Culpa do dólar e da chuva? Veja quem é responsável pela inflação de 10%, segundo Campos Neto

Culpa do dólar e da chuva? Veja quem é responsável pela inflação de 10%, segundo Campos Neto
Consenso de mercado ainda espera uma alta de 100bps na Selic na reunião de maio - Foto: Agência Brasil.

O Banco Central (BC) divulgou nesta terça-feira (11) uma carta aberta enviada pelo presidente da instituição, Roberto Campos Neto, ao presidente do Conselho Monetário Nacional (CMN), o ministro Paulo Guedes, justificando os motivos que levaram a inflação a ficar acima da meta em 2021. No documento, também sinaliza aperto monetário para 2022.

O IPCA, o índice oficial de inflação, terminou o ano passado em 10,06%, 4,81 pontos porcentuais acima da banda superior do objetivo a ser perseguido pelo BC (5,25%) – o maior desvio em quase 20 anos, já que, em 2002, o “estouro” foi de 7,03 pontos porcentuais.

O BC explicou em carta que isso se deve a três fatores principais: a forte elevação dos preços de bens transacionáveis em moeda local, em especial os preços de commodities, a bandeira de energia elétrica de escassez hídrica e os desequilíbrios entre demanda e oferta de insumos, tal como gargalos nas cadeias produtivas globais.

Na carta, Campos Neto frisou a influência da pandemia sobre o desvio da inflação e fez questão de destacar que a aceleração inflacionária para níveis superiores à meta foi um fenômeno global no ano passado.

Pressões sobre preços de commodities e nas cadeias produtivas globais

“As pressões sobre os preços de commodities e nas cadeias produtivas globais refletem as mudanças no padrão de consumo causadas pela pandemia, com parcela proporcionalmente maior da demanda direcionada para bens e impulsionada por políticas expansionistas. Esses desenvolvimentos, que ocorreram em nível global, geraram excesso de demanda em relação à oferta de curto prazo de diversos bens, causando um desequilíbrio que, em diversos países e setores, foi exacerbado por falta de mão-de-obra, problemas logísticos e gargalos de produção.”

Conforme o Boletim Focus, o descumprimento da meta de 2021 já era esperado desde maio do ano passado, em meio ao forte encarecimento dos combustíveis, energia elétrica, e bens industriais, que depois se disseminou pelos demais preços da economia, inclusive de serviços. Naquela época, porém, o Comitê de Política Monetária (Copom) ainda insistia na avaliação de que o choque de preços seria temporário, mesmo depois de seguidos meses de surpresas de alta no IPCA.

Campos Neto destacou, por exemplo, que a alta dos preços administrados, em meio ao avanço do petróleo e à crise hídrica, só ficou atrás dos anos de 1999 e 2015.

Destacou que o aumento dos preços de commodities em reais, o aumento da energia elétrica e os desequilíbrios na cadeia de bens provocados pela pandemia de covid-19, fatores principais para o rompimento da meta, se traduziram em “grandes variações em diferentes componentes” de preços.

O presidente do BC citou que o aumento dos preços administrados (16,90%), com contribuição de 4,34 pontos porcentuais para o IPCA de 2021, só foi menor que nos anos de 1999 e 2015, refletindo os aumentos de combustíveis e energia elétrica. “Os preços de gasolina, gás de bujão e energia elétrica residencial subiram 47,49%, 36,99% e 21,21% (contribuições de 2,33 p.p., 0,41 p.p. e 0,98 p.p.), respectivamente. O preço do etanol subiu 62,24%, acima dos demais combustíveis, refletindo também a quebra na safra de cana-de-açúcar”, citou.

Ele ainda mencionou que o aumento de bens industriais (12%) e alimentação no domicílio (8,23%), contribuições de 2,75p.p. e 1,25p.p., respectivamente, foram bastante afetados pelos preços de commodities e os gargalos globais nas cadeias produtivas. Campos Neto também citou o aumento de 4,75% dos preços de serviços, com contribuição de 1,72 ponto porcentual.

No documento, o presidente do BC lembra que a inflação de serviços foi particularmente afetada pela pandemia de covid-19, refletindo em boa medida a evolução do distanciamento social, com o grupo atingindo o mínimo histórico de 0,95% no IPCA em 12 meses até agosto de 2020, fechando aquele ano em 1,73%. Contudo, com a reabertura econômica propiciada pelo avanço da vacinação, os preços de serviços começaram a se recompor este ano.

“Em outras palavras, uma parcela da inflação de serviços em 2021 está relacionada à normalização, em nível, de preços que estavam deprimidos em decorrência dos impactos específicos da crise sanitária”, disse Campos Neto, na carta.

“Inflação importada”

Na carta, Campos Neto destacou ainda que o principal fator para o desvio de 6,31 pontos porcentuais em relação ao centro da meta de 2021 (3,75%) foi a inflação importada, com contribuição de 4,38 pontos porcentuais, ou cerca de 69% do total.

“Abrindo esse termo, destacam-se as contribuições de 2,95 p.p. do preço do petróleo, 0,71 p.p. das commodities em geral, medidas pelo Índice de Commodities – Brasil (IC-Br), e 0,44 p.p. da taxa de câmbio”, explicou ele.

Conforme Campos Neto, a inércia da inflação do ano anterior teve contribuição de 1,21 ponto porcentual e a bandeira tarifária de energia elétrica, de 0,67 ponto porcentual, refletindo a adoção da bandeira escassez hídrica com a seca registrada no País no ano passado. A bandeira escassez hídrica, adotada em setembro, custa R$ 14,20 em tarifa adicional a cada 100 quilowatt-hora utilizados pelo consumidor.

