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BlackRock: CEO vê ESG como permanente e Brasil beneficiado por liquidez mundial

Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil - Foto: Divulgação

Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil

Com US$ 8,6 trilhões sob gestão em todo o mundo, a BlackRock tem força de sobra para pautar discussões sobre o mercado de capitais e, sempre que algum executivo fala, outros agentes fazem questão de ouvir. Em entrevista exclusiva ao SUNO Notícias, o diretor-presidente (CEO) da gestora norte-americana no Brasil, Carlos Takahashi, afirmou que vê o País como possível beneficiário da liquidez mundial e que o ESG deve se tornar uma pauta ainda mais presente.

Para o CEO da BlackRock no Brasil, a economia mundial está sendo irrigada com rios de liquidez oriundos, principalmente, dos EUA. Desta forma, o mercado financeiro não deve continuar a sofrer por longos períodos, mesmo em meio ao endurecimento da pandemia causada pelo novo coronavírus (covid-19), e o Brasil pode se aproveitar disso.

“As economias tiveram um fluxo de liquidez muito forte e esse fluxo vai ajudar [a retomada]. O mercado financeiro não sofreu tanto porque você tem essa liquidez buscando onde se acomodar. Com a vacinação já em uma fase adiantada, a economias tendem a crescer em uma velocidade muito grande e o Brasil pode ser beneficiado com isso”, disse.

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A maior gestora do mundo também vem pautando algumas discussões no mercado mundial. Talvez a principal delas seja sobre o ESG (sigla para os temas meio ambiente, social e governança), que para a BlackRock, é mais do que apenas uma tendência passageira, mas uma baliza de risco e retorno.

No início do ano passado, a gestora divulgou uma carta emblemática, afirmando que iria desinvestir dos ativos com alto risco de sustentabilidade, além de endereçar as questões de governança e tratamento da força de trabalho.

No documento, a BlackRock deixou claro que iria votar contra a administração e os diretores quando as empresas não estivessem progredindo em divulgações relacionadas à sustentabilidade. Anunciada durante o Fórum Econômico Mundial de 2020, a carta da BlackRock foi um marco para o ESG no mundo.

Segundo Takahashi, na análise de governança, as más práticas trazem um risco enorme. “Quanto tempo a Vale (VALE3) pagou e apanhou pelas tragédias em Minas Gerais? Ali tem vários exemplos de tratamento inadequado sobre o ESG, tomando tempo demais para realizar decisões corretas, por exemplo”, afirmou.

Enquanto o Brasil patina na gestão pública e é alvo de críticas acerca da política ambiental do governo Bolsonaro, o CEO da BlackRock observa que companhias podem desenvolver um bom trabalho na área, para além da imagem que o País começa a carregar no exterior em relação a pauta ambiental.

“Os investidores vão para onde tem menos risco, mas eu diria que tem um olhar das empresas, um olhar micro. Se você tem uma empresa que está em atividade, que tem uma atuação com total mitigação desse risco, de mudanças climáticas e, ao mesmo tempo conduz essa agenda com uma dependência muito pequena do setor público, os investidores poderão investir nela independente do setor público estar fazendo um bom trabalho ou não”, afirmou.

Confira a entrevista do SUNO Notícias com Carlos Takahashi, CEO da BlackRock no Brasil:

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-Como a BlackRock vê o mercado de capitais brasileiro e, principalmente, essa entrada massiva de pessoas físicas na Bolsa?
A BlackRock é uma gestora de recursos de terceiros. Crescemos muito dentro da visão de democratização dos investimentos, dando acesso aos investimentos, então era uma experiência que já experimentávamos em outros países, principalmente nos EUA. Estamos presentes em mais de 80 países e sempre nos pautamos por isso, por democratizar os investimentos.

