A conta chegou para as famílias brasileiras, e o mercado começa a olhar com mais atenção para o risco de efeito dominó. A inadimplência de pessoas físicas atingiu 5,4% em abril de 2026, maior nível da série do Banco Central iniciada em 2012, segundo informe mensal da Mapfre Investimentos. O dado aparece em um momento de renda mais comprometida, juros altos e endividamento elevado, fatores que podem pressionar consumo, crédito e atividade econômica nos próximos meses.
De acordo com o relatório, mais da metade da população adulta brasileira está endividada. O documento também aponta que o ritmo de expansão do endividamento das famílias está entre os mais altos na comparação internacional, enquanto as taxas de juros do crédito para pessoas físicas seguem acima do avanço da massa de salários.
Inadimplência volta a lembrar o ciclo de 2012
A Mapfre compara o quadro atual com o período posterior a 2012, quando a inadimplência também acelerou e ajudou a pressionar o ciclo econômico. Naquele momento, os atrasos levaram a aumento dos spreads bancários, encarecendo empréstimos também para consumidores adimplentes.
O relatório lembra que o consumo se contraiu conforme as famílias perderam acesso a novas linhas de crédito, afetando vendas, margens de indústrias e varejo, além da criação de postos de trabalho. O documento cita que a economia brasileira desacelerou em 2013 e entrou em recessão em 2014.
Há diferenças em relação ao passado. Antes, os bancos públicos tiveram papel relevante no aumento do endividamento, com maior exposição de empregados públicos. Agora, segundo a Mapfre, os bancos privados nacionais são os que mais ampliaram concessões, especialmente para tomadores do setor privado no quintil de renda mais baixo.
Crédito caro pode pesar no varejo
O impacto no consumo já aparece nos dados acompanhados pela Mapfre. Em abril, as vendas físicas do varejo avançaram apenas 0,2% em 12 meses, enquanto a inadimplência de pessoas físicas chegou a 5,4%. Em 2025, a inadimplência estava em 5,0%, e as vendas físicas ficaram estáveis.
O alerta é que o cenário atual já combina spreads elevados nas concessões de crédito e número alto de recuperações judiciais. Além disso, o relatório destaca que tanto o número de dívidas negativadas quanto o valor médio das dívidas por devedor estão em níveis recordes.
Mês também teve dólar e Ibovespa pressionados
Na carta do gestor, a Mapfre destaca que junho foi marcado por mercados em sentidos divergentes. O Ibovespa caiu 1,01%, aos 172 mil pontos, com fluxo estrangeiro negativo em cerca de R$ 8 bilhões no mês, apesar de ainda positivo em aproximadamente R$ 34 bilhões no acumulado do ano. O dólar subiu 2,41%, a R$ 5,18.
Nos Estados Unidos, Nasdaq e S&P 500 recuaram 2,81% e 1,34%, respectivamente, em meio à cautela com inteligência artificial e juros. No Brasil, o IPCA de maio avançou 0,58%, acima do esperado, enquanto o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
A inadimplência segue como ponto central do relatório porque pode limitar a renda disponível, encarecer o crédito e reduzir o espaço para consumo. Como resume a Mapfre, “cada endividado tem mais dívidas do que no passado”, uma diferença que representa “agravante adicional para o presente”.
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