Copom corta Selic para 14%, mas endurece o tom e pode fechar a porta para novas quedas

O Copom entregou o corte que o mercado já esperava, mas deixou pouca margem para comemoração. O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano nesta quarta-feira (5), em decisão unânime, mas adotou um discurso mais cauteloso diante das expectativas de inflação desancoradas, do mercado de trabalho aquecido e do aumento das incertezas no Brasil e no exterior.

Foi a quarta redução consecutiva da taxa básica de juros. Apesar da continuidade do ciclo, o comunicado indica que os próximos passos dependerão dos novos dados e reforça que o Banco Central não pretende acelerar o ritmo de flexibilização monetária.

“O cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária”, afirmou o colegiado.

Por que o Copom reduziu a Selic?

Segundo o Banco Central, os indicadores recentes apontam para uma moderação gradual da atividade econômica ao longo de 2026, embora o nível de atividade ainda seja considerado resiliente e o mercado de trabalho permaneça aquecido.

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A inflação cheia desacelerou, mas continua acima do limite superior da meta. Já as medidas subjacentes, que ajudam a mostrar a tendência dos preços ao retirar itens mais voláteis, recuaram para um patamar ligeiramente inferior ao teto — ainda distante, porém, do centro da meta.

O colegiado afirmou que o corte para 14% é compatível com a estratégia de conduzir a inflação para perto da meta no horizonte relevante. A decisão também busca suavizar as oscilações da atividade econômica e contribuir para o pleno emprego, sem abandonar o objetivo principal de estabilidade dos preços.

Comunicado veio mais duro que o esperado

Para Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a redução veio totalmente em linha com as expectativas, mas a linguagem utilizada pelo Banco Central foi mais restritiva.

“O comunicado foi um pouco mais hawkish do que o esperado, apesar do reconhecimento de alguns pontos de melhora”, afirma. O economista observa que o Copom reconheceu a desaceleração da atividade, o que poderia ser interpretado como uma sinalização favorável à continuidade dos cortes. Em contrapartida, endureceu sua avaliação sobre o mercado de trabalho, que passou a ser descrito como “aquecido”.

A preocupação com a inflação também permaneceu elevada. As expectativas da pesquisa Focus para 2026 e 2027 estão em 5% e 4,2%, respectivamente, ambas acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central.

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Inflação só converge no fim do horizonte

No cenário de referência do Copom, a projeção para o IPCA de 2026 ficou em 5,1%. Para 2027, a estimativa passou a 3,8%, enquanto a previsão para o primeiro trimestre de 2028 — novo horizonte relevante da política monetária — ficou em 3,2%.

O centro da meta é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Assim, a projeção indica uma aproximação mais clara da meta apenas no limite do horizonte analisado.

“É mais por conta de uma esticada desse horizonte do que propriamente de uma melhora das condições de forma mais significativa. Para 2027, inclusive, as projeções aumentaram”, explica Perri.

O Banco Central também classificou o balanço de riscos como elevado e com assimetria altista, ou seja, enxerga maior possibilidade de a inflação surpreender para cima.

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Entre os riscos citados estão a desancoragem prolongada das expectativas, possíveis impactos do petróleo e do clima, inflação de serviços mais resistente, câmbio depreciado e estímulos que mantenham o consumo e a atividade acima do potencial.

Selic deve parar em 14%?

O comunicado não antecipou diretamente o que ocorrerá na próxima reunião. O Copom repetiu que a magnitude total do ciclo será definida de acordo com as novas informações e que manterá uma restrição monetária compatível com a convergência da inflação.

Para Perri, no entanto, as mudanças no texto sugerem que o Banco Central pode ter encerrado o atual ciclo de cortes.

“Para mim, isso é um sinal mais forte de que ele vai pausar aqui o ciclo de cortes da taxa de juros em 14%. Claro que isso pode mudar se novos dados vierem ao longo dos próximos 40 dias que justifiquem isso, mas minha leitura para hoje é que o cenário-base é uma pausa. Temos que ter surpresas positivas daqui para frente para isso mudar.”

Assim, o Copom reduziu a Selic pela quarta vez consecutiva, mas encerrou a reunião com uma mensagem clara: o espaço para novos cortes ficou menor, e qualquer redução adicional dependerá de uma melhora mais convincente da inflação e de suas expectativas.

Maíra Telles

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