Ata do Copom: mercado vê atuação mais incisiva contra inflação

Ata do Copom: mercado vê atuação mais incisiva contra inflação
Copom. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O mercado financeiro segue digerindo a ata, divulgada há pouco, da última reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom, do Banco Central, na semana passada. Segundo analistas, o comitê assumiu um viés hawkish, jargão do mercado financeiro para uma atuação mais dura contra o avanço de preços.

Segundo a análise do Itaú BBA, braço de investimentos do Itaú Unibanco (ITUB4), é “provável” que haja uma piora adicional das expectativas de inflação por causa do  aumento dos preços das matérias-primas em um ambiente de repasse permissivo, “o que torna mais intenso o impacto da inflação do atacado para o varejo”.

Após o comunicado, o banco elevou em 0,75 ponto percentual a sua expectativa para a taxa Selic ao fim do ciclo de altas, a 13,75%, e prolongou a duração do ciclo. Os aumentos seriam distribuídos em um novo reajuste de 1,00 p.p. em maio, e dois aumentos de 0,50 p.p. cada, em junho e agosto.

O banco também destaca que a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação na quinta-feira (24), pelo Banco Central, deve trazer mais informações sobre a maneira de pensar do Copom.

Confira a seguir o que avaliam os analistas sobre a ata do Copom:

Copom reforça fiscal delicado, cenário nebuloso e condução serena

Ao Suno Notícias, Luca Mercadante, economista da gestora Rio Bravo, aponta que o Banco Central endureceu o tom em relação à inflação, “principalmente pelas considerações a respeito de uma atividade em processo de recuperação acima do esperado”.

“O Copom reforçou os impactos vindos da guerra e o cenário fiscal delicado. Para os próximos passos a autoridade monetária anteviu mais uma alta de mesma magnitude na reunião a ser realizada em maio e deu indicativos que pode encerrar o ciclo já no próximo encontro. No entanto, reconhecem que o cenário é ainda turvo à frente, o que requer serenidade na condução da política monetária”, destaca Mercadante.

Ainda assim, o especialista destaca que não houve novidades na condução da política monetária em relação ao que já se sabia a partir do comunicado, divulgado na semana passada, após a reunião.

A expectativa da Rio Bravo é de que o Copom encerre o ciclo de alta da Selic em junho, após mais dois reajustes positivos de 1,00 p.p. e 0,50 p.p., com a taxa a 13,25% a.a.

Próxima alta deve neutralizar efeitos da guerra na Ucrânia, mas há outros fatores

Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, destaca que o tom mais incisivo vem das perspectivas para a cotação do petróleo no cenário alternativo do Copom.

Na projeção do Banco Central, o barril de petróleo Brent terminaria o ano cotado a US$ 100 o barril, valor abaixo do nível atual, em torno de US$ 115, o que apontaria para uma correção – de alta – dos modelos utilizados na semana passada.

Segundo a ata do Copom, grande novidade no cenário monetário desta reunião é a guerra entre Rússia e Ucrânia que “levou a um aperto significativo das condições financeiras”, em especial: “O choque de oferta decorrente do conflito tem o potencial de exacerbar as pressões inflacionárias que já vinham se acumulando tanto em economias emergentes quanto avançadas”.

“Desde a última reunião, a maioria das commodities teve avanços relevantes em seus preços, em particular as energéticas”, informou a autoridade monetária.

Com isso, o Copom sinalizou pelo menos mais um incremento, de 1,00 ponto percentual, na taxa Selic na próxima reunião, no começo de maio, o que elevaria a taxa básica a 12,75% ao ano.

Para Sanchez,  esta elevação seria suficiente para combater os efeitos secundários do conflito no leste europeu, notadamente, o aumento do preço das commodities e seus impactos para a inflação no Brasil.

Assim, o economista avalia que seria prudente precificar outra elevação de 0,50 p.p. na reunião seguinte, em junho, a fim de conter outros efeitos inflacionários, restaurar a ancoragem e a credibilidade de suas atribuições. Com isso, a taxa Selic encerraria o atual ciclo de alta, ao nível de 13,25% a.a.

Segundo o economista, a comunicação do Banco Central desta semana exigiu um grau interpretativo maior que em divulgações passadas.

Copom depende de petróleo para encerrar ciclo de alta a 12,75%

Relatório do Banco Original destaca que, a princípio, o cenário-base é de que a autoridade monetária encerre o ciclo de alta de juros com a Selic a 12,75% a.a. após o incremento de 1,0 ponto percentual na próxima reunião.

Entretanto, esta perspectiva depende de que o preço médio do barril de petróleo Brent mantenha o nível de US$ 100 até o fim do ano, e qualquer descolamento deste valor poderia levar o Banco Central a estender o ciclo de alta.

Segundo o documento assinado pelo economista-chefe Marco Caruso e os analistas Lisandra Barbero e Eduardo Vilarim, “para os ativos, a postura do Copom leva o câmbio a ‘mais do que valorizar’ em dias de alta das commodities com o reforço da perspectiva de juros mais altos”.

“Essa dinâmica é ambígua para a bolsa e tenderia a intensificar o descolamento em papéis de energia e materiais básicos ante demais setores”, adiciona sobre a ata do Copom.

Pedro Caramuru

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