A cota de importação de carne bovina brasileira pela China pode virar um teste importante para os frigoríficos no segundo semestre. Segundo relatório da Genial Institucional, assinado por Luca Vello, o ponto de atenção para o investidor não está apenas na demanda chinesa por proteína, mas na matemática da cota: se o limite for atingido, a tarifa sobre a carne brasileira pode saltar de 12% para 55%.
O relatório aponta que a cota anual de cerca de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina brasileira enviada à China já estava aproximadamente 70% consumida até abril. Mantido o ritmo atual, o limite deve ser atingido por volta de agosto. Como o produto leva cerca de 50 a 60 dias para chegar ao mercado chinês, os embarques de carne brasileira para a China tenderiam a ser interrompidos já a partir de meados de junho para evitar a tarifa mais alta.
O que muda para os frigoríficos?
Na avaliação da Genial, o impacto não deve ser igual para todas as empresas. O relatório destaca que apenas a carne com origem no Brasil é afetada pela cota. Frigoríficos com operações em outros países, como Argentina, Uruguai, Colômbia, Austrália e Estados Unidos, têm mais alternativas para redirecionar a oferta à China.
No caso da Minerva (BEEF3), a análise aponta que a empresa é uma das mais expostas ao tema, com cerca de 8% a 9% da receita consolidada ligada à carne brasileira enviada à China. Ao mesmo tempo, a companhia também é vista como uma das mais protegidas, por conseguir redirecionar clientes chineses para operações em outros países da América do Sul.
Para MBRF (MBRF3), a exposição estimada é menor. Segundo o relatório, China e Hong Kong representam cerca de 4% das vendas consolidadas, considerando que a parte de carne bovina da América do Sul é apenas uma fatia do grupo. A companhia já estaria reduzindo temporariamente embarques de carne brasileira para a China, com normalização esperada entre setembro e outubro de 2026.
Já a JBS é vista como mais protegida pela diversificação global. Embora a JBS Brasil tenha exposição à demanda chinesa, o grupo também abastece a China a partir de Austrália e Estados Unidos, além de ter grande parte dos clientes concentrada na região do Nafta.
O relatório também aponta dois fatores que podem suavizar o impacto: a possível queda do preço do boi no Brasil, diante de menor ritmo de abate, e o prêmio do mercado dos Estados Unidos, que pode beneficiar frigoríficos com plantas habilitadas para exportar ao país.
Entre as recomendações, a Genial mantém compra para JBS, com preço-alvo de US$ 18,50 para a ação nos Estados Unidos e R$ 95,50 para o BDR no Brasil. Para MBRF, a recomendação também é de compra, com preço-alvo de R$ 23. Já Minerva aparece com recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 4,75.
Na prática, o investidor deve acompanhar três pontos: se a China vai ampliar ou não a cota, quando o limite será efetivamente atingido e quais frigoríficos conseguirão redirecionar melhor os embarques sem sacrificar margens. Como resume o relatório, em tradução livre, “o abismo é mecânico, e o relógio está mais perto do que parece”.
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