É possível montar uma carteira completa de renda fixa só com ETFs de títulos públicos?
Durante muito tempo, montar uma carteira sofisticada de renda fixa exigia selecionar títulos individualmente, acompanhar vencimentos, fazer reinvestimentos e administrar diferentes prazos e indexadores. Hoje, porém, investidores já conseguem montar um portfólio diversificado utilizando apenas ETFs negociados na bolsa.
A partir de produtos que replicam títulos pós-fixados, prefixados e indexados à inflação, tornou-se possível acessar estratégias antes mais comuns em grandes gestoras e carteiras institucionais.
Segundo Rodrigo Araújo, especialista de ETFs da Itaú Asset, esses produtos passaram a funcionar como verdadeiros “blocos de construção” da renda fixa.
“Os ETFs permitem montar carteiras mais sofisticadas, diversificadas e adaptáveis a diferentes perfis de investimento e cenários econômicos”, afirma.
Como montar uma carteira usando apenas ETFs?
Na avaliação da Itaú Asset, a combinação entre ETFs pós-fixados, indexados à inflação e prefixados pode funcionar de maneira complementar dentro da carteira.
Na prática, isso permite ao investidor reproduzir uma estrutura semelhante à de carteiras institucionais de renda fixa, combinando proteção, liquidez, carregamento de juros e potencial de valorização em diferentes cenários econômicos.
O pós-fixado tende a ocupar a base mais defensiva da estratégia, ajudando no carregamento da Selic e reduzindo volatilidade.
Já os ETFs atrelados ao IPCA ajudam a preservar o poder de compra no longo prazo, enquanto os prefixados adicionam potencial de valorização em cenários de queda dos juros.
“Uma estrutura equilibrada para um investidor moderado poderia combinar uma parcela relevante em pós-fixados, outra em inflação curta ou intermediária e uma fatia menor em prefixados”, afirma Araújo.
Segundo ele, os ETFs de vértice também ajudam a personalizar a estratégia.
Investidores mais conservadores podem priorizar durations intermediárias, enquanto aqueles com horizonte mais longo podem aumentar a exposição aos juros reais longos para capturar potenciais ganhos de marcação a mercado.
Quais ETFs de renda fixa existem hoje?
Hoje já existem ETFs que cobrem praticamente todos os principais segmentos da curva de juros brasileira.
Os produtos pós-fixados, por exemplo, funcionam como a parcela mais conservadora da carteira. É o caso do LFTI11, que investe em títulos públicos indexados à Selic.
Já os ETFs prefixados oferecem exposição às taxas nominais de juros. Dentro desse grupo estão produtos como IRFM11, IDKA11 e 5PRE11, compostos por títulos públicos prefixados com diferentes durations.
Os ETFs atrelados ao IPCA cumprem outro papel importante dentro da carteira: proteger o investidor da inflação.
Nesse segmento, existem opções mais conservadoras, como o B5P211, focado em títulos mais curtos, e produtos com duration maior, como o IMAB11 e o IB5M11, que tendem a reagir mais intensamente às oscilações dos juros reais.
Além disso, o mercado brasileiro também passou a oferecer ETFs focados em vértices específicos da curva de NTN-Bs, como TD3511, TD5011 e TD6011.
Segundo Araújo, esses produtos permitem ao investidor acessar vencimentos específicos da curva de juros reais de maneira mais prática e eficiente.
Como o cenário econômico influencia essa carteira?
O ambiente macroeconômico continua sendo um dos principais fatores para definir o peso de cada bloco dentro da renda fixa.
Segundo Araújo, os ETFs pós-fixados seguem atrativos no cenário atual de Selic elevada, especialmente pela combinação entre retorno nominal alto e baixa volatilidade.
Ao mesmo tempo, os ETFs indexados ao IPCA continuam relevantes porque os juros reais permanecem em patamares considerados elevados.
Já os ETFs prefixados podem ganhar espaço em um eventual ciclo de queda da Selic.
“Os ETFs prefixados tendem a apresentar bom desempenho em períodos de afrouxamento monetário”, afirma.
Na prática, isso significa que a composição ideal da carteira depende não apenas do cenário econômico, mas também do perfil e do horizonte de investimento de cada investidor.
Qual a vantagem dos ETFs em relação ao Tesouro Direto?
Além da diversificação, a principal diferença entre montar uma carteira via ETF e investir diretamente no Tesouro Direto está na gestão operacional.
Ao investir em títulos individuais, o investidor precisa escolher vencimentos, administrar reinvestimentos, acompanhar rolagens e monitorar constantemente a exposição da carteira à curva de juros.
Nos ETFs, essa gestão é feita automaticamente.
“Com os ETFs, o investidor não precisa se preocupar com reinvestimentos ou rolagem de títulos, já que o produto é gerido profissionalmente e mantém a exposição sempre ajustada ao índice de referência”, afirma Araújo.
Outro diferencial está na própria estrutura tributária. Segundo a Itaú Asset, os ETFs de renda fixa permitem reinvestimento automático dos cupons sem incidência imediata de Imposto de Renda, além de não possuírem IOF nos primeiros 30 dias e contarem com alíquota definitiva de IR.
Para a gestora, o avanço desses ETFs vem transformando a forma como investidores acessam a renda fixa pública no Brasil, permitindo construir estratégias mais sofisticadas de maneira simples, líquida e transparente.