Copom eleva taxa Selic para 9,25% ao ano e sinaliza novo aumento; entenda os motivos

Copom eleva taxa Selic para 9,25% ao ano e sinaliza novo aumento; entenda os motivos
Copom. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou nesta quarta (8), em Brasília, na oitava reunião do ano, o aumento da taxa básica de juros, a Selic, em 1,5 ponto percentual, de 7,75% para 9,25% ao ano.

A decisão, unânime, era esperada pelo mercado financeiro. Com o aumento da inflação, o Banco Central fez mais um ajuste nos juros básicos para tentar segurar a alta dos preços. Na última reunião do Copom, em 27 de outubro, o comitê havia sinalizado que a elevação da taxa seria estabelecida nesse patamar. A justificativa era a escalada da inflação.

Com a decisão de hoje, o choque de juros este ano chega a 7,25 pontos porcentuais, o maior em quase 20 anos – desde o ciclo entre o fim de 2022 e o início de 2003. E a Selic alcançou o maior patamar desde setembro de 2017, quando estava em um ciclo de afrouxamento após alcançar 14,25% em meio à crise de 2015 e 2016.

A taxa está, portanto, no maior nível do governo Bolsonaro. Quando o presidente chegou ao poder, a taxa Selic estava em 6,50%.

O Comitê disse hoje que “irá perseverar em sua estratégia de alta até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas.” Segundo o comitê, a “decisão é compatível com convergência da inflação para meta ao longo do horizonte relevante.”

Para a próxima reunião, o Comitê antevê outro ajuste da mesma magnitude.

O cenário base do BC prevê inflação na meta em 2022, mas acima do teto em 2023: “As projeções para a inflação de preços administrados são de 16,7% para 2021, 3,8% para 2022 e 5,2% para 2023.”

No comunicado, o Copom destaca o risco fiscal, juros altos e a inflação: “O Comitê avalia que questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevam o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mantendo a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico.”

Porta aberta para uma ação ainda mais forte na Selic

Após manter o “plano de voo” e elevar a Selic mais uma vez em 1,5 ponto porcentual – para 9,25% ao ano – o Copom sinalizou uma nova elevação de mesma magnitude na próxima reunião, em fevereiro, para 10,75% ao ano. Ainda assim, o colegiado deixou a porta aberta para uma ação ainda mais forte na taxa básica de juros e prometeu perseverar até que as projeções de inflação voltem a estar ancoradas nas metas para os próximos anos.

“O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar a convergência da inflação para suas metas, e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária”, repetiu o BC.

Se na reunião anterior o colegiado considerou apropriado que o ciclo de aperto seguisse em território “ainda mais” contracionista, agora o Copom avalia ser necessário avançar “significativamente” nesse território. O BC chamou a atenção para o risco de perder a ancoragem das expectativas de inflação em prazos mais longos, a partir de 2023.

“O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, enfatizou o comunicado.

BC: possibilidade de nova onda e Ômicron adicionam indefinição à retomada em economias

Ao elevar a Selic mais uma vez em 1,5 ponto porcentual – para 9,25% ao ano – o Copom citou o aparecimento da variante Ômicron do novo coronavírus como um fator que adiciona incerteza sobre o ritmo de recuperação nas economias centrais, diante da possibilidade de uma nova onda de covid-19 no inverno do hemisfério Norte.

“No cenário externo, o ambiente se tornou menos favorável. Alguns bancos centrais das principais economias expressaram claramente a necessidade de cautela frente à maior persistência da inflação, tornando as condições financeiras mais desafiadoras para economias emergentes”, destacou o comunicado.

O Copom reconheceu que os últimos indicadores sobre a atividade vieram mais uma vez “moderadamente” abaixo do previsto e repetiu que a inflação ao consumidor continua elevada. “A alta dos preços foi acima da esperada, tanto nos componentes mais voláteis como também nos itens associados à inflação subjacente”, completou o BC.

