A São Martinho (SMTO3) começou a safra 2026/27 produzindo mais cana e recuperando produtividade no campo, mas isso não foi suficiente para proteger o resultado financeiro. O lucro líquido caiu 39,3%, para R$ 38,1 milhões, em um trimestre no qual preços mais baixos de açúcar e etanol se combinaram a uma estratégia de segurar parte das vendas do biocombustível para mais adiante na safra. (São Martinho)
A receita líquida recuou 17,6%, para R$ 1,53 bilhão, enquanto o Ebitda ajustado caiu 27,7%, para R$ 582,3 milhões. A margem Ebitda passou de 43,4% para 38,1%. O contraste é importante porque, operacionalmente, o campo mostrou melhora: a moagem de cana avançou 3,9%, para cerca de 8,5 milhões de toneladas, e a produtividade agrícola cresceu 7% após a normalização das condições climáticas na entressafra.
Menos etanol vendido agora, mais produto para depois
O principal peso veio do etanol. A receita do produto caiu 26,4%, para R$ 630,2 milhões, com redução de 23,2% no volume vendido e de 4,2% no preço médio.
Mas a queda no volume não significa necessariamente que a São Martinho tenha produzido menos. Pelo contrário: a produção de etanol de cana cresceu 19,1% no trimestre, para 354,6 mil metros cúbicos. A diferença está no momento escolhido para vender.
Segundo a companhia, parte relevante do etanol produzido nesta safra será comercializada no segundo semestre. A comparação também ficou mais difícil porque o primeiro trimestre da safra passada contou com venda de estoques remanescentes de 2024/25. Na prática, a São Martinho produziu mais, mas decidiu carregar uma parcela maior desse produto para buscar condições comerciais melhores adiante.
A XP considera essa estratégia um dos principais motivos para o resultado mais fraco do período e avalia que os fundamentos do mercado melhoraram nas últimas semanas, embora ainda espere evidências dessa recuperação nos próximos balanços antes de enxergar uma mudança mais relevante na tese.
No açúcar, a dinâmica foi diferente, mas o efeito sobre a receita também foi negativo. A companhia vendeu 14,5% mais volume, porém o preço médio caiu 25,7%. Com isso, a receita do produto recuou 15%, para R$ 683,6 milhões.
Campo melhora, mas preços ainda limitam a rentabilidade
A recuperação da produtividade foi um dos pontos mais favoráveis do trimestre. A São Martinho processou mais cana e aumentou em 4,3% sua produção total medida em ATR, mesmo adotando um mix mais voltado ao etanol.
Para o BB Investimentos, porém, a melhora operacional encontrou um ambiente de preços pouco favorável. O banco destaca que a queda nos preços realizados e o menor volume comercializado pressionaram margens, enquanto as despesas com vendas cresceram 13,4%, puxadas principalmente por custos logísticos e portuários associados às exportações de açúcar.
Houve alguma compensação nos custos. O CPV caixa caiu 11,4%, ajudado pelo menor volume comercializado e pelo efeito dos preços mais baixos sobre o Consecana. Ainda assim, o BTG avaliou que a redução do custo unitário ficou aquém do que poderia ser esperado diante do ganho de produtividade no campo.
A operação de milho, por outro lado, ganhou importância dentro dos números. Ela adicionou R$ 82,5 milhões ao Ebitda e R$ 76,4 milhões ao Ebit consolidado. Segundo o BB Investimentos, embora represente uma parcela relativamente pequena do ATR produzido, o negócio tem ajudado a diversificar as receitas e reduzir a exposição da companhia às condições climáticas da cana.
Safra ainda tem espaço para mudar de cara
O resultado do primeiro trimestre oferece apenas uma fotografia inicial da safra 2026/27, e a própria estratégia comercial da São Martinho torna os próximos períodos especialmente importantes.
Parte do etanol que deixou de ser vendido agora deverá chegar ao mercado mais adiante. No açúcar, a companhia já possui uma parcela relevante da produção protegida por operações de hedge, o que reduz parcialmente a exposição às oscilações de preços.
Ao mesmo tempo, o plano de investimentos continua elevado. A São Martinho prevê cerca de R$ 2,9 bilhões em capex na safra, com recursos destinados, entre outros projetos, à expansão do etanol de milho, irrigação e biometano. A dívida líquida terminou junho em aproximadamente R$ 5,2 bilhões, alta de 5% frente a março.
XP, BTG Pactual e BB Investimentos adotaram uma leitura cautelosa após o balanço. Em comum, as casas reconheceram a recuperação operacional no campo e o potencial do etanol de milho, mas apontaram preços mais baixos, margens pressionadas e necessidade elevada de investimentos como obstáculos para uma recuperação mais rápida da rentabilidade.
Para a São Martinho (SMTO3), portanto, a primeira parte da safra mostrou uma operação agrícola mais eficiente, mas um resultado financeiro ainda condicionado pelo momento de venda dos produtos e pelos preços de açúcar e etanol. Os próximos trimestres deverão mostrar se a decisão de carregar parte do etanol para o segundo semestre conseguirá transformar a melhora do campo em resultado.
Notícias Relacionadas
