Ações dos bancos em baixa incentivam cisão de negócios de tecnologia

Ações dos bancos em baixa incentivam cisão de negócios de tecnologia
Ações dos bancos em baixa incentivam cisão de negócios de tecnologia

A possibilidade de bancos desmembrarem as operações de empresas financeiras, que operam dentro da mesma estrutura, parece ser uma tendência real em um momento no qual o mercado vê múltiplos de empresas de tecnologia esticados e instituições financeiras sob ataque, com as ações dos bancos em baixa.

Companhias como o Itaú Unibanco (ITUB4), com a XP Investimentos, Bradesco (BBDC4), com o Next, e Santander (SANB11), com a Getnet, já anunciaram medidas para separar as operações das empresas de tecnologia que operam dentro das instituições.

De acordo com especialistas ouvidos pelo SUNO Notícias, a estratégia é uma forma de destravar o valor das ações dos bancos e sustentar a competição dos bancos ante as fintechs.

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“Esse movimento dos bancos é parte da estratégia na competição com bancos digitais e fintechs, que vai acelerar com a introdução do PIX e do open banking, e com os hábitos digitais dos clientes, intensificados na pandemia”, disse Murilo Breder, analista de renda variável da Easynvest.

Para Maurício Ramani, analista da Reach Capital, a iniciativa de cisão ocorre em um momento em que os agentes do mercado de capitais apostam mais em empresas de tecnologia – que possuem múltiplos mais esticados em relação a empresas tradicionais, como os bancos.

“Eu acho que essa transação [do Santander com a Getnet] ocorre pois as adquirentes, tipo Stone ou PagSeguro, estão negociando a múltiplos bem mais altos que os bancos. Então, no momento em que você separa o negócio, provavelmente terá uma melhor avaliação”, disse o analista.

Bancos preparam ações de separação de operações

A mais recente iniciativa foi do banco Santander (SANB11). Na segunda-feira (16), o conselho de administração do banco aprovou o início de um estudo para segregar as participações acionárias do banco na sua subsidiária Getnet Adquirência e Serviços para Meios de Pagamento.

De acordo com o documento divulgado pelo Santander, a entrega de ações/units da Getnet aos acionistas ocorreria depois da concessão de registro de companhia aberta da Getnet pela CVM. Em seguida, as ações/units da Getnet seriam registradas nos termos do Securities Exchange Act nos Estados Unidos.

A outra etapa seria a listagem das ações/units da Getnet no Brasil e a listagem ou cotação dos ADRs (American Depositary Receipts) da Getnet nos Estados Unidos. Finalmente, a operação precisaria da aprovação da potencial cisão pelo Banco Central, informou o Santander.

A notícia foi ao encontro da movimentação que o Itaú Unibanco pretende fazer com a XP Investimentos. No início deste mês, a instituição bancária anunciou que estava realizando estudos, já em fase avançada, sobre a possibilidade de vender 5% da XP na Nasdaq ou em outra bolsa que a corretora fosse listada.

Além disso, o Itaú possui uma fatia de 46% no capital da XP — a participação de 49,9% inicial foi diluída após a oferta inicial de ações (IPO) na Nasdaq — haveria uma fatia remanescente de 5%. Para entregar aos seus acionistas essa fatia, seria necessário a criação de uma nova sociedade de capital aberto, batizada de Newco, e segregar nela as ações da XP, ou 41,05% do capital da empresa de investimentos.

Não podemos tratar a XP como uma atividade do banco, dentro das atividades do conglomerado, sendo assim não há nenhuma razão para não destravarmos o valor da XP que estava dentro do banco distribuindo para nossos acionistas”, disse o CEO Candido Botelho Bracher.

Essa operação, se concretizada, faria com que os acionistas da instituição recebessem participação acionária na Newco, cujo único ativo seriam as ações representativas da corretora.

Bradesco puxou fila

Mas, apesar de o Santander ser o caso mais recente e o do Itaú e XP ter um maior destaque, esse movimento já vem ocorrendo desde a movimentação do Bradesco.

“A fila não foi puxada pela surpreendente notícia do Itaú, mas sim com o Bradesco se separando do Next. No início de setembro, o banco digital Next deixou de ser um departamento e foi convertido em empresa. O modelo deve ser replicado em outras frentes. A próxima da fila deve ser a corretora Ágora”, afirmou Murilo Breder, da Easynvest.

O Bradesco anunciou, em setembro, que o Next, o banco digital criado pelo banco há cerca de três anos, passará a funcionar como uma das empresas do conglomerado financeiro. Ou seja, a empresa terá maior autonomia e velocidade de gestão e de atuação, segundo a instituição.

“É um movimento natural e evolutivo, à medida que o Next tem se tornado cada vez mais uma experiência completa de serviços financeiros. Queremos estar presentes em todos os momentos da jornada de vida dos nossos clientes”, disse, em nota, o presidente do Bradesco, Octávio de Lazari Jr.

O SUNO Notícias apurou, à época, que o valuation obtido pela XP, que foi avaliada em US$ 14,9 bilhões apenas na estreia nos EUA, chamou a atenção da gestão do Bradesco e fez acelerar o desmembramento do banco digital e da corretora. O caminho traçado deve ser o mesmo que a XP trilhou e deverá desembocar em um ou dois IPOs.

Varejo também olha operações

Para além das instituições puramente financeiras, players do varejo já olham com uma visão positiva para a estratégia.

Na semana passada, a Via Varejo (VVAR3) sinalizou uma estratégia semelhante, ao afirmar que o mercado ainda não precificou a aposta da varejista no banco digital Banqi.

Durante conferência sobre os resultados do terceiro trimestre nesta quinta-feira (12), o CEO da Via Varejo, Roberto Fulcherberguer, afirmou que o mercado não precifica as possibilidades que a companhia de varejo possui com o banco digital.

“A nossa aposta no Banqi sequer está precificada no valuation que as pessoas fazem da Via Varejo”, disse Fulcherberguer. “Estamos demonstrando que os ativos que a Via Varejo têm são de qualidade e, por isso, estamos disputando o mercado de marketplace no Brasil de igual para igual”, afirmou.

Para Maurício Ramani, da Reach Capital, apesar da onda nessa direção, o movimento não é tão óbvio quanto parece.

“A ressalva é que a empresa de tecnologia pode perder as sinergias comerciais do banco. Porque, hoje, é um serviço a mais que os bancos podem oferecer para o cliente, mas separada pode ser um problema. Vimos isso com Cielo. Então, não é tão óbvia quanto Itaú e XP”, disse o analista.

No momento, as ações dos bancos acumulam quedas expressivas. Os papéis de Itaú Unibanco registram desvalorização de 24% em 2020; já do Bradesco caem 27%, enquanto que as ações do Santander têm queda de 24%. No mesmo período, o Ibovespa cai 10%.

Vinicius Pereira

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