KPTL e Jay Janér apostam em fundos quantitativos de criptomoedas

KPTL e Jay Janér apostam em fundos quantitativos de criptomoedas
KPTL e Jay Janér apostam em fundos quant de criptomoedas

Se investidores do mundo todo andavam meio descrentes em relação às criptomoedas, a alta em meio à pandemia do coronavírus (covid-19) fez com que as atenções se voltassem novamente às moedas digitais. A grande volatilidade dessa classe de ativos, porém, chamou a atenção e gerou a oportunidade da KPTL se unir ao gestor Jay Janér para lançar um fundo que explorasse o sobe e desce desse mercado -acostumado a variações da casa dos dois dígitos em apenas um dia.

Apenas a entrada de Janér a esse mercado demonstra uma certa mudança no perfil dos investidores. Em meio à chegada de players institucionais, o gestor que chefiou a tesouraria do fundo de Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, e trabalhou com William Sharpe, vencedor do Prêmio Nobel, optou por conhecer mais de perto esse universo.

Em contato com o filho, Janér conheceu as criptomoedas há cerca de quatro anos. Logo, passou a operar moedas digitais e seus derivativos para fazer uma estratégia de arbitragem, onde o lucro ocorre frente à diferença entre os preços da cota à mercado e o preço de emissão.

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“[Meu filho] disse que multiplicou o dinheiro por cinco vezes em 2017”, disse. “Aí em 2018 foi um crash, foi terrível, e claro que ele perdeu uma boa parte daquilo que ele tinha feito. Mas eu comecei a fazer minha grana. Para fazer arbitragem direito, precisaria programar. Assim, eu contratei uma pessoa privadamente, e isso cresceu entre 2018 e 2019 até que em 2020 eu passei a me focar só nisso”, afirmou Janér.

Ao se unir com a KPTL, conhecida gestora do mundo de venture capital, Janér viu a oportunidade de lançar um fundo de criptomoedas disponível a investidores do mundo todo. A opção, porém, é por operar um fundo quantitativo. Esse tipo de fundo utiliza a tecnologia para obter ganhos. Em geral, eles possuem um sistema de Inteligência Artificial (IA) e atuam fazendo arbitragem, na qual procuram identificar as assimetrias de preços no mercado.

“Eu não teria o estômago de aguentar uma queda de 80%, e é por isso que eu montei um fundo que não importa se cai ou sobe. A tese dele é que o mundo de derivativos de criptomoedas se multiplicou de forma muito rápida, aumentando exponencialmente, e como o cripto é muito volátil, imagina quão volátil são os derivativos. Isso abre muitas oportunidades para um fundo de arbitragem”, disse o gestor do fundo Bohr.

Agora, a KPTL estruturou dois fundos sediados no Brasil para que os investidores possam investir em reais, mas os recursos serão enviados para os dois fundos no exterior. O ticket médio para o investimento no fundo é de US$ 100 mil e o produto é destinado, por enquanto, a investidores qualificados.

Confira a entrevista do SUNO Notícias com Jay Janér, head da KPTL:

KPTL e Jay Janér apostam, agora, em fundos quant de criptomoedas
Jay Janér, head da KPTL

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-Como é a relação da KPTL com as criptomoedas. Vocês acreditam no valor intrínseco das cripto?
Eu, pessoalmente, acho que as criptomoedas vieram para ficar, especialmente as moedas mais novas, que têm propósitos bem mais específicos. Então o futuro está nesse mundo de blockchain e os cripto mais úteis, que têm por trás usos mais interessantes.

O próprio Bitcoin tem um valor como ouro digital, um suprimento limitado, e os jovens e pessoas mais modernas acreditam em tudo isso. Eu acho que tem que acreditar que tem muito valor, especialmente nas moedas mais novas que por trás tem projetos muito interessantes.

Agora, meu pensamento é diferente da maioria. Eu sou um cara de background de derivativos, eu sempre montei e chefiei áreas de derivativos de bancos e hedge funds. Por isso, o meu background é mais neutro e é natural que eu tenha ido para a área de arbitragem de criptomoedas.

