Alexsandro Nishimura

Balanços do terceiro trimestre: lucro em alta, mas incertezas econômicas começam a aparecer

O mercado ficou de olho nos reflexos da piora da atividade econômica (menor crescimento, inflação e juros ascendentes e deterioração fiscal) sobre as companhias

Com o fim da temporada de resultados do terceiro trimestre, é possível fazer um balanço sobre o que as “fotografias” revelaram das empresas no final de setembro. O mercado ficou de olho nos reflexos da piora da atividade econômica (menor crescimento, inflação e juros ascendentes e deterioração fiscal) sobre as companhias, além dos cenários político e internacional.

Para o bem ou para o mal, os balanços tiveram influência direta sobre muitas ações, como pode ser visto no gráfico abaixo, que relaciona o desempenho dos ativos após as divulgações dos resultados trimestrais:

Destas cinco ações, Natura (NTCO3), Vale (VALE3) e Via (VIIA3) tiveram avaliações negativas do mercado sobre os números apresentados e/ou piora nas perspectivas. Como consequência, os papéis tiveram forte variação negativa.

Por outro lado, Multiplan (MULT3) e AmBev (ABEV3) foram bem avaliadas pelos analistas, e as ações tiveram desempenho positivo, com força até para contrariar a tendência negativa do mercado em geral.

É possível citar algumas estatísticas dos resultados apresentados pelas 88 empresas que compõem o Ibovespa:

  • 74 companhias registraram lucro líquido entre julho e setembro deste ano, totalizando ganhos de R$ 132,17 bilhões. No 3T20, 72 destas empresas que hoje compõem o índice totalizaram ganhos de R$ 64,80 bilhões.
  • A Petrobras (PETR4) distorceu esta comparação, ao sair de prejuízo de R$ 1,55 bilhão no 3T20 para lucro líquido de R$ 31,14 bilhões no 3T21.
  • Petrobras e Vale, juntas, lucraram mais de R$ 50 bilhões no trimestre.
  • 48 empresas tiveram aumento no lucro líquido na comparação anual, com destaque para as siderúrgicas e frigoríficos.
  • Os 7 bancos com ações no Ibovespa acumularam ganhos de R$ 23,26 bilhões, ante lucro líquido de R$ 16,75 bilhões no 3T20.
  • 14 empresas tiveram prejuízo, somando perdas de R$ 7,69 bilhões (15 no 3T20, com prejuízo de R$ 9,92 bilhões).
  • Companhias aéreas aprofundaram as perdas, mesmo com a redução das medidas de isolamento social e crescimento do número de voos.

De forma geral, do universo de empresas do Ibovespa, quase metade apresentou números acima do esperado pelo consenso do mercado. O percentual é menor do que o visto no exterior, provável reflexo das incertezas e fraqueza econômica interna.

Até 16 de novembro, no S&P, 465 de 500 empresas haviam reportado resultados do 3º trimestre, 82% delas acima do esperado, com surpresa agregada de 9%. Na Nasdaq, 2809 de 3249 empresas reportaram, 58% delas acima do esperado, com surpresa de 18%. No Eurostoxx 600, 414 de 449 empresas reportaram, 56% delas acima do esperado, com surpresa de 8%.

Setorialmente, analistas apontaram alguns destaques. No varejo, de acordo com o time da XP Investimentos, os nomes discricionários focados no público de alta renda continuaram a reportar sólido crescimento de receitas e margens fortes, apesar de as empresas de vestuário também terem reportado crescimentos sólidos. Por outro lado, Via e Natura foram impactadas principalmente por anúncios realizados em conjunto com os resultados.

No setor de construção, de modo geral, o time de research da XP viu sólidos resultados em todos os segmentos (até mesmo para as incorporadoras de baixa renda), apesar do recente aumento dos custos de construção. Os analistas apontaram que pressões nas margens brutas das empresas começaram a estabilizar, com o aumento no preço das unidades e ajuste de mix de projetos permitindo ligeiro alívio nas margens.

Um aprendizado pontualmente relevante é que o mercado vive de expectativas. Portanto, às vezes nos deparamos com indagações tais como “mas a empresa deu lucro e a ação caiu”. Veja o caso da Braskem (BRKM5): lucro e geração de caixa fortes, mas a ação caiu no dia seguinte à divulgação do balanço. A explicação para o movimento se dá pela questão do que era esperado.

No final das contas, a reação do mercado é o que importa. Em geral, ela se dá de acordo com a comparação entre a expectativa e o fato realizado. Por exemplo: a empresa teve crescimento de 50% do lucro, mas as projeções apontavam alta de 100%. Ou seja, a ação pode cair em decorrência. Da mesma forma, se uma empresa cujo prejuízo foi de R$ 1 bilhão, mas da qual se esperavam perdas de R$ 1,2 bilhão, dá para dizer que o resultado foi “melhor que o esperado”, e a ação pode se valorizar.

Por fim, é interessante observar que, apesar da realização de lucros maiores no terceiro trimestre em relação a igual período do ano passado, a piora no cenário macroeconômico e a desvalorização de algumas commodities têm provocado ligeiras reduções nas projeções de lucros para daqui a 12 meses, assim como em 2022 e 2023.

Nota

Os textos e opiniões publicados na área de colunistas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a visão do Suno Notícias ou do Grupo Suno.

Alexsandro Nishimura
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