Ricardo Propheta

O envelhecimento da população e as oportunidades de mercado

O envelhecimento da população, com uma consequente mudança da pirâmide etária brasileira, deverá provocar alterações significativas no mundo dos negócios

O envelhecimento da população, com uma consequente mudança da pirâmide etária brasileira (seguindo um padrão já bastante claro na maioria dos países desenvolvidos), deverá provocar alterações significativas no mundo dos negócios. Um movimento que, como em toda revolução, terá vencedores e perdedores. E, para aqueles que desejam se posicionar no grupo dos vencedores, o momento de olhar para o futuro e começar a se posicionar nos setores mais promissores é agora. Sim, como estamos falando de longo prazo, haverá inevitáveis ajustes de carteira, mas é importante começar a olhar para o tema.

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Se o site do IBGE (disponível aqui) mostra, para este ano de 2022, uma pirâmide etária — se me permitem o pleonasmo — praticamente “piramidal”, para 2060 (período máximo de projeção que o site da instituição permite), o formato chega a lembrar um retângulo, com menor proporção de nascimentos na base e, no extremo oposto, uma representatividade muito maior dos mais velhos no topo.

Por exemplo, os jovens de até 14 anos representam, hoje, 20,5% da população e os idosos (65 anos ou mais), 10,5%. Já em 2060, a proporção será de 14,7% dos jovens (até 14 anos) ante 25,5% dos idosos, que deverão representar, portanto, mais de um quarto dos brasileiros. Um mercado para o qual não dá para virar as costas.

Por mais difícil que seja fazer qualquer previsão de futuro, é evidente que as consequências do ponto de vista de estrutura de serviços oferecidos. Precisaremos, por exemplo, de menos vagas para alunos em ensinos fundamental e médio e de uma maior oferta de serviços ligados à saúde e ao bem-estar. Mas podemos ir além, pensando em mudanças nos paradigmas de consumo, por exemplo, de bens e até mesmo de conteúdo e entretenimento, mais focado nessa faixa etária.

Para as seguradoras a gestoras de planos de previdência, por exemplo, essa nova realidade implicará uma maior ocorrência de sinistros e em cálculos atuariais que tenham em perspectiva o pagamento de benefícios por mais tempo.

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Podemos imaginar um hipotético George Jetson brasileiro — o conhecido personagem futurista da série de animações criada por Hanna & Barbera — vivendo em 2060 como um senhor a ser atendido por serviços como cuidados médicos e academias adaptadas para o público de sua faixa etária — afinal, mesmo com todas as comodidades que certamente estarão disponíveis nesse futuro, nosso herói terá de se manter ativo. A expectativa de vida projetada para 2060 pelo IBGE, aliás, é de 77,9 anos para os homens e de 84,2 anos para as mulheres, respectivamente, 5,2 e 4,4 anos a mais do que hoje.

E aqui chegamos a uma outra questão que tem sérias implicações do ponto de vista mercadológico: viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. Atacar esse “gap” é um fator de geração de negócios. Os estudiosos do tema falam e “lifespan” (aumento da expectativa de vida) e em “healthspan” – período livre de doenças ou enfermidades de qualquer tipo. De novo, a diferença entre chegar vivo à idade avançada (primeiro termo) e envelhecer com saúde.

O conceito de “envelhecer com saúde”, vale esclarecer, envolve não apenas a óbvia questão da mobilidade, mas também aspectos ligados aos sentidos (visão, audição…) e à saúde cognitiva, por exemplo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua o termo “saúde” como um “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade.”

Um artigo publicado na conceituada revista Nature pelos pesquisadores Armin Garmany, Satsuki Yamada e Andre Terzic, da área de Medicina Regenerativa da clínica Mayo (EUA), indica que, para uma expectativa de vida de 73,2 anos, o gap entre lifespan e healthspan é de nove anos. Ou seja, quase uma década em que várias das funções podem estar comprometidas.

O mesmo artigo fala em um tripé no qual deve se basear a healthspan: políticas de saúde pública, pesquisa científica e medicina, em si. Nos três casos, podemos identificar oportunidades de negócios. As políticas de saúde pública irão direcionar a oferta de serviços e, mesmo, buscar serviços de esclarecimento à população no sentido de envelhecer melhor. Afinal, o risco, em termos de custos para a Previdência, de uma população idosa com enfermidades é evidente. No campo da ciência, podemos pensar, por exemplo, em clínicas de pesquisa genética em busca de novos e inovadores tratamentos. E, quando falamos da medicina, estamos, sobretudo, no campo dos serviços médicos especializados e, mesmo, das atividades acessórias e preventivas, como as academias e os serviços de orientação nutricional – temas que, aliás, dialogam com o primeiro pilar, o das políticas públicas.

Não por acaso, vemos, mesmo aqui no Brasil, empresas do setor de seguros se unindo a planos de academia, as primeiras oferecendo descontos a seus segurados para adquirir os segundos. Cuidar da saúde aos 30 anos é um “seguro” contra as enfermidades e comprometimentos na velhice.

No Brasil, um país com inegável vocação para o empreendedorismo e a inovação, as possibilidades são enormes. Empresas dos segmentos de private equity e venture capital podem investir em serviços de saúde (sejam eles heatltechs ou empresas mais consolidadas), academias (sobretudo aquelas voltadas para esse público, mais em busca de qualidade de vida do que de aspectos estéticos), produtos alimentares mais saudáveis e com um apelo mais voltado para grupos 50+ ou 60+, por exemplo e outros.

Essa é uma tendência inexorável. E a revolução está apenas começando.

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Nota

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Ricardo Propheta

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