João Canhada

Segurança em xeque? Um embate entre PIX e criptomoedas

Golpes dentro da blockchain? Sim, eles ocorrem e isso é algo que as empresas e redes estão de olho. Mas vale observar que o crime no sistema financeiro tradicional ainda é muito alto

A quantidade de vezes em que alguém me questionou ou até mesmo chegou afirmando que criptomoedas e blockchain são lar de criminosos talvez seja a mesma que o filme “História Sem Fim” foi reprisado nas tardes da televisão brasileira.

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Eu já fiz essa discussão aqui algumas vezes, mas é sempre bom retomar o assunto, pois, de fato, ainda existem muitas dúvidas em relação à segurança desta tecnologia. Ainda mais com a recente Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Pirâmides no Brasil, o assunto esquentou novamente.

Mas ao contrário do que muitos entusiastas afirmam para convencer os outros, não serei leviano de dizer que não há golpes ou crimes dentro da blockchain. Sim, eles ocorrem e isso é algo que as empresas e redes estão de olho. Mas, para não sair apenas apontando o dedo, acho interessante observar como está a situação do dinheiro fiduciário e métodos de transferências financeiras tradicionais atuais.

Troquei meu celular, me manda um PIX?

Olha, estou para conhecer quem acha o PIX uma solução ruim. Há, sim, algumas críticas, mas também, né…? A unanimidade, se é que existe, é um luxo para poucos. A solução do Banco Central tornou as transações financeiras muito mais baratas, velozes e acessíveis, sejam elas entre pessoas físicas ou jurídicas.

Mas pasmem! Alguém conseguiu usar o sistema para cometer crimes. Sim, gente! Isso acontece no sistema tradicional também!

Só no PIX, os criminosos encontraram brechas “interessantes” para enriquecer, seja no uso de softwares maliciosos (vírus) ou na famosa engenharia social, quando alguém te convence a enviar dinheiro a partir de uma influência – o famoso malandro!

Nos números, esses ataques do “troquei meu celular, me manda um PIX” ou “Manda R$ 100 no PIX que eu te devolvo R$ 1 mil” estão em ascensão, segundo informações divulgadas em 2023. Esse tipo de golpe mais que dobrou nos últimos anos. Em 2022, inclusive, a Kaspersky identificou cerca de 200 malwares bancários, sendo o maior número em seis anos.

Mesmo que nem todos caiam, a amostra de possibilidades é tão grande, que “vale a pena” a tentativa. Para se ter uma ideia, o Brasil é o segundo país com mais transações registradas em 2022, representando 15% do total global.

A “vantagem” do criminoso, segundo especialistas, é que é muito difícil bloquear as transações ou recuperar o dinheiro perdido. Afinal, os recursos são rapidamente pulverizados e distribuídos em diversas contas, o que torna o rastreio quase impossível. Por isso, pelo menos 20% de todas as contas bancárias abertas no Brasil são suspeitas de fraude.

No fim do dia, cerca de 70% dos brasileiros já foram alvo de algum tipo de golpe financeiro aplicado via internet. Deste montante, a maioria dos criminosos exigiam – de forma ameaçadora ou não – pagamento via PIX. Em um teste para verificar a capacidade das pessoas em identificar indícios de ação maliciosa, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) criou um site falso. 49% dos usuários clicaram no website fake e foram direcionados ao portal educacional, que alertava sobre os riscos de acessar links desconhecidos.

O golpe tá aí, cai até quem não quer!

A expressão “o golpe tá aí, cai quem quer” virou um meme famoso na internet, mas sejamos sinceros: há muitos golpes que ninguém quer cair, mas não tem jeito!

Segundo uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 22% dos entrevistados disseram ter sido vítimas de algum tipo de fraude financeira – transações para golpistas que se passaram por conhecidos, cartões clonados ou empréstimos falsos.

O levantamento mostrou ainda que cerca de 4 a cada 10 pessoas até entraram na Justiça para tentar minimamente reaver seus valores, mas um terço não conseguiu recuperar o dinheiro roubado.

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Uma dura realidade

Quando olhamos para esses dados, nota-se que o crime no sistema financeiro tradicional ainda é muito alto. Mesmo com todas as inovações tecnológicas que as instituições conseguiram oferecer às pessoas, a segurança evoluiu e trouxe, sim, mais tranquilidade aos usuários. Entretanto, há ainda controle da situação por parte das autoridades.

As criptomoedas também sofrem

É claro que as criptomoedas e blockchains também são usadas frequentemente por criminosos para a obtenção de vantagem. E não é preciso ser nenhum cientista de foguete para saber disso. Inclusive, os dados são até bem divergentes em relação a esta situação.

De um lado, a Federal Trade Comission (FTC) dos Estados Unidos divulgou que cerca de US$ 1,18 bilhão foram perdidos desde 2018 em golpes de moedas digitais, com a maioria concentrada no Bitcoin (70%), Tether (10%) e Ethereum (9%). Já do outro lado, um grupo de pesquisadores dizem que o número é bem maior e que, só no Ethereum, o volume obtido de forma ilegal chega a US$ 1,65 bilhão – 16 vezes maior que a estimativa da FTC.

Seja a FTC ou o grupo de pesquisadores certos, a realidade se mantém. Onde há dinheiro, há pessoas mal intencionadas querendo tirar o dinheiro dos outros. Dizer que isso não acontece nas blockchains é uma mentira deslavada.

As redes são tecnologias robustas, muitas delas são praticamente impossíveis de serem hackeadas, graças a seu mecanismo. Mas se as blockchains não podem ser corrompidas, as pessoas, sim. Por isso, identificar onde você terá mais controle pode indicar qual é o lugar mais seguro.

