E agora, Copom? Projeção sobre o corte da Selic deixa economistas (bem) divididos

Considerado um dos eventos mais aguardados da agenda da semana no Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), começou hoje (7) e pode confirmar amanhã (8) mais um corte da taxa de juros, a Selic. Atualmente, ela está em 10,75% ao ano. No entanto, o tamanho da redução divide analistas de diversas casas.

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Na última reunião de março, o Copom anunciou o sexto corte seguido da taxa Selic. A taxa caiu para 10,75%, na segunda reunião do ano. A decisão era majoritariamente esperada pelo mercado e foi unânime.

Segundo Boletim Focus divulgado na última segunda-feira (6) pelo Banco Central, a estimativa para a taxa de juros está em 9,63% ao final deste ano.

De acordo com a pesquisa, para 2025, a estimativa do mercado é de que a taxa de juros consiga chegar ao patamar de 9,00%. Para 2026, a expectativa é de que o indicador fique em 8,75%.

Ainda conforme o Focus desta semana, o mercado espera que o IPCA, principal indicador de inflação, termine 2024 em 3,72%, acima da projeção da semana passada (3,73%) e das últimas quatro semanas (3,76%).

No mercado, é levemente majoritária a expectativa de que a cúpula do BC optará por uma redução menor da taxa, de 0,25 ponto porcentual, depois de um ciclo de seis cortes consecutivos de 0,50 pp, iniciado em agosto do ano passado. Conforme a pesquisa do Projeções Broadcast, a diminuição do ritmo é a aposta de 25 das 45 casas consultadas (55%). Duas semanas antes, a avaliação preponderante era de novo corte de meio ponto na taxa básica de juros – 20 instituições permanecem nesta posição.

A Warren Rena considera a terceira reunião de 2024 como uma das mais difíceis dos últimos anos, com bons argumentos tanto para um corte de 50 pontos-base quanto de 25 pontos-base.

Apesar de a precificação do mercado de juros ser amplamente majoritária para uma desaceleração do ritmo, a casa avaliou que as probabilidades são equivalentes e optou por seguir com o call de redução de 50 pontos-base.

“Caso esta seja a decisão adotada, o ideal seria sinalizar uma desaceleração para 25 bps na reunião de junho, sob o argumento de que, à medida que se chega ao estágio final do ciclo de queda de juros, requer-se maior cautela e parcimônia na condução da política monetária”, aponta Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe da casa.

Segundo Goldenstein, no caso de uma decisão agora por um corte de 25 pontos-base, possivelmente isso decorreria de uma avaliação majoritária do Comitê de que não houve redução relevante das incertezas na economia do país, com uma maior preocupação com a desancoragem das expectativas de inflação para 2025 (que subiu de 3,52% para 3,64%) e/ou um maior desconforto com os riscos fiscais. Por fim, a Warren alterou sua projeção de Selic terminal de 9,0% para 9,75%.

“Apesar de seguirmos otimistas com a trajetória do real (em função da robustez das contas externas), a taxa de câmbio no restante de 2024 deverá ficar acima do que projetávamos anteriormente. Além disso, o aumento do desvio das expectativas de inflação para 2025, na direção contrária ao objetivo de reancoragem, deve se refletir numa taxa terminal mais alta de forma a reforçar o processo de convergência da inflação”, completa o economista.

Reunião anterior retirou sinalização de novos cortes do mesmo tamanho no plural

Na reunião anterior, em março, os membros do Copom reduziram o período do forward guidance, retirando a sinalização de novos cortes do mesmo tamanho no plural. Com a mudança, o colegiado passou a mirar apenas o encontro atual, com o BC indicando um corte da mesma magnitude. Ao justificar a mudança, o colegiado alegou o aumento das incertezas domésticas e, principalmente, do exterior. Desde então, o quadro vem se mostrando ainda mais extremo e o presidente do BC, Roberto Campos Neto, passou a adotar um discurso avaliado como mais hawkish em suas participações públicas.

Mais recentemente, houve a percepção de que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos), pode demorar mais tempo do que o esperado para reduzir suas taxas. Além disso, há uma preocupação ainda com a área fiscal doméstica, a resiliência do mercado de trabalho e as incertezas sobre a possibilidade de contágio para a inflação, em especial, a de serviços. Para completar, a tragédia com as enchentes no Rio Grande do Sul adiciona mais incertezas em relação à atividade e à perseguição da meta fiscal, a depender do modelo escolhido pelo governo federal para socorrer o Estado.

