IPCA derruba preços em agosto: deflação de 0,32% abre espaço para novo corte da Selic?
O IPCA, índice oficial de inflação do país, registrou deflação de 0,32% em agosto. Foi a primeira queda mensal dos preços em 2026 e o resultado mais negativo desde agosto de 2022, quando o indicador recuou 0,36%. Em julho, o índice havia subido 0,33%.
A leitura veio melhor do que o esperado pelo mercado e reduziu o IPCA acumulado em 12 meses para 4,22%, abaixo do teto da meta de inflação, de 4,5%. Ainda assim, o resultado não significa que os preços estejam caindo de forma generalizada ou que a inflação tenha sido definitivamente controlada.
O que puxou a deflação do IPCA?
A principal contribuição veio do grupo Habitação, que recuou 1,87%. O movimento foi provocado sobretudo pela conta de luz, que caiu 7,63% após a aplicação do bônus de Itaipu. O desconto beneficiou cerca de 83,8 milhões de consumidores e, sozinho, retirou 0,33 ponto percentual do IPCA de agosto.
Esse efeito ajuda a entender por que o número foi tão negativo: parte relevante da queda veio de um evento específico e temporário, e não necessariamente de uma desaceleração estrutural de todos os preços da economia.
O grupo Alimentação e bebidas também registrou deflação, de 0,34%. Batata-inglesa, cenoura, cebola e tomate ficaram mais baratos no mês. Por outro lado, leite, frutas e carnes subiram, mostrando que a alimentação teve comportamentos diferentes dentro da mesma cesta.
Em Transportes, a queda foi de 0,86%. As passagens aéreas recuaram 13,17%, enquanto o etanol caiu 3,95% e a gasolina, 0,59%. Os combustíveis também ajudaram a aliviar o índice, embora estejam sujeitos a mudanças no petróleo e no câmbio.
Na direção oposta, o cigarro teve alta de 19,59%. Os grupos Saúde e cuidados pessoais e Despesas pessoais também registraram aumentos, o que impediu uma queda ainda maior do IPCA.
Por que a conta de luz exige cautela?
O bônus de Itaipu não deve se repetir todos os meses. Com a retirada do desconto, a energia elétrica pode voltar a pressionar o índice em setembro. A retomada das tarifas integrais e possíveis efeitos do El Niño sobre alimentos e energia são alguns dos fatores que podem reduzir o alívio observado em agosto.
Por isso, o mercado olha além do índice cheio. Os chamados núcleos de inflação, que retiram itens mais voláteis, e os preços de serviços continuam importantes para avaliar se a desaceleração é consistente. Serviços ligados à mão de obra ainda apresentam alta próxima de 5% em 12 meses, segundo avaliações citadas por economistas.
O que muda para a Selic?
A deflação reforçou a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) faça mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião marcada para 15 e 16 de setembro. A Selic está atualmente em 14% ao ano e poderia recuar para 13,75%.
O mercado, porém, não projeta uma sequência agressiva de reduções. O Boletim Focus divulgado em 8 de setembro manteve a estimativa de Selic em 13,75% no fim de 2026 e projetou IPCA de 5% para o ano. Isso indica que, mesmo com o dado positivo de agosto, os analistas ainda veem inflação acima da meta de 3% e riscos relevantes para os próximos meses.
Na prática, o IPCA de agosto abre espaço para o Copom continuar reduzindo os juros, mas não elimina a necessidade de cautela. A autoridade monetária precisará avaliar se a queda veio acompanhada de melhora nos preços mais persistentes, na atividade econômica e nas expectativas de inflação.
Para o investidor, o dado pode favorecer títulos prefixados e papéis mais longos caso o mercado passe a esperar juros menores. Mas o resultado também reforça a importância de diversificar, porque energia, alimentos, petróleo, câmbio e serviços ainda podem mudar rapidamente o cenário. O IPCA trouxe alívio em agosto, mas a trajetória da inflação continuará sendo definida pelos próximos meses.