Quando o Banco Central se diz “cauteloso”: como gestoras estão operando o crédito privado

O corte de 0,25 ponto percentual da Selic para 14,50% ao ano não foi suficiente para convencer o mercado de que o Banco Central entrará em um ciclo agressivo de afrouxamento monetário. Pelo contrário: a comunicação mais cautelosa da autoridade monetária fez gestoras recalibrarem suas estratégias de crédito privado, reduzindo risco, priorizando setores defensivos e buscando mais flexibilidade diante de um cenário ainda incerto para juros e inflação.

As cartas mensais mais recentes de AZ Quest e Fator mostram como essa postura do BC já está sendo traduzida em alocação prática. Enquanto parte do mercado esperava um ciclo mais intenso de cortes, as duas casas passaram a operar o crédito de forma mais seletiva diante da combinação entre inflação resistente, petróleo pressionado e aumento da volatilidade global.

Abertura dos spreads virou ponto central da estratégia

O principal reflexo da postura mais cautelosa do Banco Central apareceu no comportamento dos spreads de crédito. Com o mercado reduzindo apostas em cortes acelerados da Selic, investidores passaram a exigir prêmios maiores para carregar títulos privados, especialmente os de prazo mais longo.

A AZ Quest destaca que abril foi marcado por “abertura relevante dos spreads de crédito”, principalmente nas debêntures incentivadas. Segundo a casa, o movimento teve forte componente técnico, envolvendo fluxo de resgates e captação em fundos dedicados à classe.

A Fator fez leitura semelhante. A casa afirma que o ambiente para debêntures foi mais desafiador por causa das “fortes oscilações nas marcações de referência”.

Na prática, a abertura dos spreads funciona como um termômetro do nível de cautela do mercado: quanto maior a incerteza sobre inflação, juros e atividade econômica, maior tende a ser o prêmio exigido para financiar empresas via crédito privado.

AZ Quest e Fator adotam estratégias diferentes para navegar o cenário

Embora as duas gestoras compartilhem uma visão mais cautelosa sobre o cenário macroeconômico, as estratégias adotadas são diferentes.

A Fator parece operar em uma lógica de carregamento. O Fator Ortho manteve carteira concentrada em FIDCs, debêntures e CRIs, com mais de metade do patrimônio alocado em cotas de FIDCs (principalmente seniores) e exposição relevante a crédito corporativo.

Ao mesmo tempo, a casa sinalizou que seguirá ampliando diversificação em debêntures e buscando novas operações multissetoriais para elevar rentabilidade sem aumentar excessivamente o risco.

É uma postura que sugere uma visão relativamente construtiva para crédito privado, mesmo em um ambiente mais turbulento.

A AZ Quest, por outro lado, adotou uma postura mais tática e reflexiva. A casa afirma que iniciou abril com menor exposição à curva de juros justamente por causa da volatilidade provocada pelas tensões no Oriente Médio.

Ao longo do mês, a gestora ajustou risco em diferentes vértices da curva e manteve posições aplicadas na parte curta dos juros, combinadas com estruturas de opções.

A tese da casa é que o Banco Central ainda possui espaço para continuar o ciclo de cortes iniciado anteriormente, mas de forma marginal e abaixo do que parte do mercado chegou a projetar.

Por isso, a AZ Quest afirma que continuará trabalhando com uma “alocação tática ágil”, preservando liquidez para capturar oportunidades rapidamente ou reduzir risco em momentos de estresse.

Em outras palavras: enquanto a Fator já parece mais confortável em carregar posições estruturais em crédito, a AZ Quest prefere operar com mais flexibilidade enquanto o cenário de juros ainda permanece indefinido.

Setores defensivos ganharam ainda mais espaço nas carteiras

Se existe um consenso claro entre as gestoras, ele aparece na escolha dos setores: elétricas, bancos, telecomunicações, saneamento e utilities aparecem repetidamente entre as maiores posições das carteiras de crédito e renda variável.

A razão é objetiva: em um cenário de juros elevados por mais tempo, investidores tendem a priorizar empresas com geração de caixa previsível, receitas mais estáveis e menor dependência do ciclo econômico.

No caso das elétricas e utilities, o atrativo está na previsibilidade operacional e na capacidade de distribuição de dividendos mesmo em períodos de desaceleração econômica. A Fator destaca explicitamente que o setor continua atraente pela previsibilidade da geração de caixa e pelo perfil defensivo.

Os bancos também seguem relevantes porque conseguem preservar margens financeiras em ambientes de juros elevados. Além disso, são empresas que normalmente apresentam balanços mais robustos e maior facilidade de acesso a liquidez.

Já telecomunicações e saneamento aparecem como setores tradicionalmente menos sensíveis à desaceleração da atividade, funcionando como proteção em momentos de maior incerteza.

Na prática, a concentração nesses segmentos mostra que as gestoras não estão simplesmente aumentando risco para aproveitar spreads maiores. O movimento atual é mais seletivo: buscar retorno adicional sem abrir mão da qualidade do crédito.

Postura do BC mudou o timing de entrada no crédito privado

Outro ponto importante que aparece nas cartas é a diferença de timing entre as gestoras. A Fator dá sinais de que considera o atual nível de spreads suficientemente atrativo para já manter uma carteira relevante montada em crédito corporativo.

A AZ Quest, embora também siga construtiva para a classe, demonstra uma postura mais cuidadosa em relação ao momento de aumentar exposição.

Essa diferença ajuda a ilustrar o principal efeito da comunicação cautelosa do Banco Central: o mercado não abandonou o crédito privado, mas passou a exigir mais seletividade, mais liquidez e mais proteção antes de ampliar posições.

Crédito privado continua atraente, mas exige mais seletividade

Mesmo com a abertura dos spreads e a redução das expectativas para cortes mais rápidos da Selic, as gestoras continuam enxergando valor no crédito privado.

Isso acontece porque o atual nível de juros ainda oferece retornos considerados atrativos, especialmente em empresas de maior qualidade e setores mais resilientes.

Além disso, parte das gestoras avalia que a abertura recente dos spreads teve caráter mais técnico do que estrutural, ligada principalmente à volatilidade global, fluxo de fundos e ajustes de mercado, e não necessariamente a uma piora relevante da qualidade de crédito das companhias.

Por isso, o movimento atual parece menos uma fuga do crédito privado e mais uma reorganização das estratégias.

Guilherme Serrano Silva

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