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IPO da 3tentos (TTEN3): Saiba por que o agro está invadindo a Faria Lima

IPO da 3tentos (TTEN3): Saiba por que o agro está invadindo a Faria Lima
Agronegócio. Foto: Pixabay

Apesar de ser um setor representativo na economia nacional, o agronegócio ainda não é muito presente na Bolsa. No entanto, com a recente alta das commodities, o setor passa pelo melhor momento da última década. O panorama tem mudado e a Faria Lima vai acompanhar. Hoje, por exemplo, marca a estreia da gaúcha 3tentos (TTEN3) na B3.

Na última quarta-feira (7), a 3tentos precificou suas ações a R$ 12,25 e irá movimentar R$ 1,3 bilhão em sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Quase 90% da oferta é primária, abastecendo o caixa da empresa.

Os recursos líquidos serão direcionados a uma nova planta no Mato Grosso, além de reforço do capital e giro e abertura de novas unidades. A 3tentos segue a palavra de ordem para as empresas do agro nos últimos meses: expansão.

A chegada à B3 tem se mostrado uma tendência para o setor, que vê o mercado de capitais como aliado na onda da demanda por commodities agrícolas, sobretudo das economias que caminham a passos largos para o pós-pandemia.

Confira outras empresas do setor que captaram recursos, além da 3tentos

Em abril deste ano, a Boa Safra (SOJA3) movimentou quase R$ 500 milhões com a abertura de capital.

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), de Piracicaba (SP), que atua com soluções agrícolas e industriais para o setor sucroenergético, está na fila, assim como a Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA).

“Vejo que as empresas enxergarem o mercado de capitais como forma de funding agora é uma tendência”, comenta Rodrigo Amato, fundador e CEO da Laqus, antiga Mark 2 Market. “Isso é fruto de companhias seguindo umas às outras, processo iniciado pelas mais estruturadas e já anteriormente listadas.”

As tradicionais Kepler Weber (KEPL3), BrasilAgro (AGRO3) e SLC (SLCE3), listadas na B3 há mais tempo, lideram o mais resiliente setor econômico do Brasil. Parte delas o exemplo de que um segmento tradicional também pode surfar o crescimento da Bolsa no País, assim como a 3tentos está tentando fazer.

“Novos players começam a entender que acessar o mercado com a emissão de ações também é uma opção”, cita Amato. “As empresas que recentemente receberam aportes de grandes fundos, melhorando sua governança, querem aproveitar a janeira de liquidez, com o cenário macroeconômico favorável.”

Agronegócio cada vez mais sustenta o PIB brasileiro

O bom desempenho do setor deve fazer com que a participação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ultrapasse 30% neste ano.

A projeção, realizada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) no mês passado, evidencia o ciclo favorável das commodities, impulsionado pela pandemia.

A pesquisa destaca que, após alcançar crescimento recorde no ano passado, o PIB do agronegócio cresceu 5,35% no primeiro trimestre deste ano, contra 1,2% do restante da economia. Entre as razões, estão o crescimento de quase 8% do ramo agrícola, compensando a baixa de 1,96% na pecuária.

“O crescimento das empresas do agronegócio no Brasil acompanha o forte aumento na demanda mundial por produtos visando o fechamento e o descompasso ocorrido durante a pandemia da Covid-19 entre oferta e demanda“, comenta Regis Chinchila, analista da Terra Investimentos.

Para ele, a evolução da vacinação em massa “certamente projetará a recuperação da economia no Brasil”.

Em 2020, o agro correspondeu a 26,6% de toda a economia brasileira, movimentando R$ 2 trilhões. O crescimento relativo de quatro pontos percentuais de um ano para outro é relevante e salta aos olhos do mercado financeiro.

A representatividade que foi embora da Bolsa

Apesar do IPO da 3tentos chamar atenção, o campo já foi mais representado na Bolsa brasileira. No setor de fertilizantes, antiga Manah, Iap e Adubos Trevo já foram listadas.

Em grãos, Ceval e Olvebra já foram opções de investimento.

Na visão de Eduardo Cavalheiro, gestor da Rio Verde, essa falta de representatividade na Bolsa é resultado de alguns problemas. “O mais claro deles diz respeito à volatilidade de resultados, com anos bons e ruins, que é muito típico do segmento.”

Nos últimos anos, cita ele, as empresas têm ficado mais atentas a esse movimentos e formulam operações para suavizar os ciclos e trazer mais previsibilidade.

“A São Martinho (SMTO3) é um belo exemplo disso. Ela dá lucro independentemente do preço do açúcar. Ela tem um mecanismo efetivo de hedge para suavizar as curvas de resultado.”

Retomada de captações do campo está no começo

Na visão dos especialistas, as empresas têm aproveitado o espaço de captação de recursos por conta do bom momento das commodities, que trazem retornos e margens maiores, o que possibilita uma maior alavancagem.

Tradicionalmente, as companhias do setor têm o costume de acessar o mercado de dívida de forma mais recorrente. De certa forma, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) justificam a falta de adesão à Bolsa, mas isso tem mudado.

Recentemente, o Congresso derrubou os vetos do governo federal ao projeto que cria os Fundos de Investimentos das Cadeias Agroindustriais (Fiagro). A proposta é entendida como um incentivo à entrada de produtores no mercado de capitais e à investidores interessados no setpr, além de alternativa ao crédito rural no país.

Por mais que a taxa básica de juros da economia (Selic) esteja em um ciclo de alta, ainda está em níveis convidativos aos investidores, fomentando a procura por risco. Se há cinco anos 500 mil pessoas investiam na Bolsa, hoje o número já está em quase 4 milhões.

“O mercado de ações sempre será uma forma ‘barata’ de capitalização para as empresas e financiamento de novos negócios e projetos”, diz Chinchila, que cita as chegadas de Boa Safra, 3tentos e Raízen como só o começo deste processo.

Outras empresas devem seguir os passos da 3tentos

Movimentos de ofertas secundárias e fusões também devem ficar no radar dos investidores, pois é uma possibilidade na visão dos especialistas. Recentemente, isso ocorreu com a Biosev e Cosan (CSAN3), no setor sucroalcooleiro. Além da 3tentos, outras empresas que podem chegar à B3 em pouco tempo, segundo o analista da Terra, são:

  • Grupo Vitta;
  • Pif Paf;
  • Super Frango;
  • Agrogalaxy.

Para os investidores, comenta Chinchila, “o IPO é uma oportunidade de comprar ações em um momento estratégico e lucrar com o crescimento da empresa, seguindo a expectativa de crescimento do agronegócio no Brasil.” O mercado ficará de olho hoje na estreia da 3tentos na B3.

(Colaborou Natalia Gómez)

Jader Lazarini

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