O mercado de trabalho segue aquecido, mas isso não tem sido suficiente para aliviar a pressão sobre o orçamento das famílias. Na avaliação da Mapfre Investimentos, a combinação entre juros elevados, renda comprometida e confiança na manutenção do emprego ajuda a explicar por que a inadimplência continua avançando mesmo em um cenário de desemprego baixo.
Segundo o relatório da gestora, os atrasos superiores a 90 dias nas operações de crédito bancário de pessoas físicas estão no maior nível desde o início da série, em 2011. A Mapfre relaciona esse movimento à Selic ainda elevada e ao comprometimento recorde da renda das famílias, em um ambiente no qual os efeitos da política monetária restritiva continuam aparecendo sobre o crédito.
Ao mesmo tempo, os bancos vêm ficando mais seletivos. Dados da Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, citados pela gestora, mostram menor disposição para ampliar empréstimos voltados ao consumo e maior preferência por linhas com garantias. Ainda assim, a expectativa é de aumento da demanda das famílias por crédito nos próximos meses.
Confiança no emprego ajuda a explicar a demanda por crédito
Para a Mapfre, parte dessa aparente contradição está justamente no mercado de trabalho.
A Sondagem do Mercado de Trabalho do Ibre mostra que 59,3% dos trabalhadores consideravam improvável ou muito improvável perder o emprego nos seis meses seguintes, maior proporção da série apresentada no relatório. Já 12,1% avaliavam a perda do emprego como provável ou muito provável.
Na leitura da gestora, essa sensação de segurança pode manter o consumo e a procura por empréstimos mesmo quando os juros estão altos.
O problema é que, se parte relevante da renda já está comprometida, novas despesas ou dívidas podem reduzir ainda mais o espaço disponível para o pagamento de obrigações anteriores.
Bancos mais seletivos, mas inadimplência pode continuar elevada
A Mapfre avalia que a combinação entre menor oferta e maior demanda por crédito tende a sustentar os spreads bancários e desacelerar as novas concessões.
Isso, porém, não significaria necessariamente uma queda imediata dos atrasos. Segundo o relatório, trabalhadores mais confiantes na manutenção do emprego podem continuar assumindo gastos e dívidas não bancárias, reduzindo a renda disponível para honrar compromissos já existentes.
Para o investidor, essa dinâmica ajuda a explicar por que a qualidade do crédito continua no radar dos bancos. Spreads mais altos podem favorecer receitas, enquanto uma inadimplência persistente tende a exigir provisões maiores e pressionar os resultados.
Eleição e fiscal entram no radar do mercado
Em outra frente, a Mapfre também destaca o aumento da cautela dos investidores com o cenário doméstico.
Na última semana, o Ibovespa recuou 3,3%, enquanto o dólar avançou 2,7%, para R$ 5,22. Segundo a gestora, o aumento das chances atribuídas pelo mercado à vitória do atual governo na eleição presidencial, somado ao fluxo negativo de estrangeiros na Bolsa, voltou a colocar a trajetória fiscal no centro das atenções.
No exterior, o movimento foi diferente. S&P 500 e Nasdaq terminaram a semana em alta, enquanto dados de inflação nos Estados Unidos vieram mais fracos que o esperado.
Na avaliação da Mapfre Investimentos, o cenário brasileiro segue marcado por uma combinação de juros elevados, piora da inadimplência e maior cautela com o fiscal, fatores que continuam influenciando tanto o comportamento das famílias quanto a percepção de risco dos investidores.
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