Rodrigo Correa

E a bolsa, hein? Visão de março de 2023

O interesse em saber os rumos da bolsa sempre está em alta. E agora? Quais os prognósticos?

Renda variável. Costumo dizer aos clientes que o problema da renda variável é que ela varia. Quando varia para cima, ninguém reclama, pelo contrário – é só alegria. Mas, quando varia para baixo, os investidores gritam. Todo ciclo esse fenômeno se repete. Bolsa é o principal ativo representante de renda variável. Por isso, o interesse em saber os rumos da bolsa sempre está em alta. E agora? Em março de 2023, quais os prognósticos?

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Antes de falarmos do prognóstico específico, gostaria de lembrar das bases que movimentam a Bolsa: o preço de uma ação é dado no médio e longo prazos pela evolução do nível de lucros gerados pela empresa em questão. No caso de índices, pela evolução dos lucros compostos dos membros de tal índice. Por outro lado, existem os detratores da evolução de bolsa: aumento de juros, incertezas e aversão a risco em alta.

Gráfico 2 – Ibovespa: Preço (esq) vs Taxa de Juros (DI1F26, dir). Fonte: Economática

Estamos exatamente em um daqueles momentos que variáveis distintas mostram coisas diferentes.

Olhando para o gráfico 1, vimos como o lucro do Ibovespa continuou a crescer a partir de março/21.
Especificamente, nossa bolsa muito focada em commodities acabou se beneficiando do aumento dos preços de commodities (em grande parte acelerado pelo aumento da demanda global pós início da normalização pós-covid e da guerra da Rússia contra Ucrânia que faz preços de grãos e petróleo explodirem) e o lucro gerado pelas produtoras de commodities cresceu bastante. Por isso vemos que o preço do Ibovespa fica defasado em relação ao lucro gerado. Um lucro maior faz com que múltiplos de preço lucro fiquem menores, ou o popular “a bolsa está barata”. Então, de fato, há um potencial interessante para os investidores que estiverem alocados nesse momento para capturarem um excelente momento de compra.

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Comparando o nível do Ibovespa com as taxas de juros (Gráfico 2, onde elegemos o DI 2026 como referência pois no início da série era a taxa brasileira de 10 anos), vemos que a partir do início da pandemia do Covid-19 a correlação entre ambas “quebrou”. Fato é que a COVID foi um dos maiores choques macroeconômicos das últimas décadas em importância e relevância – talvez o maior desde a 2ª guerra mundial.

Com a COVID, a economia dos países, de forma sincronizada, parou. E os juros foram baixados (ou se mantiveram baixos) para ajudar naquele momento complicado. Por 1 ano ele permaneceu bem baixo – os juros de referência, a Selic, chegaram a inimagináveis 2,0% aa no Brasil. E com a normalização que veio através das vacinas, as taxas puderam começar a se normalizar. Com o choque do retorno da economia, veio também a aceleração da demanda além do que a oferta poderia entregar e a inflação chegou forte em praticamente todos os lugares do planeta (a notável exceção foi a China).

Bom, a partir desse ponto, os juros tiveram que subir em geral. No Brasil subiram muito forte ao longo de 2S21 até 2S22. Fomos de 2% para praticamente 14% (na Selic) e o DI26, gráfico 2 acima, saímos de 6% e fomos até 14%. A alta de juros foi o freio que segurou nossa bolsa de maio/2021 em diante.

Somado a alta de juros, tivemos choques importantes que abalaram a confiança dos investidores:

  • (i) a guerra Rússia vs Ucrânia (que como colocado acima, mexeu muito com o mercado de commodities) e, com a alta de juros,
  • (ii) bancos ao redor do planeta começaram a falir (já foram 3 nos EUA e o Credit Suisse na Europa). O primeiro efeito é positivo na margem para o mercado brasileiro. O segundo elemento é o mais problemático para a bolsa. Leva muitos investidores, temendo riscos a frente, a saírem de investimentos reais (e voláteis) e fugirem para investimentos mais seguros (juros e renda fixa).

No Brasil, há um último elemento, que traz mais um ponto: a maioria dos novos investidores de bolsa entraram recentemente, fazendo que o número histórico de CPFs que flutuavam entre 500 e 600 mil atingisse 4,2 milhões (fruto das baixas taxas de juros citadas acima). Esse pessoal todo está experimentando pela primeira vez um ciclo de alta de juros.

Em resumo, estamos numa combinação de:

  • (i) Lucros em alta (que fazem a precificação de bolsa estar barata);
  • (ii) Aversão a risco (ie guerra, bancos quebrando e medo de recessão);
  • (iii) Juros em alta (alternativa concorrente para investidores de bolsa migrarem seus recursos);
  • (iv) Investidores em geral, mas principalmente de varejo, fugindo de bolsa.

Essa combinação nos leva em resumo a um belo ponto de entrada na bolsa. A situação costuma ser que nos momentos mais difíceis de se investir (emocionalmente falando) é que se encontram as maiores oportunidades.

Como nossos juros são bem fartos, a vontade do investidor ficar alocado em bolsa cai muito. Para aqueles que tem apetite a risco e capacidade para ver além das nuvens negras do curto prazo, talvez esse seja um dos melhores pontos para se estar alocado em bolsa. O tempo confirmará essa hipótese. Naturalmente, os riscos e incertezas também aí estão.

Viva a bolsa!

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Nota

Os textos e opiniões publicados na área de colunistas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão do Suno Notícias ou do Grupo Suno.

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