Sempre trabalhamos do lado da solução. A BlackRock sempre esteve no Brasil e sempre acreditou que chegaria esse momento, com taxas de juros mais baixas, e, sob a perspectiva macro, começaríamos a ter as pessoas correndo para diversificar mais os portfólios e poderíamos ajudar o investidor. Quando vemos mais de 3,5 milhões de CPFs na Bolsa e só nos ETFs locais temos mais de 250 mil CPFs, que tem apenas três grandes produtos, o BOVA11, IVVB11 e o SMALL11, até esse número de 250 mil é bastante importante.

Vemos todo o ecossistema evoluindo. A efetiva implementação da arquitetura aberta, o surgimento de outros players. Você consegue listar uma série de empresas focadas em uma grande plataforma tecnológica, além de researchs independentes e outras casas e empresas voltadas ao mercado.

Há também uma nova forma de educação e comunicação do mundo dos investimentos. Você vê um ecossistema muito focado em dar acesso e para nós é muito positivo principalmente porque trabalhamos nessa linha de dar acesso aso investimentos para quem queira investir.

-O mercado já vê uma alta considerável da Selic e alguns bancos enxergam a taxa básica de juros na casa dos 5% a.a. Isso pode afetar o mercado de capitais brasileiro?
Não muda por alguns pontos. Mesmo com o cenário de alta, ainda falamos em taxa de juros de um dígito, isso é um ponto superimportante, pois permanecendo nesse mundo de um dígito, há um impacto psicológico de buscar uma rentabilidade melhor.

Além disso, estamos falando de necessidade de alta de juros por uma perspectiva inflacionária, que vem desse momento de pandemia, com cadeia de suprimentos encarecendo, dólar, e, quando falamos em taxa de juros ancorada em inflação, estamos falando de uma taxa de juros reais que continua baixa, que é isso que temos que olhar.

O investidor está entendendo a lógica de diversificar, você não diversifica no comparativo de um investimento em relação ao outro. Quando um não estiver bem, outro deve estar melhor. O investidor está fazendo melhor uma leitura de que não é só a taxa de juros que deve decidir.

Nesta semana vocês iniciaram a oferta de novos ETFs, com estratégias de exposição a setores pouco representados no mercado brasileiro, como o de tecnologia, saúde e biotecnologia, além de fundos de ações europeias e de mercados emergentes. Como esses produtos podem agregar ao investidor brasileiro?
No ano passado, tivemos uma mudança regulatória superimportante, que permitiu trazer ETFs globais com uma tese simples, transparente e barata [via BDRs]. O custo é baixo e quando nós começamos a construir os pacotes para o Brasil, primeiro precisamos trazer os ETFs dos EUA, listados na Bolsa americana por causa do reconhecimento intrabolsa que tem que haver.

Quando começamos a fazer esse trabalho, que começou com onze, chegaram outros 12 e vai se transformar em 23. Nos primeiros onze, demos um foco de questão geográficas e trouxemos um pequeno bloco de produtos ligados a Europa, Ásia menos Japão e China porque estávamos com um pensamento de que eles entraram primeiro na pandemia e sairiam antes.

Trouxemos também ESG, soltando dois ETFs para o varejo, complementamos com [um ETF] da Alemanha, um do Reino Unido, mais um ETF de ESG baseado em mercados emergentes porque achamos que era uma tese complementar [ao que já era oferecido].

E também [trouxemos ETFs] setoriais porque tínhamos uma leitura de que alguns setores têm níveis de cobertura baixos no Brasil, como infra, financeiro, biotecnologia, healthcare. Por isso, fizemos uma pegada setorial pois há uma correlação negativa com o que nós temos aqui.

-Há planos para mais?
Sim. ETFs de renda fixa têm questões operacionais e tributárias que precisamos apaziguar com a B3, mas estamos ajustando e já está no pipeline para vir. Estamos trabalhando com a perspectiva de um primeiro pacotão que é trazer renda variável listada nos EUA, Europa e renda fixa que é o primeiro grande movimento, até a virada do semestre.