Já o balanço de riscos da autoridade monetária não mostrou alteração, com fatores em ambas as direções. De um lado, uma possível reversão mesmo parcial nos preços das commodities poderia levar a uma inflação menor. Por outro lado, novas extensões de medidas de resposta à pandemia que afetem o fiscal podem elevar os prêmios de risco do País.

“Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevam o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mantendo a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico”, repetiu o documento.

Veja o comunicado do Copom na íntegra:

Em sua 243ª reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 9,25% a.a.

A atualização do cenário básico do Copom pode ser descrita com as seguintes observações:

No cenário externo, o ambiente se tornou menos favorável. Alguns bancos centrais das principais economias expressaram claramente a necessidade de cautela frente à maior persistência da inflação, tornando as condições financeiras mais desafiadoras para economias emergentes. Além disso, a possibilidade de nova onda da Covid-19 durante o inverno e o aparecimento da variante Ômicron adicionam incerteza quanto ao ritmo de recuperação nas economias centrais;

Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores divulgados desde a última reunião mostram novamente uma evolução moderadamente abaixo da esperada;

A inflação ao consumidor continua elevada. A alta dos preços foi acima da esperada, tanto nos componentes mais voláteis como também nos itens associados à inflação subjacente;

]As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação;
As expectativas de inflação para 2021, 2022 e 2023 apuradas pela pesquisa Focus encontram-se em torno de 10,2%, 5,0% e 3,5%, respectivamente; e

No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de USD/BRL 5,65*, e evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC), as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 10,2% para 2021, 4,7% para 2022 e 3,2% para 2023. Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva para 9,25% a.a. neste ano e para 11,75% a.a. durante 2022, terminando o ano em 11,25%, e reduz-se para 8,00% a.a. em 2023. Nesse cenário, as projeções para a inflação de preços administrados são de 16,7% para 2021, 3,8% para 2022 e 5,2% para 2023. Adotam-se bandeira tarifária “escassez hídrica” em dezembro de 2021 e a hipótese de bandeira tarifária “vermelha patamar 2” em dezembro de 2022 e dezembro de 2023.

O Comitê ressalta que, em seu cenário básico para a inflação, permanecem fatores de risco em ambas as direções.

Por um lado, uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento nos preços das commodities internacionais em moeda local produziria trajetória de inflação abaixo do cenário básico.

Por outro lado, novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país.

Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevam o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mantendo a assimetria altista no balanço de riscos. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico.

Considerando o cenário básico, o balanço de riscos e o amplo conjunto de informações disponíveis, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa básica de juros em 1,50 ponto percentual, para 9,25% a.a. O Comitê entende que essa decisão reflete seu cenário básico e um balanço de riscos de variância maior do que a usual para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para as metas ao longo do horizonte relevante, que inclui os anos-calendário de 2022 e 2023. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas.

Para a próxima reunião, o Comitê antevê outro ajuste da mesma magnitude. O Copom enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar a convergência da inflação para suas metas, e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Roberto Oliveira Campos Neto (presidente), Bruno Serra Fernandes, Carolina de Assis Barros, Fabio Kanczuk, Fernanda Magalhães Rumenos Guardado, João Manoel Pinho de Mello, Maurício Costa de Moura, Otávio Ribeiro Damaso e Paulo Sérgio Neves de Souza.

*Valor obtido pelo procedimento usual de arredondar a cotação média da taxa de câmbio USD/BRL observada nos cinco dias úteis encerrados no último dia da semana anterior à da reunião do Copom.

O atual ciclo de alta da Selic começou em março deste ano, quando a taxa subiu de 2% para 2,75% ao ano. A Selic chegou assim ao nível mais alto desde outubro de 2017, quando estava em 8,25% ao ano.

Esse foi o maior aperto monetário em quase 20 anos. A penúltima vez em que o Copom tinha elevado a Selic em mais de 1 ponto percentual tinha sido em dezembro de 2002. Na ocasião, a taxa tinha passado de 22% para 25% ao ano, com alta de 3 pontos. É, portanto, o maior nível dos juros básicos da economia do governo Bolsonaro. Quando o presidente chegou ao poder, a taxa Selic estava em 6,50%.