O presidente do BC ainda afirmou que as expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus contribuíram com 0,25 ponto porcentual da inflação em relação à meta. No modelo, ainda são considerados “demais fatores”, como a variação do IGP-M, e questões específicas ligadas a medicamentos, plano de saúde e anomalias climáticas, mas que não foram destrinchadas por Campos Neto.

Ele ainda mencionou que, no modelo desagregado de pequeno porte, encontra-se que os preços de bens industriais contribuíram com 1,77 ponto porcentual para o IPCA de 2021, “refletindo os problemas logísticos e os desequilíbrios entre oferta e demanda globais”.

Em sentido oposto, o hiato do produto estimado negativo, ou seja, o nível de atividade econômica abaixo do crescimento potencial, teve contribuição de baixa de 1,21 ponto porcentual em 2021. “Portanto, de acordo com essa decomposição, houve uma combinação de choques de custos que foi contrabalançada parcialmente pelo hiato do produto negativo”, sintetizou Campos Neto.

Trajetórias da inflação e da Selic

Considerando as trajetórias da inflação e da Selic pelo Relatório Focus de expectativas de mercado, Campos Neto destaca que a taxa média real de juros passou de -1,3% no último trimestre de 2020 para 4,4% no último trimestre de 2021. O BC projeta que a taxa real de juros chegará a 6,3% no primeiro trimestre de 2022 e a 6,4% no segundo trimestre deste ano.

No documento, Campos Neto cita as projeções do Relatório Trimestral de Inflação de dezembro, de um IPCA de 4,7% em 2022, 3,2% em 2023 e 2,6% em 2024. Apenas neste ano, a queda projetada pelo BC na inflação é de 5,4 pontos porcentuais. Para 2022, o centro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3,50%, com tolerância de 1,5 p.p. (2,00% a 5,00%).

“O cenário é de convergência da inflação para as metas ao longo do horizonte relevante. Nesse cenário, em 2022, a inflação ainda se mantém superior à meta, embora dentro do intervalo de tolerância, em virtude dos efeitos inerciais da inflação de 2021. Esses efeitos são contrabalançados pela política monetária, embora não de forma integral, em virtude das diferenças temporais entre os impactos inerciais dos choques, de prazo mais curto, e os efeitos da política monetária, mais concentrados no médio prazo”, argumenta o presidente do BC na carta.

Campos Neto repete ainda no documento o comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que elevou a Selic para 9,25% ao ano em dezembro, destacando ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. Ele também mantém a sinalização de um novo aumento de 1,5 p.p. na reunião de fevereiro, para 10,75% ao ano. “O Comitê irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, repete a carta.

BC tem calibrado juros e ‘continuará a fazê-lo’, diz Campos Neto

“O BC tem calibrado a taxa básica de juros, e continuará a fazê-lo, com vistas ao cumprimento das metas para a inflação estabelecidas pelo CMN”, destacou Campos Neto, no documento.

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, criado em 1999, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

Embora tenha mantido a avaliação de que os choques inflacionários eram temporários até junho do ano passado, o BC alega na carta que, desde o fim de 2020, já havia iniciado mudanças em sua comunicação, com o início do ciclo de alta da Selic já no primeiro trimestre de 2021, com a alta da taxa básica de juros de 2,00% para 2,75% ao ano em março. Ao longo de sete reuniões, a Selic foi elevada em 7,25 pontos porcentuais, encerrando o ano em 9,25% ao ano.

“Durante o ano, o Copom recalibrou seu orçamento e ritmo do ajuste de política monetária, em resposta aos desenvolvimentos econômicos que impactaram negativamente suas projeções e à deterioração das expectativas de inflação, com vistas a garantir a convergência da inflação para as metas ao longo de seu horizonte relevante. Vale notar que o cenário econômico de recuperação posterior à pandemia de covid-19 tem sido marcado por incerteza e volatilidade acima das usuais, o que tem se refletido nas surpresas inflacionárias de todo o mundo”, argumentou Campos Neto, no documento.

Inflação deve seguir acima da meta em 2022

O Banco central confirmou que continuará a calibrar a taxa de juros em 2022. Segundo a autoridade financeira, a expectativa é que atinja as metas para a inflação estabelecidas pelo CMN, de 3,50% para 2022, 3,25% para 2023 e 3,00% para 2024.

As projeções condicionais do BC são de que a inflação entre em trajetória de queda já no início de 2022, terminando o ano em patamar significativamente inferior ao de 2021.

No entanto, afirma que em 2022 “a inflação ainda se mantêm superior à meta, embora dentro do intervalo de tolerância, em virtude dos efeitos inerciais da inflação de 2021″.

O Copom considera que, diante do aumento de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário avance significativamente em território contracionista. O Comitê irá prosseguir com a estratégia até que ocorra a ancoragem das metas.

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

A última carta enviada pelo BC para justificar o descumprimento da meta de inflação foi relativa ao ano de 2017, mas, daquela vez, o presidente à época, Ilan Goldfajn, teve de explicar o porquê de a inflação ter ficado aquém da meta, em 2,95%. Além de 2015 e 2002, o limite superior da meta também foi rompido em 2001 e 2003.

(Com informações da Agência Estado)

Bruno Galvão

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