Como a tomada do Afeganistão pelo Talibã pode afetar o preço do petróleo?

Como a tomada do Afeganistão pelo Talibã pode afetar o preço do petróleo?
Em movimentação recente, vazamento de gás ocasionou parada em Campo da Enauta - Foto: Pixabay

Em 15 de agosto, o grupo islâmico Talibã assumiu o controle de Cabul e retomou o poder no Afeganistão depois de 20 anos de ocupação americana. A tomada do país modificou o tabuleiro geopolítico e pode abalar os preços de commodities naturais, incluindo o petróleo.

A invasão da capital afegã há quase duas semanas deixou o mercado acuado e apreensivo diante da deterioração da posição dos Estados Unidos e da abertura de um vácuo político na região. O aumento da percepção de risco levou a uma elevação de quase 4% da cotação do petróleo no dia seguinte, também impactado por dados chineses de atividade econômica bem desanimadores.

Conforme reportagem da BBC Brasil, o Afeganistão tem uma riqueza mineral estimada entre US$ 1 trilhão e US$ 3 trilhões. Dados do Banco Mundial apontam reservas extensas de cobre, ferro e hidrocarbonetos.

“Porém, vinte anos de conflito mostram que houve pouquíssimo investimento em infraestrutura para a mineração desses materiais e há pouco interesse internacional por causa da instabilidade política na região”, escreveram Jennie Li, Sol Azcune e Vinicius Araujo, em relatório da XP.

De acordo com os especialistas, o país não é um produtor de nenhuma commodity de grande peso. Desse modo, a expectativa para mercados é de impactos limitados. A apreensão com a mudança repentina e brutal de comando é que persiste — assim como permanece o terror pela ocupação e pela fuga desesperada de milhares de pessoas do país, em cenas que assombraram e chocaram o mundo.

Do ponto de vista estritamente econômico, no curto prazo analistas enxergam possível risco de alta para os preços do petróleo, frente ao “crescimento das tensões e elevação do risco de um conflito na região”.

Os players do xadrez político-econômico no Afeganistão

Dias após a saída de tropas dos Estados Unidos do país asiático, o presidente Joe Biden buscou um tom positivo em discurso, apesar da severas críticas devido ao resultado final da guerra mais longa travada pelo país.

“Não posso prometer qual será o resultado final ou o quê será — que será sem risco de perda,” salientou o democrata. “Mas, como comandante-chefe, posso garantir que vou mobilizar todos os recursos necessários.”

Na visão de Patricia Noschang, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (FD/UPF), o momento pode marcar um virada de chave para a região. Os Estados Unidos podem abrir de vez as portas para um novo player global — a China.

Todo governo precisa de reconhecimento internacional para se manter, lembrou a professora. E um dos primeiros países a acenar ao Talibã foi a China. No dia seguinte à invasão, Pequim disse desejar manter “relações amistosas” com o grupo extremista.

O estreitamento de laços provavelmente tem a ver com a abundância de minerais inexplorados no Afeganistão. Informações do Serviço Geológico dos Estados Unidos apontam para uma reserva de lítio equivalente a US$ 1 trilhão. O mineral é utilizado para a produção de smartphones, computadores e veículos elétricos — protagonistas da nova economia.

Patricia Noschang não espera que os Estados Unidos reconheçam a legitimidade do governo talibã. Fazê-lo seria admitir uma derrota.

A especialista também vê uma faísca entre as bandeiras levantadas pelo Ocidente e pela sharia, o conjunto de leis islâmicas baseadas no Alcorão. A primeira ideia que se tem com a volta do Talibã é de um “governo radical, fundamentalista” , que comandou o Afeganistão de 1996 a 2001, seguindo a derrocada na dominação soviética, disse.

À época, mulheres eram proibidas de estudar, impedidas de trabalhar e penalizadas por revelar um centímetro de pele a mais. Malala Yousafzai, ativista paquistanesa e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, foi baleada na cabeça por talibãs após protestar contra a proibição dos estudos.

A professora da UPF traçou um paralelo para explicar impactos de desvios dos direitos humanos. Há no direito universal um princípio que consiste na não admissão de um recuo no nível de proteção. Como nações ocidentais enxergarão tais desvios?

É cedo para cravar, mas Patricia Noschang vê duas alternativas ao Afeganistão: “uma política de direitos humanos para inglês ver” ou a adoção de um tom mais ameno, menos radical — apenas na fachada, na superfície.

O posicionamento é importante, pois definirá como o país será visto no âmbito global.

O que esperar para o governo talibã?

No caso de uma radicalização do país — inclusive transformando-o em base para organizações terroristas, como foi no passado —, a visão de Paulo Dutra Costantin, coordenador do curso de Economia da Faap, é de que o potencial econômico pode terminar desprezado.

Isso ocorreria em virtude de uma instabilidade que poderia afastar grandes empresas mundiais, que, por sua vez, têm a capacidade de explorar as extensas reservas e a localização estratégica.

Sob essa hipótese, existe a chance de um aumento no preço de commodities, em razão de uma possível redução na oferta a nações ocidentais por causa de represálias contra países islâmicos.

Por outro lado, o professor observa um cenário distinto, no qual o Afeganistão abriria mão do radicalismo para ganhar dinheiro ao lado de parceiros estratégicos. A China teria uma posição central nesta perspectiva. O dragão asiático já avisou que não interferirá na política interna do país e poderia trazer investimentos e melhorar a infraestrutura na região, caso haja garantia de que não haverá instabilidade, em “um processo de ganha-ganha”.

O quadro traria assim a possibilidade de uma expansão na oferta de petróleo, de lítio, de minério de ferro e de outras commodities entesouradas no subsolo do Afeganistão.

A expectativa, portanto, seria de uma queda na cotação de petróleo, devido à elevação na oferta. A commodity ainda seria pressionada pelo barateamento da tecnologia verde, em que o lítio e serviria de substituição aos combustíveis fósseis.

“Tudo isso são cenários. Hoje está muito cedo para fazer qualquer avaliação. Até uma medida mais radical por parte do Talibã pode ser executada hoje e o grupo poderia voltar atrás em alguns meses, revertendo todo o processo”. ponderou Paulo Dutra Costantin.

“É um jogo geopolítico e econômico que ocorre agora, difícil de prever o desfecho.”

Cotação do petróleo nesta quarta (24)

Nesta quarta-feira (24), o petróleo WTI para outubro fechou com ganho de 1,21% (US$ 0,82), a US$ 68,36 o barril, na New York Mercantile Exchange (Nymex), e o Brent para o mesmo mês subiu 1,69% (US$ 1,20), a US$ 72,25 o barril, na Intercontinental Exchange (ICE).

(Com Estadão Conteúdo)

Arthur Guimarães

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