Gestores querem a Vale (VALE3), mesmo após a queda do minério; veja por que

Gestores querem a Vale (VALE3), mesmo após a queda do minério; veja por que
Mineração. Foto: Pixabay

O minério de ferro voltou a ser tema do noticiário econômico nos últimos dias. A derrocada da matéria-prima era esperada, mas aconteceu de forma acelerada, em meio à crise do setor imobiliário na China. O que acontece do outro lado do mundo impacta os negócios por aqui, sobretudo da Vale (VALE3).

A mineradora perdeu o posto de empresa mais valiosa da América Latina com as recentes quedas, e os investidores cada vez mais se perguntam: ainda vale a pena comprar as ações da Vale?

Segundo especialistas ouvidos pelo Suno Notícias, por mais que os preços ainda sejam atrativos para compra, ruídos de curto prazo ainda causam instabilidade e trazem nebulosidade para as previsões.

Além disso, existem uma série de razões para se preocupar com o patamar do minério em função de sua demanda incerta.

Entretanto, o valor negociado da matéria-prima no mercado ainda está acima do custo de produção, o que pode ser um gatilho para a Vale, que produz um minério de maior qualidade e, consequentemente, mais custoso.

Mas, tudo depende de como a economia chinesa, pautada em mais de 30% no setor imobiliário, reagirá aos estímulos do governo em meio à crise instaurada pela Evergrande nos últimos dias.

Vale continua criando valor e ganhando muito dinheiro

Há quem não confie mais no patamar da Vale. Em relatório recente, o banco UBS recomendou a venda das American Depositary Receipts (ADRs) da companhia por conta das incertezas do minério de ferro.

A despeito das quedas sofridas pela companhia, o cenário ainda é positivo para a maior parte dos especialistas.

“Vejo que a correção já teve uma amplitude considerável. Ela já caiu 30% desde o máxima em maio. E, pensando em um minério de ferro a US$ 100 por tonelada, ainda existe muito valor”, comenta Priscila Araújo, gestora de renda variável da Macro Capital.

Enquanto estiver tendo ruído, sem certezas sobre o que será feito com a Evergrande, todos os papéis “metálicos”, seja minério ou a parte de siderurgia, deve sofrer mais, segundo a gestora, “mas a história é positiva para o médio e longo prazos”.

A cotação da Vale é uma resposta imediata às perspectivas de crescimento do mundo e China. Naturalmente, o Ebitda da empresa é diretamente proporcional ao preço do minério, mas não para por aí.

“Quem estava entrando no papel quando o minério estava a US$ 220 a tonelada, entrava em um movimento totalmente especulativo. Nós vemos que a Vale possui outras características estruturais positivas para além do preço da commodity”, diz Maurício Pedrosa, gestor na Arena Capital Asset.

As qualidades intrínsecas à Vale, como sua eficiência operacional e o minério de maior qualidade, fazem com que a Arena — comprada em Vale há um bom tempo — não tenha interesse em fazer “market timing” com os papéis.

Em termos de patamar de preço do minério, Pedrosa diz que não há uma resposta conclusiva, até pelo caráter especulativo da commodity. “O que dá pra falar é que com a tonelada por volta dos US$ 100, ou até menos, a Vale ainda faz muito dinheiro.”

O que a crise da Evergrande representa para o mercado de minério

A Evergrande é a segunda maior incorporadora da China e possui o maior endividamento entre todas as empresas do setor no planeta. São cerca de US$ 300 bilhões em compromissos (aproximadamente R$ 1,6 trilhão). Em termos comparativos, são cerca de 31% da Bolsa brasileira inteira.

Desde a metade deste ano, o setor imobiliário tem desacelerado fortemente na China. As vendas contratadas em agosto caíram 13% na relação mensal, para o equivalente a US$ 5,9 bilhões.

A companhia disse que a queda nas vendas colocariam uma pressão muito grande sobre o fluxo de caixa e sua liquidez. A possibilidade de calote é real.

A empresa não tem apenas passivos no mercado financeiro, mas também relacionados a entregas a consumidores. O conglomerado se alavancou demais e talvez não dê conta.

Instaurada a crise, o mercado de minério de ferro é afetado primeiro em função da chance de menor demanda pela própria incorporadora e seus pares, e também pela desconfiança que o próprio segmento passará aos investidores e credores.

“A grande questão é se ela conseguirá pagar os juros de curto prazo. Mas a magnitude chama atenção. Estamos falando do maior passivo de uma empresa no setor imobiliário no mundo inteiro”, diz Araújo.

Segundo ela, o ponto mais importante de observação neste momento é que o governo chinês quer demonstrar que visa acabar com a bolha do preço dos imóveis.

“Mas, o remédio que ele pode dar pode ser muito amargo”, diz. O mercado tem precificado a Evergrande “sangrando”, mas ainda assim sem quebrar, com o Estado chinês propondo alguma intervenção — como a transformação do conglomerado em empresa estatal.

O Banco Popular da China (PBoC) injetou 120 bilhões de yuans (US$ 18,6 bilhões) no sistema bancário do país, por meio de acordos de recompra reversa.

Mesmo assim, as preocupações continuam. Uma das subsidiárias da Evergrande disse que pagaria juros de seus títulos na última quinta-feira (23). Porém, o valor equivalente a US$ 83,5 milhões, que é ínfimo em relação ao passivo total, não foi pago e a empresa não fez qualquer pronunciamento.

Calma! Queda da commodity era esperada pelo mercado

O minério de ferro atingiu sua máxima histórica em julho deste ano, quando chegou à marca de US$ 220 a tonelada.

Os investidores (ou especuladores) estavam em frenesi, dada a recente recuperação econômica global — o que tradicionalmente remete a imensos pacotes de investimento em infraestrutura.

Mas, desde então, não houve festa. A commodity já perdeu mais de 50% de seu valor, voltando para as menores marcas em mais de um ano.

Tombo do minério de ferro desde julho. Foto: TradingView (consulta em 20/9)
Tombo do minério de ferro desde julho. Foto: TradingView (consulta em 20/9)

Segundo a gestora, sazonalmente já é esperada uma desaceleração do preço da matéria-prima a partir do terceiro trimestre, embora o processo tenha sido acelerado.

“O que mais impactou o preço foram as restrições de produção de aço na China; a própria economia está mais fraca, com investimentos em infraestrutura e o setor imobiliário mais fraco que meses atrás e escassez de energia em algumas regiões.”

O governo chinês — que agora se vê em uma encruzilhada para salvar a Evergrande de alguma forma — já havia procurado interromper a disparada dos preços dos imóveis, o que diminuiu a importação de minério recentemente.

Além disso, o Estado chinês também implementou uma série de restrições à produção de aço no país, com o objetivo de atingir as metas climáticas.

“A crise da Evergrande foi a cereja do bolo dessas perguntas em relação ao preço do minério“, comenta Pedrosa.

Para ele, tanto na época em que estava na máxima histórica, quanto agora durante a instabilidade do mercado, fazer qualquer previsão de curto prazo para o minério de ferro é puramente especulativo. “O valuation aceita tudo.”

A Vale, de acordo com o especialista, possui gatilhos estruturais que transformam seu negócio praticamente à prova de balas durante os momentos de crise. Ao menos até agora.

Jader Lazarini

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