Com a decisão de dezembro, o choque de juros este ano chega a 7,25 pontos porcentuais, o maior em quase 20 anos – desde o ciclo entre o fim de 2022 e o início de 2003. E a Selic alcançou o maior patamar desde setembro de 2017, quando estava em um ciclo de afrouxamento após alcançar 14,25% em meio à crise de 2015 e 2016.

Repercussão do aumento da Selic: incertezas

João Beck, economista e sócio da BRA, comenta: “O Banco Central menciona Ômicron dentro do comunicado como uma incerteza para o cenário prospectivo. O comunicado reconhece algumas melhoras no cenário como o preço das commodities e das contas públicas. Mas deixa de mencionar os preços de energia que também podem contribuir positivamente conforme o risco hídrico vai se dissipando.”

Beck pondera: “Da mesma forma que o Copom ignorou ruídos de curto prazo quando a inflação subia, não será dessa vez que, mesmo com dados mais positivos, o Banco Central ainda entenda como incipiente e prefere mais tempo de observação antes que tome novas decisões. Estamos entrando em um ano eleitoral que pode resultar num debate detrator para as condições econômicas assim como a presença da variante Ômicron – mencionado pelo próprio comunicado – que não contribui para clarear a trajetória da inflação.”

Martin Iglesias, especialista líder em investimentos e alocação de ativos do Itaú Unibanco (ITUB4), falou sobre o impacto da Selic nos investimentos: “A alta de 1,5 pp, com a Selic atingindo 9,25%, era algo esperado pelo mercado e traz um aspecto interessante: passamos a ter oportunidades atrativas para todos os perfis de risco. Títulos indexados à inflacão e bolsa já apresentavam potenciais importantes para quem aceita riscos maiores e, agora, os investimentos mais conservadores indexados ao DI também projetam rentabilidades reais interessantes.”

Jansen Costa, sócio-fundador da Fatorial Investimentos, analisa: “Se a gente olhar para o cenário dos últimos 12 meses, a inflação ganhou de qualquer taxa atrelada ao CDI. Ou seja, quem tinha dinheiro na renda fixa atrelado à inflação não perdeu dinheiro. Se o investidor optar por um CDI que pague 100%, já está ganhando, com a elevação da Selic, os 9,25%. Dessa forma, se ele for conservador e buscar pós-fixado atrelado ao CDI, já estará ganhando em uma taxa próxima de 10 dígitos.”

Com o aumento de juros, é importante também casar o prazo do investimento com o produto, além de fazer aplicações em que consiga esperar até o vencimento, diz Costa. “Se conseguir esperar, sempre vai ter melhor ganho, principalmente nos investimentos com prazos mais longos.”

O analista ressalva: “O risco do prefixado hoje é acontecer um aumento muito rápido da curva de juros do que era esperado. Quando isso acontece, o cliente que aplicou antes fica com a sensação de que perdeu dinheiro. A gente está em um ciclo de alta de juros e, se o investidor tem medo de que os juros possam disparar, é preciso ajustar não a taxa, mas sim o prazo.”

Ele dá uma alternativa: “Para quem quer evitar esse risco é aplicar em investimentos de prazo curto de até 1 ano, por exemplo. Uma opção são LCIs ou LCAs, que são isentos de imposto. Para quem quer investir num prazo mais longo, investimentos atrelados ao IPCA+ são ótimos, caso se possa esperar o vencimento. No próximo ano, a expectativa para a inflação está acima da meta.

ASA: BC deixou claro que não vai brincar em serviço

O comunicado do Copom desta quarta-feira mostra que os diretores que compõem o colegiado do Banco Central (BC) não vão brincar em serviço no objetivo de ancorar as expectativas de inflação no centro da meta.

A avaliação é de Gustavo Ribeiro, economista-chefe da ASA Investments, que concorda com a visão de colegas de que a mensagem do colegiado veio em tom mais duro – hawkish no jargão do mercado – do que o esperado ao mostrar, entre outras coisas, um incômodo grande com a desancoragem das expectativas.

