O que a Faria Lima não vê? Estudo revela por que o brasileiro pensa nas dívidas antes de investir

Antes de descobrir onde investir, o brasileiro procura respostas para problemas mais imediatos, como pagar dívidas, enfrentar o aperto no orçamento, formar uma reserva e proteger a família. É o que mostra o estudo “O que a Faria Lima não vê”, realizado pela Planejar em parceria com a Timelens.

O levantamento analisou 6,431 bilhões de perguntas feitas no Google, 467 milhões de buscas únicas e 392 mil menções nas redes sociais ao longo de cinco anos. As conclusões foram divulgadas em reportagem do Bora Investir, portal de educação financeira da B3.

Segundo a pesquisa, a linguagem financeira utilizada pelos brasileiros é 5,21 vezes mais relacionada a situações da vida real do que a produtos de investimento.

Antes de decidir onde investir, brasileiro busca resolver problemas

Entre as perguntas analisadas, 76,1% partem de uma situação ou de um objetivo concreto, como uma dívida, um projeto ou a busca por segurança. Apenas 14,6% mencionam diretamente algum produto financeiro.

https://files.sunoresearch.com.br/n/uploads/2023/04/1420x240-Planilha-vida-financeira-true.png

Na prática, isso significa que o brasileiro costuma procurar primeiro respostas para questões como “como sair das dívidas”, “como guardar dinheiro” ou “como formar uma reserva”, antes de pesquisar por CDBs, fundos, ações ou outros investimentos.

O estudo identificou cinco principais portas de entrada para a vida financeira:

  • Aperto no orçamento;
  • Formação de uma reserva;
  • Realização de um projeto com prazo definido;
  • Proteção de pessoas financeiramente dependentes;
  • Construção do futuro.

Um mesmo produto pode atender a diferentes necessidades. A escolha depende do objetivo, do prazo, da renda disponível e do momento de vida de cada pessoa.

Organizar as finanças é o primeiro passo para começar a investir. A Suno reuniu três livros gratuitos que ajudam a entender melhor o mercado e a tomar decisões mais conscientes. Baixe os materiais aqui.

Decisão financeira passa por seis etapas

A Planejar e a Timelens organizaram a jornada financeira do brasileiro em seis etapas: situação, formulação da dúvida, busca por informações, conversa, comparação e, somente no fim, escolha de um produto ou adiamento da decisão.

As fases de entender, testar e escolher concentram 81,9% do tempo de decisão. Já o momento de agir, quando a pessoa efetivamente contrata um produto ou começa a investir, representa somente 13,6% da jornada.

Os dados indicam que boa parte do processo acontece antes de o consumidor chegar a uma instituição financeira ou plataforma de investimentos. Nesse período, ele procura entender o problema, comparar alternativas e avaliar se tem condições de tomar uma decisão.

Medo e confusão vêm antes do investimento

A jornada também costuma ser solitária. A expressão “ganho pouco” apareceu em 19,5 milhões de menções, enquanto assuntos relacionados a dinheiro nos relacionamentos somaram 10,4 milhões.

Termos associados à ansiedade financeira registraram 2,2 milhões de menções, enquanto buscas por algum tipo de orientação chegaram a 900 mil.

Entre as perguntas classificadas pelo estudo, a confusão apareceu em 855 mil casos e o medo em 806 mil. Os dois sentimentos ficaram à frente da curiosidade em aprender, identificada em 683 mil perguntas.

A maior parte das buscas, ou 65,7%, utiliza uma linguagem intermediária. As formulações básicas representam 29,4%, enquanto somente 4,9% das consultas empregam termos considerados avançados.

Os números reforçam que, para muitos brasileiros, o primeiro desafio não é descobrir qual investimento oferece a maior rentabilidade. Antes disso, é necessário reduzir a incerteza e recuperar o controle sobre o orçamento.

Inteligência artificial ajuda, mas não substitui pessoas

A inteligência artificial já participa dessa jornada. Aproximadamente 62,4% das perguntas analisadas são compatíveis com tarefas que podem ser apoiadas por IA, como organizar dívidas, explicar conceitos, calcular cenários, comparar alternativas ou preparar uma conversa com o banco.

Apesar disso, a confiança na tecnologia para a decisão final ainda é limitada. Apenas 30% dos investidores consultados afirmaram confiar na IA nessa etapa, enquanto 65% preferem que uma pessoa confira as informações antes de seguirem uma orientação.

Entre aqueles que utilizam inteligência artificial para analisar ativos, 53% recorrem à ferramenta pelo menos uma vez por mês. O estudo alerta, porém, que uma resposta clara e segura pode estar incorreta, desatualizada ou incompleta, especialmente quando não considera renda, dívidas, objetivos e urgência.

O comportamento também varia entre as gerações. Cerca de 84% dos integrantes da geração Z já investem por aplicativos ou sites, e 66% possuem conta digital. Entre os boomers, a participação em contas digitais é de apenas 7%.

https://files.sunoresearch.com.br/n/uploads/2023/04/1420x240-Planilha-vida-financeira-true.png

Ao mesmo tempo, a parcela de idosos com acesso à internet avançou de 44,8%, em 2019, para 69,8% atualmente, reduzindo gradualmente a distância digital entre as gerações.

Influenciadores disputam espaço com instituições

O estudo mapeou 1.912 perfis que produzem ou compartilham conteúdo financeiro nas redes sociais. Desse total, 904 são influenciadores ativos, responsáveis por aproximadamente 1,3 bilhão de interações no período analisado.

As pessoas físicas concentram 61% das menções a produtos financeiros e 81,5% do engajamento identificado pela pesquisa.

O YouTube é o canal preferido para explicações mais aprofundadas, citado por 35% dos investidores. A plataforma também concentra 53,5% das menções relacionadas a fundos e fundos imobiliários.

O Instagram, por sua vez, funciona principalmente como espaço de atualização e proximidade. A rede é citada por 27% dos entrevistados e responde por 30% das menções analisadas.

Para a pesquisa, influenciadores não formam uma categoria única. O ecossistema reúne produtores de conteúdo, investidores independentes, reguladores, traders e analistas, grupos que, juntos, concentram 74% da atenção do público.

Os resultados mostram que a dúvida sobre onde investir aparece somente no fim de uma trajetória marcada por medo, confusão, comparações e necessidades concretas. Para grande parte dos brasileiros, organizar a vida financeira vem antes da busca pelo produto mais rentável.

https://files.sunoresearch.com.br/n/uploads/2023/03/Ebook-Acoes-Desktop.jpg

Maíra Telles

Compartilhe sua opinião