-E como isso ajudou no início de um fundo quantitativo em criptomoedas?
Nós montamos esse fundo de quantitativo justamente para arbitrar esse mercado que está explodindo.

O universo de criptomoedas é muito volátil e essa é uma das razões pelas quais eu não entro no mundo cripto direcional. Se você quiser entrar como pessoa física eu acho que você tem que fazer isso com pouco dinheiro pois é muito arriscado.

Agora, porém, ultimamente tem entrado outros tipos de investidores, mais institucionais, então eu acho que agora pode ser que esse mercado esteja ficando mais interessante.

De qualquer forma, eu não teria o estômago de aguentar uma queda de 80%, e é por isso que eu montei um fundo que não importa se cai ou sobe. A tese dele é que o mundo de derivativos de criptomoedas se multiplicou de forma muito rápida, aumentando exponencialmente, e como o cripto é muito volátil, imagina quão volátil são os derivativos. Isso abre muitas oportunidades para um fundo de arbitragem.

Quantas oportunidades de arbitragem tem nisso? Obviamente, isso tem que ser bem feito. Operamos de 3 a 4 mil vezes por dia, estamos falando de mais de 100 moedas. Os derivativos têm mais volume do que moedas.

-No Brasil, até mesmo o mercado de derivativos de ações não é tão grande, mas os derivativos de cripto são suficientes para operar de maneira quant?
O mercado de derivativos no exterior é gigante. Os futuros, opções, nas bolsas americanas e europeias são gigantescos, comparáveis acima de um volume do próprio ativo do derivativo.

E a mesma coisa ocorre com criptomoedas. Tem derivativos e futuros para 110 moedas. Então ainda tem muito leque, muita oportunidade para crescer em número, volume e tipo de derivativo.

O Bohr não opera opções. Há vários tipos de futuros e isso já gera boas oportunidades, mas é uma coisa muito técnica. Você tem que entender como fazer isso, porque o controle colateral é muito delicado, o controle das operações é delicado para não ter riscos e não ficar alavancado, não usamos isso.

-E como é a estrutura do fundo?
Temos um time que fica em São Paulo, formado por jovens, mas que são tecnicamente muito bem preparados. Eles, com a minha direção, usam o cloud da Amazon, com vários computadores para operar simultaneamente e muito rapidamente os mercados de derivativos contra a moeda. Então você vai arbitrando esse spread moeda por moeda para não ficar exposto em nenhuma moeda.

As moedas podem mexer 10% em um dia, é o comum, então você tem que ter um hedge, tem que ter uma contra a outra. E aí quando o spread, na diferença entre o futuro e a moeda, você sai e entra em outra, etc. Você usa o capital onde ele tem oportunidade de arbitragem para lucrar.

A gente tinha um outro fundo quant para mercado normais, mas não estávamos lucrando muito e decidi concentrar nosso esforço em criptomoedas.

A minha visão é que tem muitas oportunidades de arbitragem com derivativos de cripto e acho que isso vai continuar por muito tempo na frente porque os bancos e grandes fundos não podem entrar nesse mercado agora.

Nós somos os únicos brasileiros, mas tem poucos fundos de arbitragem de criptomoedas no mundo. Então, para nós, tem muitas oportunidades, mesmo com pouco capital.

-Quem é o público-alvo de vocês?
Até agora estrangeiros. Tenho tido um par de amigos meus, mas na maioria os estrangeiros olham com muito mais atenção [para esse mercado]. No mês passado, entrou o primeiro FOF (fundo de fundos) a investir na gente, então agora vai subir bastante.

Até o final do mês, vamos ter um ETP, uma nota estruturada listada na Bolsa de Viena, que compra o Bohr e essa nota vai estar em diversas casas, bancos, etc, que podem entrar.