Na interpretação dele, é como se o BC quisesse mandar um “pode esquecer” a quem acredita que a desaceleração da economia fará a Selic subir menos ou cair antes. “O BC mostra que a desinflação da economia não vai ser suficiente para cortar juros. Ele quer que as expectativas de longo prazo também convirjam para a meta. Deixou claro que não vai brincar em serviço”, avalia Ribeiro.

O resultado prático da estratégia, acredita o economista, é que o BC pode prolongar o ciclo de alta dos juros ou, após levar a Selic a seu objetivo, manter a taxa elevada por mais tempo, mesmo após o início do processo de desinflação.

O economista-chefe da ASA Investments diz que a previsão da casa continua em Selic chegando a 12% até março, mas existe a possibilidade de o prognóstico ser revisto para cima.

Kilima: BC dá ideia de que pode manter juro no nível terminal por período mais longo

O comunicado divulgado hoje mostra que o Banco Central está vigilante em relação à inflação, apesar dos número recentes que apontam para uma atividade desaquecida no próximo ano. A opinião é do economista-chefe da Kilima Asset, Luciano Costa. Para ele, o BC dá a entender, com tom mais duro que o esperado, que, uma vez atingido o patamar terminal, a Selic deve seguir nesse nível por um tempo mais longo. Tanto que, para Costa, a taxa deve chegar aos 11,75% no fim do ciclo de alta e não deve haver uma redução de Selic em 2022.

“Quando o BC fala em ‘perseverar’, dá ideia de que, ao atingir o nível de 11,75% (da Selic), o BC vai manter nesse patamar pelo período necessário não só pra convergir a inflação para a meta, mas também as expectativas. Cria uma lógica de chegar nesse nível e ficar parado num período um pouco mais longo”, aponta, em relação ao trecho do comunicado em que o Copom diz que vai perseverar até que as projeções de inflação voltem a estar ancoradas nas metas para os próximos anos.

Ele também acredita que uma convergência da inflação para a meta só deve ocorrer em 2023. Nesse cenário, Costa avalia que o BC deve seguir uma tendência de, ao virar o ano, na primeira reunião de 2022, começar a dar peso para o ano seguinte, 2023.

Após um tom mais duro que o esperado pelo mercado hoje, Costa avalia que o mercado vai ter que “reorganizar os passos” amanhã. “O mercado estava precificando eventual mudança de ritmo a partir de fevereiro. Deve colocar um prêmio em torno desse ponto terminal”, disse, afirmando que deve ocorrer uma abertura da curva de juros curtos e intermediários na renda fixa amanhã.

Renascença vê comunicado ‘lacônico’ e espera por detalhes da ata sobre plano do BC

O comunicado da decisão do Copom foi considerado “lacônico” pelo Departamento Econômico da Renascença DTVM. “Julgamos que será relevante o acompanhamento da ata da reunião, a ser divulgada na próxima terça-feira”, avaliam os profissionais, em relatório. O Copom elevou a Selic em 1,5 ponto porcentual, para 9,25% ao ano, e indicou que deve repetir a alta no próximo encontro, em fevereiro.

“O Comunicado trouxe poucas mudanças relevantes em relação aos próximos passos de política monetária”, afirma a equipe da Renascença, destacando o parágrafo que diz que o Copom “irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”. Para a corretora, ao adotar a expressão “em torno de”, os diretores indicam que não buscarão a ‘ferro e fogo’ o centro da meta de inflação, “o que demandaria aumento da Selic muito mais agressivo do que o esperado até o momento”.

Na visão da Renascença, o Copom optou pelo laconismo quando avalia a atividade. No comunicado, o BC afirmou que “indicadores divulgados desde a última reunião mostram novamente uma evolução moderadamente abaixo da esperada”. “No nosso entendimento, a brevidade na análise do quadro para a atividade econômica doméstica é uma ‘carta na manga’ do Copom para os próximos passos de ajuste das condições monetárias”, comentaram.

