Bolha de tecnologia? A Greenlight Capital diz que sim, e uma ‘enorme’

Bolha de tecnologia? A Greenlight Capital diz que sim, e uma ‘enorme’
Carta da Greenlight Capital indica que bolha de tecnologia já começou a estourar

Novembro está quase no fim e, ao que tudo indica, o Nasdaq Composite, caminha para mais um mês de ganhos expressivos. Mesmo em meio a uma pandemia combinada com uma crise econômica em escala mundial, o índice norte-americano, pesadamente ponderado em favor das empresas de tecnologia, vem consistentemente apresentando forte valorização. E, para a Greenlight Capital, tudo isso cheira a uma bolha de tecnologia.

No mês passado, o fundo de hedge Greenlight Capital, fundado pelo investidor David Einhorn, publicou sua carta trimestral aos investidores, na qual chamou atenção para o cenário atípico em que estávamos vivendo, inclusive uma “enorme bolha de tecnologia”.

Entre os destaques do documento, então uma ameaça de guerra civil após as eleições nos Estados Unidos (lembrando que as eleições no país aconteceram no início deste mês), os trilhões de dólares impressos, e o desempenho do ouro, que atraiu investidores como Warren Buffett, que até então zombava do metal precioso.

Mas nada se compara a defesa de que há um bolha financeira no mercado, sobre a qual a Greenlight salientou já haver um consenso.

“Nós identificamos de forma prematura o que pensávamos ser um bolha no início de 2016. Parte de nossa posição na época era de que o auge da bolha de 1999-2000 era uma experiência única na carreira e que os investidores não repetiriam esse nível de insanidade. Claramente, nós estávamos enganados.”

bolha de tecnologia
Capa da revista Barron’s de 14 de setembro exibida na carta da Greenlight Capital (Foto: Reprodução)

Todos os supostos sinais de uma bolha de tecnologia

Na visão do fundo de hedge norte-americano, “todos os sinais de uma bolha estão aí”, incluindo, por exemplo:

  • uma enxurrada de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês), que, para a Greenlight, parece mais como uma “mania“;
  • valuations extraordinários e novas métricas de avaliação, com a empresa pontuando que “todo comportamento pode encontrar uma racionalização”;
  • grande concentração de mercado em um único setor e em algumas poucas ações;
  • papéis de “segunda classe”, que a maioria das pessoas nunca ouviu falar, com capitalizações enormes, nível S&P 500;
  • o fato de que quanto mais fantasiosa e distante a narrativa, melhor se mostra o desempenho das ações;
  • companhias suspeitas de fraude apresentando desempenho acima do mercado, com a crença de que não existe risco;
  • reações exageradas a desdobramentos de ações economicamente irrelevantes;
  • aumento na participação de investidores de varejo, que parecem focados em grandes nomes do mercado;
  • volumes de negociações incríveis em instrumentos especulativos, como opções de compra semanais e ações ordinárias sem valor;
  • ascensão parabólica em direção a um topo.

Na carta, a Greenlight diz que existem muitas histórias no que concerne a um comportamento toppy, jargão financeiro utilizado para caracterizar altas insustentáveis em um mercado e o sentimento de que uma potencial correção é iminente.

Para ilustrar melhor o cenário, o fundo contou a história de um garoto que aplicou para um trabalho na empresa. No email, vinha escrito assim: “sou jovem, mas sou bom em investimentos”. O jovem de 13 anos havia quadruplicado seu capital desde fevereiro.

Para Greenlight, comparações com bolha passada são um erro

É comum diante da possibilidade de uma bolha, analistas e investidores começarem a comparar a conjuntura atual com aquela que resultou no estouro de uma bolha no passado.

Os valuations atingiram o nível de insanidade anterior? O número de IPOs é tão grande quanto? As companhias estariam mais bem posicionadas hoje? A taxa de crescimento foi maior? Há eventos específicos tais como nos momentos quando outras bolhas estouraram? Eles estariam próximos?

Essas foram perguntas enumeradas no documento da Greenlight. O hedge fund, no entanto, rejeita esse tipo de pensamento, pois, em seu visão, o que importa em uma bolha é o sentimento do mercado, não o valuation.

“Acreditamos que essas perguntas são uma missão tola. As bolhas nunca serão exatamente as mesmas. Em 2000, o Nasdaq atingiu o pico de 5.000. Por que não 4.000? Por que não 10.000? Ou 20.000? Realmente teria havido diferença? Se o Nasdaq tivesse atingido o pico de 3.500 em vez de 5.000, as perdas teriam sido de 65% ao invés de 80%. Se tivesse atingido o pico de 3.500, seria mais fácil argumentar que essa bolha ultrapassou aquela. Se tivesse atingido o pico de 20.000, seria mais fácil argumentar que ainda há um longo caminho a percorrer. Esta análise é arbitrária. Uma bolha só é perigosa quando excede a anterior em todas as métricas?”

“Em 10 de março de 2000, ninguém sabia que era a máxima. Mesmo em setembro de 2000, não estava claro. Não houve nenhum evento óbvio que marcou o topo. Só em retrospectiva as pessoas tentam encaixar uma explicação de volta”, conclui a Greenlight.

Bolha de tecnologia já começado a estourar

Em sua hipótese, que o fundo ressalta: “poderia ser refutada”, a bolha já teria começado a estourar. Nesse caso, o sentimento do investidor está em processo de mudança da ganância para a complacência, diz a carta.

A Greenlight aponta que o topo de sua previsão teria sido no último dia 2 de setembro, o que, um mês depois da divulgação da carta, se provou errado. O Nasdaq Composite atingiu sua máxima histórica na quarta-feira (25), antes do feriado de Thanksgiving, e renovou o recorde na sexta-feira (27).

Fato é que, tendo ou não uma bolha de tecnologia, o setor apresenta um rali estrondoso nos últimos meses. Se o mercado caminha em direção ao precipício e o que o espera é uma queda livre de quilômetros de altura, só o tempo poderá dizer.

Arthur Guimarães

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