Itaú Asset tira ESG da teoria e aplica no mundo real – há mais de 10 anos

Nos últimos dois anos, o tema ESG entrou na pauta do mercado financeiro e ganhou grande notoriedade, com as empresas se preocupando mais com os aspectos ambientais, sociais e de governança. Embora isso pareça ser muito novo no Brasil, a Itaú Asset se preocupa com o tema desde 2004.

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Segundo Renato Eid, Superintendente de estratégia beta e integração ESG da Itaú Asset, a casa utiliza um método próprio para incluir essas questões em seu processo de investimento — mesmo naqueles produtos que não possuem um “selo” verde.

Neste contexto, a grande dúvida do mercado é como trazer isso para a prática nos investimentos, saindo da teoria e materializando os impactos disso no valor das empresas.

Confira os principais trechos da entrevista exclusiva do Suno Notícias com o diretor da Itaú Asset.

O que o ESG representa para o Itaú?

A despeito do aquecimento do tema nos últimos anos, essa é uma pauta tratada desde 2004 na Itaú Asset, trilhando e aprendendo sobre investimento responsável

Desde 2010, passamos a adotar os aspectos ambientais, sociais e de governança no nosso processo de investimento geral. Ou seja, em vez de lançarmos um produto específico sobre o tema, onde somente neste produto seriam observadas as questões ESG, a gente traz para nosso processo de investimento a observação dessas questões.

O nosso propósito com isso é justamente analisar aspectos que não vão ser cobertos pela análise financeira tradicional. Com isso, ampliamos o leque dos riscos e oportunidades dos nossos investimentos.

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E como fazemos isso? Desenvolvemos um modelo de análise proprietário, que serve tanto para empresas com renda fixa, com uma visão pragmática do tema, quanto para trazer informações que tragam aspectos materiais para cada um dos setores que investimentos.

O ESG, ao contrário de outros elementos do mercado de investimentos, não possui um manual. Isso é reflexo da série de tentativas dos reguladores para determinar dados padronizados. 

Então quando se trata de ESG, o importante é trazer aspectos materiais e relevantes para a gestão, auxiliando na tomada de decisões. 

E como funciona?

O nosso modelo possui oito dimensões, sendo quatro voltadas para o âmbito ambiental e quatro para aspectos sociais e, dentro disso, fazemos a valoração para cada um dos setores. A ideia é precificar essas questões. 

O benefício de estarmos trabalhando com isso há muito tempo é que temos um alto grau de assertividade. Ao mesmo tempo, não temos a pretensão de acertar absolutamente tudo. A ideia é entendermos se trata-se de valorações na casa de milhares, milhões, dezenas de milhões ou bilhões. Ou seja, a magnitude desses aspectos.

Dentro dessa atividade, uma das questões mais importantes é o engajamento com o tema. Como não há padronização ou diretriz sobre ESG, o trabalho de engajamento com o assunto é super relevante pois cria-se um diálogo com as empresas.

Foto/Reprodução: Itaú Asset
Foto/Reprodução: Itaú Asset

Esse canal de comunicação com as companhias é importante para apontar melhorias e pontos fortes dos players no que se refere ao ESG. Esse é um grande passo na transição do tradicional para o atual, e é um trabalho em conjunto entre as partes.

Conseguimos fomentar essa transição com a participação nos conselhos das empresas, trabalhando por melhorias. O engajamento também acontece aí com esclarecimento de pautas para votação, por exemplo.

Na prática, como isso se relaciona no dia a dia da Itaú Asset?

Quase 100% das empresas cobertas por nós estão cobertas pela nossa análise ESG. Além disso, em nossas estratégias de mercado de crédito, caso as empresas não sejam aprovadas em nossa ótica ambiental, social e de governança, não entrarão no nosso crivo.

Note que aqui não estamos falando de fundos ou produtos voltados para o ESG, mas sim algo transversal no processo de investimento da Itaú Asset. Fora isso, também temos uma prateleira de fundos temáticos, que incluem ESG.

Como funciona a precificação, ou valoração, das variáveis ligadas ao ESG?

Usamos uma mandala no modelo de precificação para ESG. De um lado, quanto queremos entender a parte social, procuramos na empresa a relação dela com fornecedores, clientes, comunidade e trabalhadores. Na parte de governança, analisamos itens como independência e qualidade do conselho e questões de diversidade, por exemplo.

É muito difícil mensurar, em termos monetários, o benefício de ter 70% do conselho em independentes. Mas, nesses pontos de análise em termos ambientais e sociais, a gente formula o Valor Presente Líquido (VPL) de cada um dos pontos, que trazem novas variáveis que podem trazer benefícios ou malefícios em termos financeiros.

Foto/Reprodução: Itaú Asset
Foto/Reprodução: Itaú Asset

Cada setor que olhamos com esse prisma terá sua materialidade diferente. Em um setor de varejo não terei de olhar a biodiversidade e uso do solo, por exemplo; enquanto por outro lado, terei de observar a relação com fornecedores. 

