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Raízen: no IPO de combustíveis, quem dá o tom é o carbono

Raízen: no IPO de combustíveis, quem dá o tom é o carbono
Raízen - Foto: Divulgação

O IPO (oferta pública de ações, em inglês) da Raízen, joint venture entre a Cosan (CSAN3) e Shell, deverá ser maior da história da bolsa brasileira em volume financeiro. Mas, para além de os agentes do mercado analisarem uma empresa de distribuição de combustíveis, o grande embate para justificar esse tamanho de captação é se a Raízen é realmente apenas uma distribuidora ou poderá se tornar, em um futuro breve, uma companhia de combustíveis sustentáveis e suas vertentes.

Analistas ouvidos pelo SUNO Notícias apontam que a produção de cana-de-açúcar da Raízen deve fazer com que ela ganhe valor e importância em um mundo que deve reduzir drasticamente a emissão de carbono na atmosfera e, por isso, empresas deverão comprar e vender cotas dessas emissões, além, é claro, de liderar uma mudança por combustíveis não-fosseis.

“Na verdade [o negócio da Raízen] é uma floresta de pés de cana. Com a atual onda de sustentabilidade, a empresa poderá vender créditos de carbono, sim”, disse um analista que estuda o case.

Para se ter uma ideia do potencial do possível negócio, até o ano passado, o índice IHS Markit Global Carbon, que mede os principais contratos futuros de carbono, era de um mercado de cerca de US$ 260 bilhões.

Esse crédito de carbono é uma autorização para que uma empresa emita gases de efeito estufa até determinado limite, sendo passível de negociação com quem pouco produz ou na outra ponta, de empresas que auxiliam na redução.

Mercado de crédito de carbono em crescimento

E o mercado deve continuar em alta. O Acordo de Paris prevê, por exemplo que o Brasil, até 2025, reduza em 37% a emissão líquida de gases de efeito estufa. Já até 2030, a meta é a redução em 43% das emissões líquidas e a neutralidade das emissões líquidas até o ano de 2060, aumentando a necessidade de empresas e governo em negociar suas cotas de permissão de poluição.

Assim, como o etanol é menos poluente do que outros combustíveis oriundos do petróleo, como a gasolina e o diesel, a Raízen poderia se posicionar como uma exportadora de sustentabilidade, seja vendendo créditos ou mesmo fomentando o uso de fontes renováveis, como o álcool.

A companhia controla atualmente 15% da produção nacional de cana-de-açúcar, após a compra da Biosev. Esse percentual faz a Raízen ser a maior produtora desse tipo de commodity para a energia limpa do mundo.

“É isso que a torna diferente de uma empresa apenas de distribuição, como a BR (BRDT3), por exemplo. Eu acho que, no médio prazo, ela conseguirá se tornar uma companhia que irá ofertar muito mais coisa do que as concorrentes”, afirmou outro gestor da Faria Lima.

Segundo o “Valor”, a Raízen apresenta aos investidores o cronograma com planos de evolução até 2031, quando deve passar a focar mais no fornecimento da segunda geração do etanol, feita de biomassa -que gera créditos de carbono.

Por essas mudanças, o dinheiro captado na oferta de ações, segundo a empresa, será destinado a:

  • construção de novas plantas para expandir a produção de produtos renováveis e capacidade de comercialização;
  • investimentos em eficiência e produtividade nos parques de bioenergia da empresa;
  • investimentos em infraestrutura de armazenagem e logística para suportar o crescimento de volume comercializado de renováveis e açúcar.

Futuro da Raízen no centro dos debates sobre IPO

É exatamente sobre o que a empresa poder ser no futuro que entra a discussão de quanto realmente vale o IPO da Raízen, que deve sair no fim de julho.

Com a oferta, os bancos miram um valor de mercado da Raízen de cerca de R$ 90 bilhões, já posicionando a empresa entre uma das empresas mais valiosas da B3.

Para captar os R$ 10 bilhões previstos, porém, é necessário convencer os agentes do mercado que esse business do futuro será possível.

“O que eles pensam em captar é um montante bem gordo pelo tamanho da participação ofertada ao mercado. Para valer isso, vai ter que se provar uma companhia realmente de vanguarda”, afirmou um gestor.

A tarefa, no entanto, não é das mais fáceis. “No nosso caso, a gente entende que as opções de investimento que temos em nosso portfólio são mais adequadas e tem melhor relação risco retorno do que a Raízen”, disse Rodrigo Glatt, da GTI.

Outro gestor ouvido pelo SUNO Notícias afirma que o mundo voltado ao ESG ainda não se comprovou real, apesar de admitir a tendência.

“Tudo hoje é verde, mas se o verde não gerar dinheiro, vai acabar logo, logo”, definiu.

Os próximos dias, portanto, devem ser de muita discussão nas gestoras da Faria Lima e Leblon. O mercado, contudo, só deve saber se a Raízen conseguiu convencer os donos do dinheiro após o IPO.

Vinicius Pereira

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