Fed e Copom entram em semana de tensão: corte de juros ainda está de pé? Entenda
O Fed e Copom chegam à próxima semana diante de uma pergunta que ficou mais difícil para o mercado: os juros ainda podem cair ou a inflação voltou a comandar o jogo? Nos Estados Unidos, o payroll forte reduziu o espaço para cortes pelo Federal Reserve. No Brasil, a Selic já caiu de 15% para 14,50% ao ano, mas petróleo, câmbio e expectativas de inflação voltaram a pesar sobre a decisão do Banco Central.
A virada de humor aparece nas projeções. No início de 2026, o mercado via a Selic em 12,25% ao fim do ano, segundo o primeiro Boletim Focus do período. Agora, as estimativas apontam para 13,50% em 2026, 11,50% em 2027 e 10% em 2028.
Na avaliação de Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, a economia global entrou em um novo regime, menos guiado por choques tradicionais de ciclo e mais pela geopolítica. O centro dessa mudança está na pressão sobre petróleo, gás, fretes, seguros e custos industriais, em meio às tensões envolvendo Estados Unidos e Irã.
Fed vê emprego forte e inflação resistente
Nos Estados Unidos, o mercado de trabalho voltou a complicar os planos de corte de juros. A economia americana criou 172 mil vagas em maio, acima das expectativas, enquanto a taxa de desemprego ficou estável em 4,3%.
O dado reforçou a leitura de que o Federal Reserve tem menos urgência para aliviar a política monetária. Se a atividade segue resistente e a inflação ainda sofre pressão de energia e custos globais, o banco central americano ganha espaço para manter os juros elevados por mais tempo.
Para Simioni, se o Fed entender que o choque inflacionário terá duração limitada, de cerca de dois trimestres, pode optar por uma postura mais gradual. Mas, se a leitura for de um choque prolongado, acima de três trimestres, o banco central americano poderia considerar altas mais fortes de juros, entre 0,50 e 0,75 ponto porcentual, mesmo com impacto sobre atividade e inadimplência.
Na prática, o corte de juros deixou de ser apenas uma questão de calendário. Agora, depende de uma inflação que pode ficar mais resistente por fatores que a política monetária não controla diretamente.
Copom pode ter de pausar ciclo de queda
No Brasil, o dilema também ficou mais delicado. O Copom iniciou o ciclo de afrouxamento monetário em março, com corte de 0,25 ponto porcentual, depois de manter a Selic em 15% por nove meses. Em abril, fez nova redução de 0,25 ponto, levando os juros básicos a 14,50% ao ano.
Agora, o Banco Central terá de decidir se mantém o ciclo de queda, se faz uma pausa ou se sinaliza uma postura mais dura diante do choque de oferta provocado pela alta de energia, petróleo, derivados, polímeros e fertilizantes.
Na análise de Simioni, a próxima reunião pode ser um divisor de águas para a política monetária brasileira no segundo semestre. Se o BC avaliar que o choque será curto, poderia manter os juros no patamar atual durante o restante de 2026, tolerando uma inflação entre 4,0% e 4,5% neste ano e entre 3,5% e 4,0% em 2027.
O risco, nesse caso, é a convergência lenta para a meta. Segundo o economista, o choque poderia adicionar até 1,8 ponto porcentual ao IPCA no primeiro ano e 2,4 pontos no segundo, além de levar as expectativas de inflação para a faixa de 4,5% a 4,8% em 2026 e 2027.
Selic pode voltar a 15%?
O cenário mais duro traçado por Simioni considera um choque inflacionário prolongado, superior a três trimestres. Nessa hipótese, o Banco Central poderia ser levado a retomar o aperto monetário e elevar a Selic de volta ao patamar de 15%, mantendo os juros em nível restritivo por pelo menos três trimestres.
Nesse cenário, as projeções ficariam mais pressionadas: IPCA entre 4,8% e 5,2% em 2026 e entre 4,0% e 4,4% em 2027. As expectativas poderiam se descolar para cima de 5,3%, enquanto o câmbio sofreria depreciação estimada próxima de 10%.
Para o investidor, o ponto central é que a próxima reunião pode indicar se o ciclo de alívio monetário ainda resiste ou se a inflação geopolítica vai obrigar bancos centrais a voltarem para a defesa.
O encontro do Fed e Copom pode, portanto, marcar uma virada de tom. Se os bancos centrais forem cautelosos demais, correm o risco de deixar a inflação escapar. Se reagirem com juros mais altos, podem segurar expectativas, mas ao custo de uma economia mais fraca nos próximos trimestres.