-Como você vê as possibilidades do Brasil em meio ainda a uma pandemia incerta, com alto endividamento e dúvidas sobre a capacidade de investimento público?
Primeiro uma visão mais ampla. Sempre enxergamos o Brasil como uma potência emergente no mundo, é uma economia grande, apesar de tudo que acontece, que coloca em dúvida crescimento, contas públicas comprometidas com as reformas que sofrem atrasos. Há tudo isso, sim, mas é uma grande economia, há um ambiente institucional relativamente consolidado, um mercado corporativo consciente, então isso coloca o País em uma perspectiva boa.

Em relação à pandemia, cedo ou tarde, a perspectiva que trabalhamos é que as economias tiveram um fluxo de liquidez muito forte e esse fluxo vai ajudar. O mercado financeiro não sofreu tanto porque você tem essa liquidez buscando onde se acomodar. Com a vacinação já em uma fase adiantada, a economias tendem a crescer em uma velocidade muito grande e o Brasil pode ser beneficiado com isso.

Você tem algumas assimetrias, mas o fato é que está todo mundo sendo vacinado e está cada vez mais claro que vai ajudar bastante e isso vai estar diretamente ligado com processo e intensão de uma recuperação.

-A BlackRock vem estimulando uma agenda verde, com o fomento de prática de ESG. Qual a importância desse conjunto de práticas atualmente? E como o investidor pode ajudar esse movimento?
Todo mundo pode ajudar e muito. Essa é uma agenda de humanidade. Para mim é isso, o investidor, desde o mais iniciante até o mais qualificado, pode ajudar.

Mas por que essa agenda? Ela, de alguma forma, sempre esteve na cabeça da BlackRock. A empresa nasceu gerindo recursos de terceiros e eu tenho que ter uma visão de longo prazo, tenho que incorporar tecnologia, para eu entregar algo para o longo prazo e, assim, ela começou a incorporar tudo.

O Larry [Larry Fink, CEO global da BlackRock] foi trazendo uma visão de propósito para o dia a dia. Afinal de contas, essa agenda tem muita clareza para a BlackRock e não falamos simplesmente porque é bacana; é sim, mas também, sob a perspectiva de crescimento, isso é risco e oportunidade.

Na análise de governança, as más práticas trazem um risco enorme. Quanto tempo a Vale pagou e apanhou pelas tragédias em Minas Gerais? Ali tem vários exemplos de tratamento inadequado sobre o ESG, tomando tempo demais para realizar decisões corretas, por exemplo.

O episódio de vazamento do óleo no golfo do México é outro exemplo. Você consegue fazer uma boa análise do investimento, mas também deve considerar outros fatores paras as empresas. Elas, quando vão buscar uma operação de crédito, há um preço diferente e, dependendo da atividade da empresa, você terá um risco diferente, se você mitiga o risco através das boas práticas, o preço que ela consegue no mercado também melhora e isso se reflete no desempenho final.

-Essa agenda veio realmente para ficar?
Não é moda, não é passageiro e veio para ficar na empresa inteira. Falando de uma forma geral, como investimentos sustentáveis, com integração de ESG com investimentos de impacto, é para a empresa inteira. Quando falamos de diversidade, não quero só nos Conselhos, queremos dentro da BlackRock inteira, queremos que isso tudo aconteça na BlackRock também.

-O atual governo brasileiro tem uma agenda sobre o meio ambiente que vai de encontro (e não ao encontro) com o que algumas práticas da ESG promovem. Isso pode afetar o olhar do País por investidores estrangeiros?
Com certeza tudo isso está dentro dessa agenda de avaliação. Cada vez mais se você tem um ambiente que esse risco está sendo tratado de forma mais apropriada, a tendência é que os investidores procurem outros países.

Os investidores vão para onde tem menos risco, mas eu diria que tem um olhar das empresas, um olhar micro. Se você tem uma empresa que está em atividade, que tem uma atuação com total mitigação desse risco, de mudanças climáticas e, ao mesmo tempo conduz essa agenda com uma dependência muito pequena do setor público, os investidores poderão investir nela independente do setor público estar fazendo um bom trabalho ou não.

Mas, é claro, não tem como não ter um alinhamento entre setor público e privado em alguns temas, principalmente por ser um tema de humanidade.

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