-O retorno de vocês vai competir com fundos direcionais? Qual o Benchmark?
Não podemos esquecer que o retorno do meu fundo não é direcional. Se você olhar os fundos de cripto eles dispararam. Eu não vou chegar perto disso. Agora, se a cripto cair, você pode sofrer obviamente. O nosso fundo não deveria cair, mas entregar um retorno consistente.

A única comparação que a gente não bate é cripto. Qualquer outra linha de comparação que você queira botar, nós batemos. Mas não bate cripto na vida porque começamos há pouco.

Quando teve quedas de criptomoedas, nós fizemos dinheiro. Mas isso nos últimos 10 meses foram 2 meses, o que não dá para comparar muito. Quando tiver um bear market, aí o nosso vai fazer dinheiro e ficar mais marcante a diferença.

E, dentro do próprio fundo, há várias estratégias. Tem muitos jeitos de arbitrar, muitas manhas. Você tem instrumentos diferentes para cada moeda, derivativos diferentes, nem falando de opções ainda, então você tem esses vários tipos de futuros, cada um opera um spread diferente entre eles e para a moeda, então você tem que calcular esse spread ideal, como cada um estaria precificado, entrar em um e sair no outro.

Cada jeito de operar a sensibilidade de fazer isso gera uma nova estratégia. Temos várias que competem uma contra a outra e quem está ganhando começa a ter mais capital, já que você aloca em quem vai melhor.

-Com tantos anos de mercado tradicional, como você foi conhecer e apostar nas criptomoedas?
Veio do meu filho. Ele disse que multiplicou o dinheiro por cinco vezes em 2017. Dos cerca de US$ 2 mil dólares, já estavam em US$ 10 mil ao fim do ano.

Eu visitei ele e disse que era arriscado, eu estava com ideia de uma pessoa mais velha, sem dar valor às criptomoedas. Eu falei pra ele investir de forma direcional, e eu começaria a fazer as minhas coisas pessoais de arbitragem.

Aí em 2018 foi um crash, foi terrível, e claro que ele perdeu uma boa parte daquilo que ele tinha feito.

Mas eu comecei a fazer minha grana. Mas, para fazer arbitragem direito, precisaria programar. Assim, eu contratei uma pessoa privadamente, e isso cresceu entre 2018 e 2019 até que em 2020 eu passei a me focar só nisso.

Pensei: “já que está indo bem para meu dinheiro, vamos montar um fundo”. A KPTL virou minha sócia e começamos a montar fundos e captar. Então, vamos institucionalizar já que meus resultados são bons.

Quando você começa a mergulhar e ler sobre, comecei a entender que algumas pessoas viraram bilionários do nada, e comecei a entender que era um mundo rebelde, mas não do tipo sem sentido, era um rebelde nerd.

Esse rebelde é o tipo de cara que quer reinventar o mundo e ele acha que no blockchain é o futuro. Filosoficamente, eu comecei a achar que era interessante.

Não sabia se as criptomoedas que estão aí são as vencedoras. Mas eu achei inteligente aquilo que eu conseguia entender.

Agora, com tokens para pagamento e vender coisas no mercado, você terá de tudo digitalizado e você poderá pular e mostrar os produtos e serviços, vender coisas, usando o mundo descentralizado e as moedas para criar companhias e serviços super eficientes no futuro.

-Você não teme uma regulação estatal no futuro?
O BC está sim trabalhando em uma stablecoin para poder usar blockchain para pagamento entre brasileiros com o real digitalizado. Todos os bancos centrais do mundo estão com esse projeto.

Como as criptos fogem do BC, é assustador para eles. Você não controla mais nada do money suply do País, então isso realmente é preocupante para as autoridades.

Agora, por isso que assusta, com uma certa razão, e eles vão querer restringir, mas esse tipo de restrição não tem sido muito efetiva, não tem funcionado muito bem. A China proíbe, mas está cheio de chinês com criptomoedas. Acho que globalizou tanto na nuvem o cripto que saiu das fronteiras.

 

Vinicius Pereira

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