Não adianta se esconder

Se nas soluções financeiras tradicionais, o rastreio da movimentação do dinheiro e das contas dos golpistas é praticamente impossível, como apontam os especialistas, nas transações realizadas em blockchain, a situação é bem diferente.

A segurança das criptomoedas e da blockchain tem sido um tema de debate contínuo, com muitos argumentando que a natureza descentralizada e pseudo-anônima das criptomoedas facilita atividades ilícitas. No entanto, o relatório Crypto Myth Busting Report, da Chainalysis, desmistifica algumas dessas narrativas.

Apesar de existirem discussões sobre o tema, o aumento da pressão das autoridades policiais e a regulamentação das criptomoedas ajudaram, sim, a reduzir os crimes relacionados a criptomoedas. Ferramentas de análise de blockchain, que rastreiam todas as transações em cadeia, também facilitaram a investigação e prevenção de atividades ilícitas.

Para se ter uma ideia do avanço na segurança deste mercado, o relatório aponta que a estimativa é de que menos de 1% do volume total das transações de moedas digitais em 2022 foi usado para fins criminosos.

Nessa corrida por desenvolvimento de segurança, as exchanges centralizadas, que começaram engatinhando, hoje, se postam como mais confiáveis do que as exchanges descentralizadas (DEXes) mundo afora. O documento da Chainalysis aponta que a maioria dos casos de invasão de plataformas em 2022 aconteceu justamente nesses ambientes.

Assim como no PIX, em que o movimento dos criminosos é pulverizar em várias transações e contas os valores roubados, no mundo das criptomoedas o comportamento é o mesmo! 64% dos ataques focam nas pontes entre blockchains, que correspondem aos protocolos que permitem a interação e transação de moedas entre redes diferentes. Desta forma, seria mais “fácil” para os criminosos se camuflarem.

Seguindo os rastros

Esse volume baixo e cada vez menor de crimes envolvendo criptomoedas acontece pela própria natureza da tecnologia. Afinal, cada transação que ocorre dentro da blockchain, seja ela diluída entre vários usuários e redes, fica registrada eternamente e de forma imutável!

Isso quer dizer que se um criminoso roubou 100 BTCs ou qualquer outra moeda digital de um único ou vários usuários diferentes, é possível, a partir dos dados registrados na cadeia, acompanhar o fluxo dos tokens até chegar à carteira final.

Na prática, é meio que “não adianta fugir!”

Nos Estados Unidos, um rapaz, durante seu divórcio, tentou esconder parte de seus bens em Bitcoin para reduzir o compartilhamento financeiro com a então ex-esposa. Foi aí que uma auditoria analisou as movimentações on-chain e encontrou R$ 2,5 milhões em BTCs escondidos em uma carteira. Na mesma linha, um casal russo que roubava criptomoedas e lavava dinheiro foi pego. Mais uma vez, o trackeamento das transações nas blockchains auxiliaram a encontrar os criminosos. Por fim, uma quadrilha inglesa tentou esconder, em Bitcoin, os valores obtidos a partir de esquemas fraudulentos. Mas o rastreio em cadeia também permitiu a recuperação de 445 Bitcoins pela polícia local.

Escrito em pedra

A blockchain nada mais é do que um enorme livro-caixa, em que é possível registrar diversos tipos de informações, como transações de criptomoedas. Aqui, esses dados são validados entre os operadores da rede, cadastrados em blocos sequenciais, criptografados e, principalmente, imutáveis.

Ao contrário dos bancos, a blockchain é também uma solução completamente acessível, com as carteiras públicas visíveis a qualquer usuário, assim como a movimentação de tokens. Isso quer dizer que qualquer um pode entrar em plataformas de exploradores de rede para acompanhar cada uma das movimentações.

E, mesmo que alguém conseguisse – o que não seria viável em blockchains robustas – alterar alguma informação da plataforma, a transação original ainda permaneceria na rede, tornando seu rastreio muito possível.

Assim, de que adianta roubar, se você vai ser pego?

De fato, as soluções financeiras tradicionais, assim como as criptomoedas, estão difundidas entre criminosos. Entretanto, a blockchain carrega um aparato técnico que o mercado tradicional não oferece, que é o próprio rastreio do dinheiro.

Desta forma, os crimes ocorridos com moedas digitais dizem mais sobre a força disponível pelas autoridades para a resolução dos casos, do que necessariamente brechas dentro da tecnologia. Afinal, enquanto o dinheiro é zero rastreável, as criptomoedas são completamente trackeadas por qualquer pessoa.

Em meio a essas informações, minha ideia não é convencer de que as criptomoedas são a solução do mundo e que você deve abandonar tudo e todos para viver desta tecnologia. Meu objetivo, aqui, é mostrar que os crimes acontecem desde que o mundo é mundo, independente da unidade monetária que você quiser escolher. Envolveu dinheiro, há pessoas mal intencionadas.

Por isso, apontar o dedo exclusivamente para as criptomoedas e ignorar os benefícios da tecnologia só porque, em um algum momento, alguém disse que este é um ambiente apenas para criminosos e golpistas, torna a leitura dos fatos bastante imprecisa.

Assim, fato mesmo é que a tecnologia blockchain, cada vez menos, está sendo utilizada para crimes. Sua origem rastreável torna a tarefa custosa demais para os golpistas, que têm poucas garantias de sucesso de se safar de suas ações. Por isso, mecanismos mais tradicionais, como PIX e o famoso “dinheiro em espécie” ganham mais atenção pela sua dificuldade de rastreamento. Portanto, se for para ficar no ambiente digital, as criptomoedas se mostram como a opção mais segura entre todas as opções disponíveis à sociedade atualmente.

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Nota

Os textos e opiniões publicados na área de colunistas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão do Suno Notícias ou do Grupo Suno.

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