Houve alterações nas estimativas do mercado financeiro também colhidas pelo Projeções Broadcast para as próximas reuniões do Copom, elevando a mediana de junho de 10,00% para 10,25% ao ano e a de julho, de 9,75% para 10,00%. Algumas casas passaram a prever, inclusive, que a Selic terminará o atual ciclo em 10,25% ao ano – na ponta mais otimista, uma casa projeta uma taxa de 8,00% aa.

Ao comentar sobre a diminuição de prazo do forward guidance, em entrevista exclusiva ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Picchetti, disse que poderia ser uma ferramenta para o colegiado “ir mais devagar para chegar mais longe”. Os membros da cúpula da autoridade monetária têm evitado falar sobre números ligados ao juro terminal para não criar ruídos na comunicação do BC.

De acordo com o Bank of America, o Copom deve, nesta quarta (8), cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 10,50%, por unanimidade, avaliando que o cenário internacional incerto exige um ritmo mais lento de cortes. Para a casa, com o atraso do ciclo de flexibilização dos EUA, a taxa de câmbio depreciou-se e os conflitos geopolíticos não parecem arrefecer.

“O horizonte da política monetária deverá recuar para 2024 e concentrar-se apenas nas previsões para 2025. Por fim, a política monetária continua contracionista e bastante longe dos 4,5% que o Banco Central entende como neutros”, afirmam os analistas David Beker e Natacha Perez.

Incertezas domésticas e externas devem impactar balanço de riscos do BC, diz Gustavo Sung, da Suno

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, acredita em um corte de 50 pontos-base (0,50 p.p.) na taxa Selic, reduzindo-a para 10,25% ano contra ano. “Entretanto, a perspectiva é de que a autoridade monetária deixe o cenário aberto a fim de compreender a evolução e os impactos dos últimos eventos sobre a nossa economia”, destaca.

Em relação à reunião de março, Sung acredita que as incertezas domésticas e externas aumentaram e devem impactar negativamente o balanço de riscos do BC. No âmbito internacional, as dúvidas ainda estão sobre a política monetária norte-americana. No país, as mudanças das metas fiscais pelo governo e a desancoragem das expectativas de inflação são pontos de atenção.

“Para 2024, mantemos a Selic terminal em 9,50% a.a. Para 2025, projetamos juro terminal de 9,00% a.a”, completa o economista.

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Confira as projeções de outras casas para a Selic

O economista-chefe da Brasilprev, Robson Pereira, espera que o Copom faça uma redução de 25 pontos-base na Selic, para 10,50%, com uma grande probabilidade de um placar dividido.

Segundo Pereira, um argumento a favor de uma queda de 50 pontos-base está relacionado à comunicação prévia. Contudo, diz ele, a sinalização feita em março estava condicionada à evolução do cenário, que se alterou de forma relevante ao longo de abril, aumentando as incertezas.

“A comunicação do BC nas últimas semanas reforça essa visão de que poderemos ter um movimento na Selic inferior ao apontado na reunião passada. A barra está mais alta para uma queda de 50. Ao mesmo tempo, os dados mais recentes mostram aumento da desancoragem das expectativas e um mercado de trabalho que continua melhorando, o que gera desafios para a desinflação de serviços”, escreve.

“No âmbito internacional, estamos próximos ao início de queda de juros na Europa, mas diante da postergação do início de cortes nos EUA, o que pode impor alguns limites para políticas monetárias de outras regiões”, acrescenta.

A Brasilprev não descarta o fato de que a volatilidade dos mercados aumente a cada divulgação de dado nos EUA e a cada discurso de um membro do FOMC, o comitê de política econômica do Federal Reserve, até que se tenha uma maior clareza sobre o timing de queda de juros por parte do Fed, o banco central americano). “Mas essa clareza deverá ocorrer, a nosso ver, somente mais próximo do fato”, completa.

A casa trabalha com Selic de 9,5% ao final deste ano e com queda de juros nos EUA a partir de setembro.

Já para Ana Paula Carvalho, planejadora financeira e sócia da AVG Capital, a expectativa é de que o Copom reduza o ritmo de corte e a taxa de juros caia 25 pontos-base, para 10,50% a/a, o que é esperado também pela maior parte do mercado.

Segundo ela, a expectativa por um corte menor veio após o comunicado da ata da última reunião em março, na qual “alguns membros do comitê argumentaram que, se a incerteza prospectiva permanecer elevada, um ritmo mais lento de distensão monetária poderia revelar-se apropriado”.

