Gustavo Cruz

Os males da inflação global

Passamos por uma nova rodada de divulgação dos dados de inflação e os sinais observados não apresentam notícias muito promissoras sobre a trajetória dos preços em 2022

Passamos por uma nova rodada de divulgação dos dados de inflação e os sinais observados não apresentam notícias muito promissoras sobre a trajetória dos preços em 2022. Nos EUA, inflação está rodando em 8,3% em 12 meses, na Zona do Euro 7,5%, Reino Unido 7% e Brasil 12,13%. Inflação mais disseminada e persistente do que muitos previam. A meta brasileira é de 3,5%, enquanto a dos demais 2%, temos um problema.

Na abertura do CPI, o índice de preços ao consumidor, americano, as pressões de abril foram nas passagens aéreas, alimentos, moradia e veículos novos. Vamos entender cada um deles, pois 2 possuem fatores que podemos ligar a pontos internos, enquanto os demais possuem origem externa.

O verão americano começa em junho. Logo, é compreensível uma escalada nas passagens, para atingir o consumidor que deixou para planejar no último momento. Ainda mais contando que temos o primeiro verão com a população confiante, após dois anos receosa em viajar por conta da pandemia. Um comportamento sazonal da inflação.

A parte de moradia possui origem interna. Ao cruzarmos os dados de inflação com mercado de trabalho, payroll, vemos uma taxa de desemprego em 3,6%, praticamente o pleno emprego. Com uma economia aquecida com a reabertura e inúmeros pacotes de estímulos, faltam trabalhadores. A pesquisa das empresas independentes apontou que 40% dos empresários tentaram contratar sem sucesso. São cerca de 11,5 milhões de vagas em aberto nos EUA. Isso está levando o americano a se demitir. Foram 4,5 milhões em março, um recorde da série. A sensação de que se pode conseguir um emprego que pague mais corrobora com o payroll. Em abril de 2021 eram pagos US$ 30,2 por hora, contra US$ 31,85 em 2022. A economia aquecida eleva o preço de aluguéis país afora.

Antes de entrar nos dois fatores externos, vamos olhar o IPCA de abril no Brasil. Os dois principais fatores de pressão foram transportes (combustíveis) e alimentos, ambos também conectados ao cenário externo. A conta de luz voltou para a bandeira verde e deixou de ser um dos pilares de crescimento dos preços. Há um ano, estávamos com a maior seca em 90 anos, levando a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) a inaugurar a bandeira de escassez hídrica, cobrança extra na conta de luz. A ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) prevê que a conta de luz ficará sem cobrança extra até o final do ano. O nível dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste chegou a 65%, maior patamar em 10 anos. As regiões Norte e Nordeste também batem o recorde em uma década, próximos a 100% de capacidade. Até o Sul, que sofria com estiagem, está com 50%.

Voltando aos temas internacionais. China e o conflito Rússia x Ucrânia mostraram os efeitos de uma economia interligada. O primeiro efeito do conflito ocorreu no preço de combustíveis, em função de a Rússia ser responsável por 11% das exportações mundiais, segundo a OPEP. Os preços estão entre 54% e 59% mais altos em 12 meses.

O único motivo para a pressão aparecer na inflação brasileira de abril e não na americana é a defasagem. O aumento é transmitido praticamente no dia para a bomba de gasolina americana, enquanto no Brasil estamos observando uma pressão política grande para represar os repasses. Inclusive com troca de comando da Petrobras e de Ministro de Minas e Energia.

Rússia e Ucrânia também são países relevantes na produção de alimentos. O pão francês subiu 4,52% no IPCA de abril, enquanto o óleo de soja 8,24%. A Ucrânia é um dos grandes exportadores mundiais de milho, minério de ferro, trigo e óleo vegetal. Antes da guerra exportava 5 milhões de tonelada, enquanto agora está enviando 500 mil. O trigo sobe 47% em 12 meses, o óleo vegetal 43%.

Diante da escassez, os produtores brasileiros estão sendo abordados por importadores da África e Oriente Médio, levando a criar novos laços comerciais. Porém, encarecendo os produtos no mercado local. Para piorar, um dos maiores produtores de óleo vegetal do mundo, a Indonésia, adotou medidas protecionistas temendo a escassez interna. Na Europa, alguns mercados chegaram a limitar a quantidade de máxima de compra do produto por consumidor.

Olhando agora para a China, a política de covid-zero coloca mais de 200 milhões de habitantes em lockdown. Apenas 4,8% da população chinesa vive sem nenhum tipo de restrição, atualmente. Em outros momentos de aperto das autoridades, os portos de Xangai observaram filas de 180 navios. Agora as filas ultrapassam os 300. Com a dificuldade em transitar, o frete encarece, ocorre o atraso, que também gera filas em outros portos no mundo por atrapalhar a previsão de entrega.

Chegamos então aos novos veículos pressionando a inflação americana. Como temos a população chinesa em casa, as indústrias param. O que atrasa a produção de chips e semicondutores, setor que já sofria pressão antes da pandemia pelo crescimento acelerado da tecnologia. O governo sugere que as empresas montem alojamentos nas fábricas, para que seus funcionários morem no trabalho durante o surto de covid.

Ao contrário do que muitos candidatos vão afirmar, não existe um principal problema na inflação, ou uma solução simples e rápida. Adaptando a famosa frase de Garrincha, para estabilizar a inflação é preciso combinar com os russos.. E com os ucranianos… Os chineses… E os indonésios…

Nota

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Gustavo Cruz

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