Sobre o cenário internacional, a Renascença avalia que os efeitos são dúbios para a inflação brasileira caso uma nova onda de Covid-19 mais relevante impacte as economias globais. Se de um lado, no curtíssimo prazo, a piora do quadro pandêmico pode desacelerar ainda mais a atividade econômica, de outro, há possibilidade de novas disrupções nas cadeias produtivas e, assim, o quadro fica “extremamente mais nebuloso e complexo”.

Entidades da indústria discordam do BC

A Federação das Indústrias do Rio (Firjan) afirmou que o aumento da taxa Selic em 1,5% já era esperado, tendo em vista a elevação no nível dos preços de forma disseminada e, sobretudo, a deterioração do quadro fiscal. Por outro lado, os dados mais recentes revelam queda da atividade econômica. Além disso, as perspectivas para 2022 já são de crescimento fraco.

Em nota, a Firjan avalia “que o cenário econômico que se projeta, de maior expansão do gasto público, requer a aprovação de reformas estruturais que sejam capazes de trazer sustentabilidade para as contas públicas. Apenas com responsabilidade fiscal será possível gerar crescimento econômico de maneira sólida, resgatando a confiança dos empresários e atraindo novos investimentos. Sem isso, voltaremos a conviver com um cenário de inflação e juros altos, com baixo crescimento econômico”.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considerou equivocada a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, por um novo aumento da taxa básica de juros a economia em 1,5 ponto percentual. De acordo com o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, os últimos dois trimestres de retração do Produto Interno Bruto (PIB) deixaram evidente o quadro adverso da atividade econômica. Além disso, efeitos defasados do aumento da Selic devem contribuir, nos próximos meses, para desestimular ainda mais o consumo e, por consequência, desacelerar a inflação.

“Dessa forma, um aumento menos intenso da Selic, em conjunto com as elevações anteriores, já seria mais que suficiente para levar a inflação até a meta, sem que o Banco Central aumentasse a probabilidade de recessão”, avaliou Andrade.

Em nota, a CNI argumenta sobre a razão deste cenário. “As restrições nas condições de crédito para consumidores e empresas poderiam ter seu ritmo reduzido. A decisão do Banco Central por um sétimo aumento expressivo da Selic vai de encontro a essa necessidade, aumentando o custo do financiamento e desestimulando a demanda, justamente em um momento em que muitas empresas ainda estão se recuperando”.

Efeitos na economia

O aumento do juro básico da economia reflete em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (entre seis meses e nove meses). A elevação da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos.

Com a inflação em dois dígitos, a aprovação da PEC dos Precatórios na Câmara e no Senado (que abre espaço no Orçamento para o novo Auxílio Brasil ao driblar o teto de gastos), e a economia em recessão técnica, a decisão de hoje era amplamente esperada pelo mercado financeiro.

Todas as 51 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast esperavam o aumento de 1,50 ponto do juro básico, para 9,25%. A avaliação fiscal é que, embora as manobras patrocinadas pelo governo no teto de gastos (que impede que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) sejam negativas, a aprovação da PEC ao menos circunscreve o tamanho do estrago em 2022. Com todas as mudanças da PEC, um espaço de R$ 106,1 bilhões para gastos adicionais é aberto em 2022, ano eleitoral.

Selic e juro real

Com o último movimento de aperto monetário, o Brasil continuou a ter uma das maiores taxas de juros real (descontada a inflação) do mundo, mas perdeu o pódio para a Turquia (+5,83%), considerando as 40 economias mais relevantes.

Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está agora em +5,03% ao ano. Na terceira posição, aparece a Rússia (+4,23%). A média dos 40 países considerados é de -1,13%.

O aumento desta quarta-feira foi o sétimo consecutivo da Selic. Em outubro, os dirigentes do BC subiram a Selic em 1.5 pp. Em setembro e em agosto a alta foi de 1 p.p e, nas três decisões anteriores, a taxa avançou 0,75 ponto porcentual. No início de agosto, o BC passou a aumentar a Selic em 1 ponto a cada reunião. Na última reunião, em outubro, o reajuste chegou a 1,25 ponto percentual.

Com informações do Estadão Conteúdo e Agência Brasil

Marco Antônio Lopes

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