A Americanas (AMER3) ainda está longe de deixar os números vermelhos para trás, mas começa a mostrar que a reconstrução da operação avança por baixo da última linha do balanço. A varejista registrou prejuízo líquido de R$ 274 milhões no segundo trimestre de 2026, quase três vezes os R$ 98 milhões negativos registrados um ano antes, enquanto vendas e indicadores operacionais apresentaram melhora.
No acumulado do primeiro semestre, a perda chegou a R$ 603 milhões, alta de 1,5% na comparação anual. A receita bruta, por outro lado, avançou 5,2%, para R$ 7,2 bilhões, em um período no qual a companhia continuou tentando reconstruir o negócio depois da crise contábil que a levou à recuperação judicial em 2023.
A fotografia do segundo trimestre exige algum cuidado. A receita líquida caiu 1,7%, para aproximadamente R$ 3,3 bilhões, mas a comparação foi afetada pelo calendário da Páscoa, que neste ano concentrou parte das vendas ainda no primeiro trimestre. Desconsiderando esse efeito, a companhia calcula crescimento de 7,8% na receita líquida do semestre.
Lojas da Americanas voltam a vender mais
Um dos sinais mais favoráveis veio justamente das lojas que permaneceram abertas durante o processo de reestruturação.
As vendas em unidades com mais de 12 meses de operação cresceram 9,3% no primeiro semestre, indicando melhora do desempenho da base existente sem depender da abertura de novas lojas. A Americanas também destacou desempenho de categorias como bebidas e guloseimas, além do avanço de serviços digitais e do programa de fidelidade.
A estratégia atual passa por concentrar esforços nas categorias em que a companhia considera ter maior capacidade de competir e integrar melhor as lojas físicas ao ambiente digital.
Essa mudança acontece depois de uma redução significativa da estrutura da varejista durante a recuperação judicial. Em vez de perseguir novamente uma expansão acelerada, a prioridade passou a ser aumentar produtividade e rentabilidade sobre uma operação menor.
Prejuízo aumenta, mas operação melhora
É justamente aí que aparece o contraste do balanço.
Embora o prejuízo líquido tenha aumentado no trimestre, a Americanas vem reduzindo suas perdas operacionais. O Ebitda ajustado acumulado melhorou de um resultado negativo de R$ 786 milhões em 2024 para perda de R$ 297 milhões em 2026, mostrando uma recuperação gradual da operação.
O CEO Fernando Soares resumiu essa etapa da recuperação afirmando que a companhia saiu “da UTI para o quarto”. Segundo o executivo, houve melhora operacional de aproximadamente R$ 251 milhões, embora ainda exista trabalho pela frente até que o negócio volte a apresentar uma situação considerada normal.
A XP também enxergou uma combinação de sinais. Na avaliação da casa, o desempenho das lojas físicas e a rentabilidade apresentaram evolução, enquanto outras frentes continuaram mais pressionadas. A análise chama atenção ainda para a queima de caixa, um dos indicadores mais importantes para acompanhar uma empresa que atravessa uma reestruturação financeira.
Caixa continua sendo ponto de atenção para AMER3
Se a operação começa a reagir, o balanço financeiro ainda mostra por que a recuperação da Americanas não está concluída.
A companhia consumiu aproximadamente R$ 400 milhões de caixa nas operações, com impacto dos juros relacionados aos arrendamentos. A dívida bruta chegou a R$ 2,2 bilhões.
A dívida líquida terminou o período próxima de R$ 1 bilhão, revertendo a posição de caixa líquido de R$ 488 milhões registrada um ano antes. Parte dessa comparação, porém, é afetada por créditos tributários e depósitos judiciais que beneficiaram os números de 2025.
É por isso que, neste momento, geração de caixa pode dizer mais sobre a recuperação da varejista do que simplesmente acompanhar o lucro líquido trimestre a trimestre. A capacidade de tornar a operação sustentável e preservar liquidez segue sendo um dos principais testes para a companhia.
A Americanas também tenta avançar para uma nova etapa de sua reestruturação. A companhia já obteve pareceres favoráveis à saída da recuperação judicial, processo iniciado depois da revelação, em 2023, das inconsistências contábeis que deram origem à maior crise de sua história.
Assim, o 2T26 deixa duas fotografias bastante diferentes da Americanas (AMER3). Na última linha, o prejuízo aumentou para R$ 274 milhões. Na operação, porém, vendas comparáveis avançaram e as perdas operacionais continuaram diminuindo. Para os próximos trimestres, o desafio será transformar essa melhora comercial em geração de caixa e, posteriormente, em lucro.
Notícias Relacionadas
