A bolha anômala de Wall Street: Big Tech se tornou um problema?

A bolha anômala de Wall Street: Big Tech se tornou um problema?
Touro de Wall Street. Foto: Alexander Naumann, por Pixabay.

O coro de vozes pessimistas está ficando com um volume cada vez mais alto em Wall Street.

Gurus do mercado, gestores de fundos de hedge, personalidades da televisão e até autores de best-sellers financeiros estão todos alertando os investidores: Wall Street (mas em geral, todas as Bolsas de Valores do mundo) estão no centro de uma enorme bolha que pode estourar em qualquer momento.

Michael Burry, o gestor de fundos de hedge que previu a crise dos subprimes de 2008 e inspirou o livro e filme “A Grande Aposta”, disse isso no mês passado em sua conta no Twitter, para ser ouvido até mesmo por pessoas de fora do mundo das finanças.

Segundo, Burry, os mercados são “a maior bolha especulativa de todos OS tempos”.

O gestor fez questão de usar a caixa alta em seu tweet, já que o S&P 500, o principal índice dos EUA, está em níveis recordes, e o Nasdaq Composite, o termômetro da indústria de tecnologia, ganhou 16% este ano e também está próximo de seu nível recorde.

Nos mercados financeiros da Europa, a situação é um pouco mais calma.

Entretanto, mesmo por lá, os índices financeiros não estão longe de níveis jamais registrados antes.

Por exemplo, o FTSE 250 de Londres, que reúne empresas de capitalização média, atingiu novos máximos na semana passada.

Outros três elementos confirmam a sensação de estar em um momento de loucura para os mercados são:

  • valuation muito esticadas das ações;
  • loucura coletiva de pequenos investidores americanos por “ações-memes” sem cabo nem rabo;
  • a corrida do ouro por criptomoedas.

Bolha especulativa vai estourar?

O problema é que as palavras alarmantes de Michael Burry e colegas, mesmo se confirmadas pelos números perturbadores das Bolsas de Valores, não são muito úteis para os investidores.

Isso pois não nos dizem quando (e se) a bolha estourará.

Os veteranos do mercado adoram repetir um provérbio antigo e sangrento: “Os touros (otimistas) ganham dinheiro, os ursos (pessimistas) ganham dinheiro, os porcos vão para o matadouro”.

Ou seja, não basta saber que você está dentro de uma bolha especulativa.

É preciso saber que tipo de bolha é e quanto tempo vai durar antes que estoure.

Wall Street, temos um problema

Essas questões são ainda mais importantes nos mercados de hoje porque, ao contrário do passado, poucos gestores de fundos tentam “vencer” o mercado.

A grande maioria prefere seguir índices como ovelhas.

Tanto que o valor dos fundos de índice no S&P 500 atingiu a impressionante marca de US$ 5,4 trilhões no final de 2020.

A popularidade de fundos que seguem passivamente os mercados aumenta as apostas.

Quando os mercados colapsarão, as feridas serão mais graves e mais amplas do que em outros crashes históricos.

Ao mesmo tempo, aqueles que querem “descer do bonde” dos fundos indexados para evitar e acabar como “os p0rcos” terão que fazê-lo no momento certo.

Perde dinheiro seja quem sai cedo demais que os que ficam tarde demais.

A realidade é que certamente estamos em uma bolha especulativa.

Todavia, por enquanto, é uma bolha muito “apertada”. Uma bolha limitada a poucos setores e concentrada em um país: os Estados Unidos.

Se o cenário macroeconômico se mantiver e os bancos centrais e governos continuarem a injetar estímulos na economia mundial, é possível que pelo menos alguns mercados permaneçam em alta ​​por algum tempo.

Cinco testes para individuar uma bolha

Segundo Richard Bernstein, um dos analistas mais respeitados e sofisticados de Wall Street, dono da Richard Bernstein Advisors, “a especulação financeira está claramente se infiltrando na sociedade”.

Segundo ele, estamos claramente em uma bolha.

Os mercados, de acordo com Bernstein, passaram nos cinco testes fundamentais de cada bolha:

  • aumento da liquidez;
  • aumento da dívida;
  • aumento do número e tipo de pequenos investidores;
  • aumento nas emissões de capital;
  • aumento do volume diário do mercado.

Esses indicadores estão todos confusos por várias razões.

Mas uma é a causa de todos os males: a injeção gigantesca de liquidez por parte dos bancos centrais e governos.

Uma massa de dinheiro jamais vista na história da humanidade, que só poderá inflamar os mercados.

É um efeito colateral indesejado, por razões financeiras e sociais, pois aumenta as desigualdades incrementando os valores dos ativos (portanto, “ajuda” os ricos).

Mas também é algo intransponível, devido aos esforços institucionais do mundo inteiro para evitar uma recessão global.

A situação geral não é boa. Mas os detalhes dão esperança: nem todos os setores estão dentro da bolha.

De fato, de acordo com Bernstein, apenas três setores do S&P 500 se saíram melhor que o mercado nos últimos três anos “e estão no centro da bolha”:

  • tecnologia;
  • serviços de comunicação;
  • consumo de bens não necessários.

Os motivos para esse desempenho são todos devidos à pandemia do novo Coronavírus (Covid-19).

Resumindo: todos trancados em casa usando tecnologia e mídia para fazer compras online.

Nem tudo em Wall Street è bolha

Outros setores cresceram muito menos e, portanto, são menos arriscados.

Por exemplo, o setor de energia, que chegou a cair mais de 15% de 2018 até hoje.

O Russell 2000, o índice das pequenas empresas dos Estados Unidos e as bolsas de valores europeia e asiática são outros exemplos de mercados que não foram atingidos pela bolha especulativa.

Em tese, o caminho para navegar nesses mercados é simples: foco nos setores “chatos” – energia, finanças, indústria – pequenas empresas e mercados “estrangeiros”, deixando de lado Big Tech, Zoom e afins.

O problema é que existem relativamente poucos gestores que desviam da indexação.

Menos ainda são aqueles que conseguiram superar os mercados na última década.

O que torna essas estratégias ainda mais arriscadas.

Especialmente para os pequenos poupadores que não querem arriscar as economias de uma vida inteira.

A bolha está aí, mesmo que não interesse toda Wall Street e mesmo se não estourará imediatamente. Mas, depois de anos de calma, é hora de pensar em como se proteger quando o vento mudará.

Carlo Cauti

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