Gian Kojikovski

O apagão de profissionais de TI e os riscos para a economia brasileira

Demora do governo para criar incentivos para formação de profissionais pode deixar empresas paradas no tempo

Imagino que boa parte dos que estão lendo essa coluna, quando jovens, ouviram conselhos dos pais para estudarem em faculdades de medicina, engenharia, direito, entre outras mais tradicionais. Há não muito tempo, fazia muito sentido, dada a demanda quase certa de mão de obra para as pessoas formadas nesses cursos.

Hoje, o cenário é bastante diferente. Não que essas profissões não sejam mais valorizadas – embora o mercado não seja mais tão certo como antes -, mas novas atividades relacionadas ao setor de tecnologia oferecem a mesma ou até mesmo mais estabilidade. Em vários casos, também possibilitam uma remuneração maior do que cursos mais convencionais.

Segundo estimativas da Brasscom (a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), até 2024 serão 421 mil postos de trabalho criados no setor de Tecnologia da Informação no Brasil. São mais de 100 mil novas vagas anuais, para um país que forma menos de 50 mil novos profissionais de TI por ano.

Mas a falta de mão de obra não é o único problema para as empresas brasileiras que procuram por profissionais como desenvolvedores e engenheiros de dados. A concorrência com as ofertas de emprego no exterior também é um alerta. Com todos os problemas no Brasil e uma moeda cada vez mais fraca, além das facilidades que a tecnologia (e, em partes, a pandemia) trouxe para o home office, profissionais do país se tornaram cada vez mais alvos de empresas da Europa e da América do Norte. Salários entre 5 e 7 e até 10 mil dólares viraram comuns para profissionais em meio de carreira. O fenômeno é parecido com o que países do sudeste asiático atravessaram na primeira década deste século.

Para dar um exemplo rápido, ainda antes da pandemia, a Alemanha, um dos destinos mais procurados por brasileiros, deu 1,5 mil vistos de trabalho para quem migrou do Brasil para trabalhar com ciência e tecnologia no país. Outros locais, como o Canadá, têm programas exclusivos para facilitar a migração de profissionais dessa área.

Essa inflação de salários e a escassez de mão de obra para empresas que necessitam de crescimento no setor de tecnologia são uma ameaça ao desenvolvimento do país. Profissionais de tecnologia da informação serão cada vez mais demandados ao longo dos próximos anos e, em um mercado cada vez mais global, terão espaço para trabalho em qualquer país do mundo. Se o Brasil demorar para fazer políticas públicas de incentivo à formação técnica nessas áreas, corre seriamente o risco de ter um apagão de profissionais e deixar todas as empresas que não são capitalizadas para concorrer com o exterior paradas no tempo. Isso seria muito ruim para a produtividade média do país e, por consequência, para a economia como um todo.

Nota

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Gian Kojikovski

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