“Esse ritmo menor de queda veio após as incertezas no cenário externo se deteriorarem, como as questões relacionadas às decisões de juros do Fed e geopolíticas em alguns países produtores de petróleo. Aqui no Brasil, os fortes dados de atividade econômica, em especial o mercado de trabalho e a composição da inflação, sugerem maior cautela da política monetária, além de um cenário fiscal bastante preocupante e a deterioração nas expectativas de inflação”, ressalta.

Na visão de Elcio Cardozo, especialista em mercado de capitais e sócio da Matriz Capital, após sucessivos cortes de 50 pontos-base na taxa Selic com certo consenso no mercado, esta será uma reunião do Copom que traz maiores dúvidas ao mercado sobre qual será o corte de juros.

“Particularmente, eu entendo haver espaço para o corte de 50 pontos-base, como ocorreu nas reuniões anteriores do Copom. Nossa inflação está bastante controlada, com seguidos dados divulgados abaixo do consenso e o atual patamar de juros reais ainda está muito alto, havendo caminho para maiores cortes na taxa de juros”, aponta.

Copom deve adotar postura mais cautelosa, diz XP

Para os economistas Caio Megale, Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, da XP (XPBR31), diante do aumento das incertezas no cenário econômico, o Copom deve adotar uma postura mais prudente, reduzindo o ritmo de flexibilização monetária para 0,25 ponto percentual.

“Em nossa visão, o fluxo de notícias desde a última reunião do Copom foi mais preocupante para as perspectivas de inflação, tendo em vista a taxa de câmbio mais depreciada, a elevação dos preços das commodities e indicadores do mercado de trabalho mais fortes que o esperado”, pontuam.

Em relação aos próximos passos do Copom, a XP não espera qualquer sinalização explícita para o ritmo de corte e/ou para a taxa Selic terminal. Isto posto, afirma o banco, o Comitê deve sinalizar que considera, por unanimidade, a necessidade de manter a política monetária restritiva, para trazer a inflação à trajetória da meta.

A XP prevê três cortes sequenciais de 0,25 ponto percentual e taxa Selic terminal em 10,00%. “Acreditamos que o Copom precisará atingir uma taxa Selic terminal mais elevada para compensar os efeitos da taxa de câmbio mais depreciada e atividade econômica mais forte”, acrescentam os economistas.

Santander Asset projeta Selic em 9,5% no fim de 2024; confira

Para a Santander Asset, após um discurso já mais conservador após sua reunião de março, o Banco Central, através de comunicações recentes, adotou um tom ainda mais cauteloso.

Isso levou o mercado de juros futuros a precificar uma elevada probabilidade de redução no ritmo de corte da taxa Selic para 0,25% já na reunião de maio (ao contrário do corte de 0,5% sinalizado anteriormente), além de uma nova rodada de revisões altistas nas projeções de Selic para o final do ano.

“Desde março houve um aumento da incerteza em torno da trajetória da taxa Selic nos próximos meses, refletindo a combinação de diferentes fatores. Primeiramente, a conjuntura global mostra-se mais complexa, com destaque para a postergação na expectativa de início do corte de juros por parte do Fed. Em paralelo, o cenário fiscal no Brasil prossegue desafiador”, ressalta o banco em sua carta mensal.

“Adicionalmente, a economia local está mais forte que o previsto, o que dificulta a tarefa de desinflacionar a economia, podendo inclusive afetar desfavoravelmente a inflação projetada. Por outro lado, a inflação corrente ainda caminha numa direção de desaceleração, ainda que gradual e não homogênea”, acrescenta.

Assim, considerando o impacto de todas essas variáveis, o Santander revisou para cima a sua projeção para a Selic no final do ano, de 9,0% para 9,5%.

Economistas da Anbima revisam projeção da Selic; veja

De acordo com o Grupo Consultivo Macroeconômico da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), a Selic deve encerrar o ano em 9,75%, ante uma projeção de 9,00% anteriormente.

Para os economistas, deve haver um corte de 0,25 pontos percentuais na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) nesta semana e nas próximas sucessivamente até setembro, com a taxa permanecendo nesse patamar até dezembro.

“Elevamos o ponto terminal da Selic principalmente porque as incertezas que já existiam sobre os juros americanos se intensificaram com o resultado dos indicadores. A resiliência da inflação e da atividade econômica nos EUA, sobretudo no mercado de trabalho, postergou a expectativa de início da redução da taxa de junho para o final do ano”, afirma Fernando Honorato, coordenador do Grupo Consultivo Macroeconômico da Anbima.

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Giovanni Porfírio Jacomino

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