Suzano (SUZB3) revela 388 mil hectares sensíveis: o que o investidor precisa saber

A Suzano (SUZB3) identificou 388.356 hectares de áreas florestais com alguma sensibilidade relacionada à natureza. O número aparece no primeiro relatório da companhia elaborado com base nas recomendações do TNFD, estrutura internacional que ajuda empresas a transformar questões como água, biodiversidade e conservação do solo em informações úteis para a gestão de riscos.

O levantamento avaliou uma base de 2,9 milhões de hectares. Portanto, a área classificada como sensível representa aproximadamente 13,4% do total analisado. A companhia também constatou que todas as unidades industriais e portuárias consideradas no estudo possuem ao menos uma interseção com os critérios ambientais e sociais avaliados.

Isso não significa que 388 mil hectares estejam degradados ou que exista uma perda financeira imediata. O indicador aponta locais onde a operação depende mais da natureza, pode causar impactos relevantes ou está mais exposta a fatores como escassez de água, biodiversidade, comunidades e integridade dos ecossistemas.

O que é TNFD?

TNFD é a sigla em inglês para Taskforce on Nature-related Financial Disclosures, traduzida como Força-tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza.

Na prática, é uma estrutura internacional de recomendações para que empresas identifiquem e divulguem como dependem da natureza, quais impactos provocam e quais riscos e oportunidades podem surgir dessa relação. As informações são organizadas em quatro pilares: governança, estratégia, gestão de riscos e impactos, além de métricas e metas.

O TNFD não é uma certificação ambiental, um selo de sustentabilidade ou uma nota atribuída à empresa. Ele funciona como um roteiro para organizar informações que normalmente ficam espalhadas por diferentes áreas da companhia.

https://files.sunoresearch.com.br/gaia/uploads/2026/01/Banner-Materias-01-Dkp_-1420x240-1.png

Para uma fabricante de celulose, por exemplo, disponibilidade de água, qualidade do solo, controle biológico, regulação climática e acesso à madeira são fatores diretamente ligados à capacidade de produzir. Se esses recursos se tornam escassos ou instáveis, podem surgir custos adicionais, perda de produtividade e necessidade de novos investimentos.

Como a SUZB3 chegou aos 388 mil hectares?

A Suzano utilizou a metodologia LEAP, recomendada pelo TNFD. A sigla resume quatro etapas: localizar a interação da empresa com a natureza, avaliar dependências e impactos, analisar riscos e oportunidades e preparar respostas.

O estudo considerou fazendas próprias, áreas arrendadas, fundos e parcerias, além das operações industriais e portuárias incluídas no escopo. A companhia também analisou uma faixa de influência de três quilômetros ao redor das unidades florestais.

O cruzamento dos dados levou em conta quatro critérios principais:

  • integridade dos ecossistemas;
  • risco de escassez hídrica;
  • importância para a biodiversidade;
  • https://files.sunoresearch.com.br/gaia/uploads/2026/01/DT-PS-HOME-DE-ARTIGOS-1420x240-ID_01_x1.jpg

  • presença de comunidades tradicionais e outras áreas de relevância social.

O resultado foi a identificação dos 388.356 hectares com alguma sensibilidade. Segundo a empresa, esse mapeamento já ajuda a priorizar iniciativas de conservação, restauração e conexão de áreas de vegetação nativa.

“As informações produzidas apoiam a priorização de áreas para conservação e restauração, o fortalecimento da gestão de riscos climáticos e de natureza, o planejamento territorial, a tomada de decisão sobre investimentos e a definição de estratégias de longo prazo”, afirmou Giordano Automare, gerente executivo de Sustentabilidade da Suzano, ao Valor Econômico.

O que o relatório agrega ao investidor?

O principal ganho para o investidor é a ampliação da visibilidade sobre riscos que podem não aparecer imediatamente no balanço financeiro.

Nas operações florestais, a Suzano apontou dependências relacionadas ao fornecimento de água, retenção do solo, controle biológico, regulação dos fluxos hídricos e estabilidade do clima. Na atividade industrial, destacam-se água, biomassa, purificação de recursos hídricos e proteção natural contra tempestades e inundações.

Entre os riscos identificados estão mudanças nas regras ambientais, regulamentação do mercado brasileiro de carbono, novas exigências internacionais, conflitos com comunidades, interrupções provocadas por protestos, alterações nos fluxos de água, enchentes e dificuldade de acesso à madeira utilizada como biomassa.

https://files.sunoresearch.com.br/gaia/uploads/2026/01/Ebook-Acoes-Desktop.webp

Esses fatores podem afetar produção, custos, necessidade de investimentos, licenças, reputação e acesso a mercados. O relatório, entretanto, não estima em reais quanto cada risco poderia representar para os resultados da companhia.

O TNFD também ajuda a organizar oportunidades. A Suzano relaciona a agenda de natureza ao desenvolvimento de bioprodutos, geração de créditos de carbono, maior eficiência no uso de recursos e acesso a instrumentos como títulos verdes, Sustainability-Linked Bonds e empréstimos ligados a metas sustentáveis.

Para o investidor, isso não representa garantia de valorização das ações. O ganho está na possibilidade de avaliar com mais informações se a empresa consegue proteger seus ativos, antecipar mudanças regulatórias e financiar projetos em condições competitivas.

Relatório ainda tem limitações

O primeiro documento TNFD da companhia analisa apenas operações diretas no Brasil. Ficaram fora desse escopo a joint operation com a Veracel, a Suzano Packaging e a Arbex, joint venture formada com a Kimberly-Clark.

O diagnóstico de dependências e impactos também foi realizado em nível geral, sem detalhamento por unidade operacional. A própria empresa reconhece que ainda precisa ampliar a avaliação da cadeia de valor e tornar mais quantitativas as análises de riscos, impactos e oportunidades.

Esse é um ponto relevante para o investidor: o relatório melhora a transparência, mas ainda não permite calcular diretamente como cada risco pode afetar receita, custos, investimentos ou geração de caixa.

A companhia afirma que pretende ampliar gradualmente o escopo e incorporar novos dados nos próximos ciclos. “Entendemos o TNFD como um instrumento contínuo de gestão e não apenas como um exercício de reporte”, afirmou Automare. Para quem acompanha a Suzano (SUZB3), a evolução dessas informações poderá mostrar se o mapeamento está efetivamente orientando investimentos, reduzindo riscos e protegendo a produtividade da base florestal.

Maíra Telles

Compartilhe sua opinião