz parte da vida“, afirma.

“Se eu não acreditasse no compromisso de João Doria para essa agenda, não aceitaria o convite para integrar a sua equipe”, completa Zeina Latif.

Eduardo Vargas

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