Paulo Albuquerque

O que houve com o portfólio 60/40?

Esse modelo preconiza uma alocação de 60% dos ativos em renda variável e 40% em renda fixa. Por décadas, representou a sabedoria convencional sobre diversificação, mas agora vem sendo questionado. Entenda os motivos

“Não existe almoço grátis” é uma das afirmações mais comuns no mercado de capitais. Uma exceção a esse ditado é atribuída ao Prêmio Nobel Harry Markowitz, que seria o autor da frase “diversificação é o único almoço grátis”. Ao construir uma carteira de investimentos, é fundamental considerar a diversificação como uma estratégia para reduzir riscos e maximizar retornos. Nesse contexto, o modelo de portfólio 60/40 tem sido amplamente adotado por investidores ao redor do mundo. Esse modelo preconiza uma alocação de 60% dos ativos em renda variável e 40% em renda fixa. Por décadas, esse modelo representou a sabedoria convencional acerca da diversificação, mas agora vem sendo questionado, pois gerou perdas imensas aos investidores, sobretudo no ano passado.

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A teoria por trás do funcionamento do modelo 60/40 está relacionada à diversificação em classes de ativos negativamente correlacionadas. A ideia é que, em um portfólio com uma combinação de ações e títulos de renda fixa, os retornos obtidos em uma classe de ativos possam compensar as perdas na outra classe, levando a uma maior estabilidade geral do portfólio.

A alocação de 60% em renda variável visa capturar os ganhos potenciais proporcionados pelo mercado acionário, que historicamente, nos Estados Unidos, apresenta um desempenho superior ao longo do tempo. Os investimentos em ações oferecem a oportunidade de participar dos lucros e dividendos das empresas, bem como do crescimento do valor das ações. No entanto, o mercado acionário também está sujeito a flutuações e volatilidade, o que pode resultar em perdas significativas.

Por outro lado, a alocação de 40% em renda fixa busca proporcionar estabilidade e proteção contra a volatilidade do mercado. Os títulos de renda fixa, como títulos do governo ou corporativos, oferecem retornos previsíveis e estão sujeitos a menor volatilidade em comparação com as ações. Essa porção do portfólio pode fornecer renda regular na forma de juros e pagamentos de cupons, além de funcionar como um amortecedor durante períodos de queda do mercado acionário.

Historicamente, as duas classes de ativos comportam-se de forma oposta, denotando uma correlação negativa entre elas. Em momentos de alta do mercado acionário, os retornos provenientes das ações tendem a superar os retornos dos títulos de renda fixa. Já em momentos de queda do mercado, a renda fixa pode oferecer proteção, uma vez que os investidores buscam refúgio em ativos mais seguros, reduzindo assim o impacto negativo das perdas nas ações.

Esse modelo de portfólio foi amplamente utilizado ao longo das décadas e considerado uma estratégia eficaz devido aos retornos históricos positivos e à diversificação proporcionada pela combinação de ações e títulos de renda fixa. No entanto, é importante ressaltar que não há garantia de que esse modelo continuará funcionando no futuro. E é exatamente isso que ocorre no momento.

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Entre as várias razões pelas quais o modelo 60/40 pode parar de funcionar, uma delas é a mudança nas condições macroeconômicas. Recentemente, as taxas de juros nos Estados Unidos subiram repentinamente de 0% para 5% em pouco mais de 12 meses, após o longo período de 15 anos em níveis historicamente baixos. Essa mudança afetou dramaticamente a correlação histórica entre as classes de ativos, reduzindo ou mesmo eliminando os efeitos positivos da diversificação.

O que ocorreu foi o seguinte. Na prática, a taxa básica de juros é considerada o ativo livre de risco em uma economia. Quando essa taxa sobe, os investidores demandam maior retorno do mercado acionário para compensar o maior risco ao qual estão expostos. No mercado, isso se reflete na queda dos preços das ações, já que os investidores exigem um desconto maior para investir nelas. Essa relação é bastante intuitiva para quem entende um pouco sobre correlações, pois as classes de ativos caminham em sentidos opostos. Se os juros sobem, as ações caem, e vice-versa.

O lado menos óbvio é que, quando os juros sobem, os preços dos títulos de renda fixa pré-fixados também caem.

E nos Estados Unidos, a maior parte do mercado de renda fixa é composta por títulos pré-fixados. Em outras palavras, quando os juros sobem, os títulos pré-fixados são marcados a mercado a preços menores. Acontece o mesmo fenômeno que ocorre com as ações. Se o investidor está com dinheiro disponível, buscando alocação em renda fixa, por que ele compraria um título com a taxa de juros “antiga” (menor) em vez de comprar um título que remunere com a taxa de juros “atual” (maior)? Para equalizar essa questão, todos os títulos pré-fixados em circulação sofrem queda nos preços, ajustando sua remuneração justa à nova taxa de juros vigente.

O que temos visto desde o ano passado, com a impressionante alta da taxa de juros americana, é que a correlação entre renda variável e renda fixa se perdeu momentaneamente. Desse modo, ambas as classes passaram a se movimentar na mesma direção. Com a alta dos juros, tanto as ações quanto os títulos de renda fixa caíram, de modo que a diversificação não promoveu os benefícios esperados.

A lição que fica é que, em momentos de estresse econômico, os ativos podem descorrelacionar, deixando de servir de proteção uns aos outros. Os investidores devem estar preparados para ajustar suas estratégias de acordo com as condições de mercado e buscar orientação profissional para tomar decisões informadas.

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Nota

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Paulo Albuquerque
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