Nesse trabalho de tirar as coisas do papel e trazê-las à prática, temos um white paper, lançado em 2017, sobre mudanças climáticas no Brasil, onde damos um zoom nesse assunto. Queremos saber como as alterações climáticas extremas afetam o tema investimento e como podemos nos posicionar perante isso.

Até agora no Brasil, a adesão ao ESG ocorreu mais por iniciativa das empresas ou pressão de investidores?

Não existiu um único elemento responsável por trazer investimento em ESG para a pauta do mercado. Não foram os investidores que pressionaram os gestores, tampouco nós pressionamos as empresas.

Gostamos de pensar em uma tríade entre investidores, gestores e companhias. O diálogo entre as partes é constante, embora nós visualizamos corriqueiramente. Contudo, vale a pena ressaltar que os investidores estão cada vez mais ligados no assunto, nos questionando sobre o tema.

De um ponto de vista geral, um aspecto relevante é que nós, enquanto consumidores, já tivemos a noção de nosso poder há muito tempo, com base em nossas escolhas. Conseguimos alinhar nosso consumo ao nosso propósito. E isso reverbera no mundo dos investimentos.

Dentro desse diálogo, é importante prestar atenção como a empresa se posiciona perante o consumidor. Os clientes têm mudado o padrão de consumo e relação com fabricantes de produtos.

Há cinco anos, ao entrar em um supermercado, víamos praticamente apenas o tomate como produto orgânico nas prateleiras. Hoje, a gama de produtos é maior, com marcas tradicionais acompanhando essa demanda que apareceu. 

O mesmo acontece com açúcar. Em um processo que já aconteceu na Europa, as empresas estão retirando o açúcar de seus produtos, substituindo-o por substâncias alternativas.

Uma vez que isso vire comum na empresa, deixando de ser o diferencial e sendo coberto pela análise financeira tradicional, então tiramos isso de nossa análise. Queremos encontrar o que ainda não é observado pelo mercado. 

Mas é importante ponderar nossa responsabilidade para entendermos para onde estamos indo e onde queremos chegar. A manutenção dessa tríade é super importante, tendo como alvo um diálogo e não pressão.

Qual é a opinião de vocês, e o volume de ocorrência, de empresas que querem só surfar a onda do ESG?

Essa é a famosa questão do greenwashing, que é falar algo e não fazer na prática. Para mim, essa é uma prática que cada vez menos vai ser recorrente.

Conforme o mercado estuda mais sobre ESG, a educação sobre o tema passa a ser difundida, e os investidores passam a estar “vacinados” contra a prática, cada vez mais questionando uma empresa com esse comportamento. Quanto mais falarmos de ESG e trouxermos as boas práticas deste universo, o greenwashing vai sendo colocado de lado. 

Precisamos sempre estar atentos a esse tipo de prática, tomando cuidado com a nossa reputação junto a investidores e ao mercado. A reputação é como a confiança: demora tempo para ser adquirida, mas pode ser facilmente perdida.

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Não por má fé, mas precisamos tomar cuidado com os passos que damos neste tema, mas porque, de fato, não é um assunto que em sua totalidade está difundido. 

Então, como passar do tempo, qualquer player que queira surfar uma narrativa ao invés de estruturar um plano de ação e execução, muito provavelmente serão questionados no futuro. 

Além desse aspecto mais natural, também existem algumas iniciativas. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) está com uma audiência pública que determina o que pode e o que não pode para um fundo ser denominado ESG.

Já tiveram de lidar com um player com esse comportamento?

Não comentamos casos específicos, mas podemos garantir que empresas são vetadas no comitê de crédito quando identificamos coisas assim.

Algumas companhias que olhamos e enxergamos controvérsias, entram nesse filtro. Fazemos valer realmente esse processo de análise, com riscos e oportunidades, que colocamos em prática nos últimos anos.

Daqui para frente, o que esperar e em que se espelhar no ESG?

A ideia final é que o ESG se torne mainstream. Isso acontecerá no momento que o tema não será mais segregado dos demais no que se refere a políticas de investimento.

Não só no Brasil, mas no mundo, ainda não temos a capacidade de mensurar por meio de drivers, KPIs e fatores o impacto e importância do tema. Mas, no futuro, não tenho dúvida de que o ESG não será mais algo agregado, mas sim comum no mercado.

Mas tudo é um processo. O tema ganhou aceleração nos últimos anos e isso precisa continuar. A tríade precisa deixar vivo o diálogo e entendimento para que possamos chegar neste ponto citado. 

Dito isso, no Itaú vemos com muito bons olhos todo esse movimento em prol do ESG, tanto de engajamento dos players como iniciativas para melhor entendimento regulamentar do tema. 

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Jader Lazarini

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