Gustavo Cruz

Os próximos passos do Copom e do FED

Um banco central bem avaliado consegue transmitir bem os sinais do que pretende fazer, sem se comprometer com alguma declaração explícita. Caso contrário, observaremos uma volatilidade excessiva no mercado

Toda vez que um banco central se reúne, investidores começam a se questionar sobre os próximos passos da política monetária. Por sua vez, um banco central bem avaliado consegue transmitir bem os sinais do que pretende fazer, sem se comprometer com alguma declaração explícita. Caso contrário, observaremos uma volatilidade excessiva no mercado. Após reunião e ata/comunicados, o Banco Central do Brasil e o Federal Reserve, Fed, enviaram alguns sinais do que pretendem fazer adiante.
Começando pelo brasileiro, o Copom optou por ser direto ao sinalizar uma nova alta de 1b.p. em 04 de maio. Sobre essa reunião, foram poucas as manifestações de descontentamento entre aqueles que julgam a alta exagerada ou cautelosa. Porém, para a reunião seguinte, 15 de junho, vemos economistas divididos em dois grupos. O primeiro concorda com o Copom, acreditando ser ideal encerrar o ciclo em maio, com a Selic a 12,75% a.a., outro grupo compreende que o ideal seria levar acima de 13%.

Encerrar em 12,75% a.a. possui seus argumentos. Com o Copom focado em 2023, seus modelos apontam que, nas condições de hoje, essa Selic seria suficiente para levar o IPCA para sua meta no próximo ano. No entanto, o grupo que discorda avalia que choques de oferta recentes vão ser mais persistentes em 2022 do que o previsto. Os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia e os impactos em cadeias globais de produção com paralisações na Ásia. Com o agravante de terem origem externa, o Copom tem menos opções de como enfrentar. Uma alternativa seria intensificar a valorização do real, possivelmente com a utilização de reservas, algo que parece exagerado para o momento em que a moeda segue essa trajetória.

Sinalizar que pode subir juros em junho seria uma nova tentativa de ancorar as expectativas de inflação. Após declarar que o ciclo chegou ao final, o Copom trabalhará na expectativa de quando começará a reduzir a Selic. Mais uma vez teremos grupos que julgam ideal realizar o quanto antes, para impulsionar a atividade, e outro que preferirá aguardar o máximo possível, para reduzir a inflação e suas expectativas.

Mais do que seguir uma rota precisa, o diferencial do Banco Central será conduzir bem as expectativas. Mesmo que a inflação surpreenda para cima, se as expectativas dos próximos anos não forem contaminadas, o êxito de médio prazo se torna mais próximo.

No caso do Fed, uma parte do mercado acredita que teremos altas de 0,25b.p. e outra de 0,50b.p. ao longo do ano. Os mesmos choques de oferta externos estão presentes na economia americana. A diferença é o momento do ciclo de alta de juros, com os EUA iniciando o movimento.

O Fed modificou rapidamente sua sinalização. Antes de encerrar 2021, o Fed se mostrava em dúvida se iniciaria o aperto monetário no primeiro semestre. Com essa mudança de postura em 2022, investidores seguem dispersos entre muitas rotas possíveis. Uma das dúvidas esclarecidas é que o Fed não aguardará para agir, acreditam que a inflação está muito elevada. O que fortalece as expectativas de um ritmo de 0,50 b.p. nas próximas reuniões, encerrando o ano mais próximo de 2,5% a.a..

Também temos nos EUA um argumento forte para não seguir essa rota, o risco de recessão. Após um forte impacto da pandemia, investidores compreendem que o melhor é realizar um aperto monetário de forma cautelosa para não reverter a recuperação econômica. Assim ritmo de 0,25b.p. seria o ideal, encerrando abaixo de 2% a.a.

Diferente do Brasil, os EUA se aproximam do pleno emprego. Isso é muito relevante para projetar as próximas ações. O Fed possui uma economia crescendo em ritmo forte, na qual mês após mês vemos ganhos médios salariais em alta. Segundo o payroll de fevereiro, o desemprego está em 3,8%, um americano ganhava em média US$ 30,04 em fevereiro de 2021 e hoje ganha US$31,38. O payroll também aponta que trabalhadores de “Alimentação e Hospedagem” são os que vivem a maior alta de salários, desde a metade de 2021. Ou seja, aqueles que recebem menos estão vendo seu salário crescer. Considerando que o Fed possui um duplo mandato, o mercado de trabalho oferece uma oportunidade para ser mais direto no aperto monetário, focando na inflação.

No Brasil, quando o Banco Central se tornou independente, foi acrescentado aos seus objetivos a ideia de perseguir o pleno emprego, preservando o status de inflação como principal objetivo. O IBGE aponta que o desemprego está em 11,2%, enquanto o Caged trouxe um salário médio real de admissão em R$ 1.920,59 em janeiro de 2022, abaixo dos R$ 1.944,20 em janeiro de 2021. A população está aceitando trabalhar por menos, diante da falta de postos de trabalho. Isso desconsiderando a inflação do período. Ao contrário do Fed, o Copom não possui a mesma facilidade em qual objetivo focar.

Por mais que a inflação seja o principal objetivo, já é possível achar entrevistas de dirigentes do Banco Central preocupados com o efeito contracionista dos juros na atividade. Diante dessa tendência, o melhor seria adotar uma postura mais cautelosa agora, elevando a Selic para 13,25% a.a. ou mais. Criando espaço para iniciar, de forma cautelosa, um ciclo de relaxamento monetário mais cedo.

No caso do Fed, um dos choques globais recentes foi o ciclo de commodities em alta. Os Estados Unidos injetaram pacotes de estímulos massivos, inflacionando o mercado de alimentos, commodities metálicas, entre outras. O Fed realizar um aperto monetário mais rápido auxiliaria outros banqueiros centrais a entregar suas inflações na meta nos próximos anos. Com impulsos fiscais ainda em curso, o risco de recessão parece ainda distante, sugerindo que esse caminho seja o mais adequado.

A taxa livre de risco americana talvez seja o principal ativo do mundo. Se a maior economia do mundo te remunera mais, você pensa melhor antes de investir em outros ativos. Se ela te remunera menos, você busca mais retorno em ativos mais arriscados. Assim, vale acompanhar as projeções de juros nos EUA independente de qual abordagem terá em seus investimentos. No final, o seu investimento é um produto derivado dos juros americanos.

Nota

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Gustavo Cruz
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