Celulose ensaia recuperação, mas China pode colocar freio; veja ações favoritas

A celulose começou setembro com sinais de recuperação, mas ainda enfrenta obstáculos para sustentar uma alta mais forte. Essa é a leitura da análise da XP Research, assinada por Lucas Laghi, Guilherme Nippes e Fernanda Urbano.

Segundo o relatório, o preço da celulose de fibra curta na China, conhecida como BHKP, estabilizou-se em cerca de US$ 560 por tonelada. O movimento estimulou novas compras, ajudou na recomposição dos estoques e levou produtores a anunciar aumentos de US$ 20 por tonelada para setembro.

A melhora, porém, pode ser passageira. Os analistas esperam que o momento positivo continue em outubro, mas avaliam que ainda há pouco espaço para uma recuperação mais consistente no médio prazo.

Celulose ganha fôlego, mas ainda não virou tendência

A estabilização dos preços chineses veio acompanhada de estoques menores de madeira e de uma procura um pouco mais firme por parte das fábricas de papel. A sazonalidade também ajuda, já que determinados períodos do ano costumam favorecer as compras e o reabastecimento da cadeia.

Outro ponto positivo é a oferta limitada de celulose nova no terceiro trimestre de 2026. Com menos produto adicional chegando ao mercado, os preços encontram algum suporte.

A celulose BHKP é produzida principalmente a partir de madeira de eucalipto e usada na fabricação de papéis, embalagens e produtos de higiene. Já a fibra longa, chamada de NBSK, costuma ser produzida com madeira de coníferas. Para setembro, os fornecedores anunciaram aumento de US$ 10 por tonelada no preço da NBSK.

https://files.sunoresearch.com.br/gaia/uploads/2026/01/Banner-Materias-01-Dkp_-1420x240-1.png

Mesmo com os reajustes, a rentabilidade das fábricas de papel na China continua muito fraca. Isso limita a capacidade de repasse de custos e reduz o espaço para aumentos mais agressivos da matéria-prima.

O problema está na China

A China segue no centro da equação global da celulose. Embora as importações chinesas de celulose para fabricação de papel tenham caído 10% em julho, a produção doméstica continua resistente.

O motivo é o avanço das empresas integradas, que produzem a própria celulose e dependem menos das compras no mercado internacional. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas de papel e papelão continuam crescendo, enquanto algumas fábricas estão convertendo linhas de papéis mais simples para embalagens.

Na prática, parte da capacidade está sendo deslocada para outros produtos, e não necessariamente retirada do mercado.

O relatório destaca que cerca de 6,8 milhões de toneladas de nova capacidade integrada de celulose devem entrar em operação na China entre o quarto trimestre de 2026 e 2027. Além disso, os projetos Oki II, da APP, e Sucuriú, da Arauco, estão previstos para começar a produzir em 2027.

Esse aumento da oferta própria pode reduzir a demanda chinesa por celulose de mercado, justamente aquela negociada entre produtores e compradores independentes.

https://files.sunoresearch.com.br/gaia/uploads/2026/01/DT-PS-HOME-DE-ARTIGOS-1420x240-ID_01_x1.jpg

Outro sinal de alerta está nos custos. Segundo as estimativas do relatório, produtores chineses que usam madeira doméstica têm custo marginal próximo de US$ 530 por tonelada. Os que dependem de madeira importada operam perto de US$ 570, enquanto o preço da celulose está em torno de US$ 560.

Se os preços dos cavacos de madeira continuarem caindo, produtores com matéria-prima doméstica podem ganhar margem para reduzir os preços da celulose.

Exportações brasileiras recuam em agosto

Os dados mais recentes também mostram um cenário misto na América Latina. As exportações brasileiras de celulose caíram 3% na comparação anual em agosto e recuaram 17% ante julho.

A celulose solúvel, usada principalmente na produção de fibras para tecidos e outros materiais, foi uma exceção e teve alta de 156% na comparação anual.

No Chile, os embarques caíram 13% em relação a julho, mas ainda ficaram 13% acima do registrado um ano antes. No Uruguai, as exportações recuaram 2% em julho e ficaram praticamente estáveis na comparação anual.

Na China, os estoques nos portos diminuíram 1% em julho, mas ainda estavam 9% acima do nível observado no mesmo mês de 2025. Ou seja, houve algum alívio, mas o volume armazenado continua elevado.

https://files.sunoresearch.com.br/gaia/uploads/2026/01/Ebook-Acoes-Desktop.webp

Suzano, Klabin e Irani aparecem como favoritas

Mesmo diante das incertezas, o relatório mantém recomendação de compra para as três empresas brasileiras acompanhadas.

Para a Suzano (SUZB3), a análise considera preço de referência de R$ 46,89 e estabelece preço-alvo de R$ 66, indicando potencial de valorização de 41%.

A Klabin (KLBN11) aparece com preço de referência de R$ 19,47 e preço-alvo de R$ 25, o que representa um potencial de alta de 28%.

Já a Irani (RANI3) tinha preço de referência de R$ 7,66 e preço-alvo de R$ 10, indicando potencial de valorização de 31%.

Os valores são os utilizados no relatório e não representam cotações em tempo real. Além disso, uma recomendação de compra não elimina riscos de mercado, de execução ou de oscilação dos preços internacionais.

Para o investidor, os principais indicadores a acompanhar são os preços da celulose na China, os estoques nos portos, o custo da madeira e a entrada de novas fábricas. Uma recuperação pontual pode ajudar as empresas do setor, mas a expansão da oferta chinesa ainda pode limitar a duração desse movimento.

Maíra Telles

Compartilhe sua opinião